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Rand olhou para Bunt antes de responder. O fazendeiro olhava a cidade, fascinado; com o barulho, era possível que ele não tivesse ouvido. Mesmo assim, Rand falou junto ao ouvido de Mat.

— Como eles podem nos encontrar no meio de tanta gente? Não está vendo, seu idiota de cabeça de lã? Estaremos seguros, se você conseguir aprender a segurar essa sua maldita língua! — Ele estendeu a mão para abarcar tudo, os mercados, as muralhas da cidade ainda à frente. — Olhe isso, Mat! Qualquer coisa poderia acontecer aqui. Qualquer coisa! Poderíamos até mesmo encontrar Moiraine esperando por nós, e Egwene, e todos os outros.

— Se estiverem vivos. Se você quer a minha opinião, eles estão tão mortos quanto o menestrel.

O sorriso desapareceu do rosto de Rand, e ele se virou para olhar os portões que se aproximavam. Qualquer coisa podia acontecer numa cidade como Caemlyn. Ele se ateve, teimoso, a esse pensamento.

O cavalo não conseguia andar mais rápido, por mais que Bunt sacudisse as rédeas; quanto mais perto dos portões chegavam, mais densa a multidão ficava, pessoas se empurrando coladas, pressionando as carroças e os carroções que iam entrando. Rand ficou feliz por ver que uma boa parte era de jovens a pé, cobertos de poeira e com poucos pertences. Qualquer que fosse a idade, grande parte da multidão que ia na direção dos portões tinha um aspecto fatigado de viagem, carroças caindo aos pedaços e cavalos cansados, roupas amarrotadas por muitas noites de sono difícil, passos arrastados e olhos cansados. Mas, cansados ou não, os olhares se fixavam nos portões como se passar para dentro das muralhas fosse acabar com toda a fadiga.

Meia dúzia de Guardas da Rainha postava-se junto aos portões, seus coletes vermelhos e brancos limpos e malhas e placas polidas, num contraste agudo com a maioria das pessoas que afluíam sob o arco de pedra. Costas rígidas e cabeças retas, eles olhavam os recém-chegados com desconfiança e desdém. Estava claro que prefeririam mandar voltar a maioria dos que entravam. Entretanto, além de manter a passagem livre para o tráfego que deixava a cidade e dizer palavras duras para os que tentassem forçar passagem rápido demais, eles não impediam ninguém de passar.

— Fiquem em seus lugares. Não empurrem. Não empurrem! Que a Luz os cegue! Há espaço para todos, que a Luz nos ajude. Fiquem em seus lugares.

A carroça de Bunt passou pelos portões com a maré lenta da multidão e entrou em Caemlyn.

A cidade ficava sobre colinas baixas, como degraus subindo em direção a um centro. Outra muralha cercava esse centro, reluzindo num branco puro e percorrendo as colinas. Do lado de dentro havia ainda mais torres e domos, em branco, ouro e púrpura, com sua elevação no topo das colinas fazendo-as parecer olhar de cima para o resto de Caemlyn. Rand achou que aquilo devia ser a Cidade Interior da qual Bunt havia falado.

A Estrada de Caemlyn propriamente dita mudava assim que entrava na cidade, tornando-se um amplo bulevar, dividido ao meio por largas faixas de grama arborizadas. A grama estava marrom, e os galhos das árvores estavam nus, mas as pessoas passavam apressadas como se não vissem nada fora do normal, rindo, conversando, discutindo, fazendo tudo que as pessoas fazem. Como se não tivessem ideia de que não houvera primavera naquele ano, e poderia não haver. Elas não viam, Rand percebeu, não conseguiam ou não queriam ver. Seus olhos passavam ao largo dos galhos sem folhas, e elas caminhavam pela grama morta e moribunda sem olhar para baixo uma vez sequer. O que não viam podiam ignorar; o que não viam não estava de fato ali.

Olhando boquiaberto para a cidade e as pessoas, Rand foi pego de surpresa quando a carroça virou numa rua lateral, mais estreita que o bulevar, mas ainda duas vezes mais larga que qualquer rua em Campo de Emond. Bunt fez o cavalo parar e se virou para olhar os dois, hesitante. Ali, o tráfego era um pouco mais leve; a multidão se dividia ao redor da carroça sem reduzir a velocidade.

— O que você está escondendo debaixo do seu manto é realmente o que Holdwin diz?

Rand estava no ato de jogar seus alforjes sobre os ombros. Sequer piscou.

— O que você quer dizer? — Sua voz também estava firme. O estômago estava todo embrulhado, mas a voz mostrava-se firme.

Mat abafou um bocejo com uma das mãos, mas enfiou a outra embaixo do casaco, segurando a adaga de Shadar Logoth, Rand sabia, e seus olhos tinham um olhar duro, de animal caçado, sob o cachecol que lhe envolvia a cabeça. Bunt evitou olhar para Mat, como se soubesse que havia uma arma naquela mão escondida.

— Nada, eu acho. Agora olhem só. Se vocês ouviram que eu estava vindo para Caemlyn, ficaram ali tempo suficiente para ouvir o resto. Se eu estivesse atrás de recompensa, teria dado alguma desculpa para entrar na Ganso e Coroa e falar com Holdwin. Só que eu não gosto muito de Holwdin, e não gosto nem um pouco daquele amigo dele. Parece-me que ele quer vocês dois mais que… qualquer outra coisa.

— Eu não sei o que ele quer — disse Rand. — Nós nunca o vimos antes. — Poderia até ser verdade. Ele não conseguia distinguir um Desvanecido de outro.

— Bom, como eu digo, eu não sei de nada, e acho que não quero saber. Já há problema suficiente para todo mundo sem que eu precise sair procurando mais.

Mat demorou a pegar as próprias coisas, e Rand já estava na rua antes que ele começasse a descer. Rand aguardou impacientemente. Rígido, Mat deu as costas à carroça, abraçando arco e aljava e o rolo do cobertor ao peito, resmungando baixinho. Sombras pesadas escureciam suas pálpebras inferiores.

O estômago de Rand roncou, e ele fez uma careta. A fome combinada com um revirar ácido no estômago o fez ter medo de vomitar. Mat o encarava, esperando. Para que lado ir? O que fazer agora?

Bunt se inclinou e fez um gesto para que ele se aproximasse. Ele foi, na esperança de receber algum conselho sobre Caemlyn.

— Eu esconderia essa… — O velho fazendeiro fez uma pausa e olhou ao redor, desconfiado. Pessoas passavam pelos dois lados da carroça, mas, tirando umas poucas imprecações sobre estarem bloqueando o caminho, ninguém lhes dava a menor atenção. — Pare de usá-la — disse. — Esconda, venda. Dê. Meu conselho é esse. Uma coisa dessas vai chamar atenção, e eu acho que você não quer nada disso.

Endireitou-se subitamente, estalando a língua para o cavalo, e seguiu devagar pela rua lotada sem dizer mais uma palavra nem olhar para trás. Um carroção carregado de barris veio na direção deles. Rand pulou fora do caminho, cambaleou, e quando tornou a olhar, Bunt e sua carroça haviam sumido de vista.

— O que vamos fazer agora? — perguntou Mat. Ele umedeceu os lábios, fitando de olhos arregalados todas as pessoas que passavam apressadas e os prédios que se agigantavam, com até seis andares. — Estamos em Caemlyn, mas o que vamos fazer? — Ele havia destampado as orelhas, mas suas mãos tremiam como se ele quisesse pô-las de volta. Um zumbido pairava sobre a cidade, o ruído baixo e constante de centenas de lojas trabalhando, milhares de pessoas conversando. Para Rand, era como estar dentro de uma colmeia gigante. — Mesmo que estejam aqui, Rand, como poderíamos encontrá-los em tudo isto?

— Moiraine nos encontrará — disse Rand devagar. A imensidão da cidade lhe pesava nos ombros; queria sair dali, esconder-se de todas aquelas pessoas e daquele ruído. O vazio lhe escapava, apesar dos ensinamentos de Tam; seus olhos traziam a cidade inteira com eles. Concentrou-se no que estava imediatamente à sua volta, ignorando tudo o que se encontrava mais além. Olhando apenas aquela única rua, ela quase parecia Baerlon. Baerlon, o último lugar em que haviam todos achado que estavam a salvo. Ninguém mais está a salvo. Talvez eles estejam mesmo todos mortos. O que fazer então?

— Eles estão vivos! Egwene está viva! — afirmou ferozmente. Diversos passantes olharam com estranheza para ele.