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— Talvez — disse Mat. — Talvez. E se Moiraine não nos encontrar? E se ninguém nos encontrar a não ser o… o… — Ele estremeceu, incapaz de dizer a palavra.

— Vamos pensar nisso quando chegar a hora — respondeu Rand com firmeza. — Se acontecer. — A pior das hipóteses significava procurar Elaida, a Aes Sedai do Palácio. Seguiria até Tar Valon primeiro. Não sabia se Mat se lembrava do que Thom dissera sobre a Ajah Vermelha… e a Negra… mas ele certamente lembrava. Seu estômago começou a dar voltas novamente. — Thom disse para procurarmos uma estalagem chamada A Bênção da Rainha. É para lá que iremos primeiro.

— Como? Não temos condições nem sequer de dividir uma refeição.

— Pelo menos é um lugar por onde começar. Thom achou que poderíamos encontrar ajuda lá.

— Eu não posso… Rand, eles estão por toda parte. — Mat baixou os olhos até as pedras do calçamento e pareceu encolher, tentando se afastar das pessoas ao redor deles. — Para onde quer que a gente vá, eles estão bem atrás de nós, ou à nossa espera. Eles estarão na Bênção da Rainha também. Eu não posso… Nada vai deter um Desvanecido.

Rand agarrou o colarinho de Mat com a mão, que com muito esforço ele impedia de tremer. Precisava de Mat. Talvez os outros estivessem vivos… Luz, por favor!… mas, naquele momento, eram apenas Mat e ele. Pensar em prosseguir sozinho… Ele engoliu em seco e sentiu o gosto de bile.

Olhou ao redor rapidamente. Ninguém parecia ter ouvido Mat mencionar o Desvanecido; a multidão forçava passagem, perdida em suas próprias preocupações. Ele aproximou o rosto do de Mat.

— Nós chegamos até aqui, não chegamos? — perguntou, num sussurro rouco. — Não nos pegaram ainda. Vamos conseguir chegar até o fim. Basta não desistirmos. Eu não vou simplesmente desistir e esperar por eles como uma ovelha pelo abate. Não vou! Bem, você vai ficar parado aqui até morrer de fome? Ou até eles virem apanhá-lo num saco?

Ele soltou Mat e lhe deu as costas. Suas unhas estavam cravadas nas palmas das mãos, mas estas ainda tremiam. De repente Mat estava caminhando ao seu lado, os olhos ainda abaixados, e Rand soltou um longo suspiro.

— Desculpe, Rand — resmungou Mat.

— Esqueça — disse Rand.

Os olhos de Mat mal se erguiam o suficiente para que ele evitasse esbarrar nas pessoas enquanto as palavras saíam numa voz sem vida.

— Não consigo parar de pensar que nunca mais vou ver minha casa. Eu quero ir para casa. Pode rir se quiser; eu não ligo. O que eu não daria para ter minha mãe me fazendo um sermão neste momento. É como um peso no meu cérebro; um peso quente. Estranhos por todos os lados, e nenhum jeito de saber em quem confiar, se é que posso confiar em alguém. Luz, os Dois Rios estão tão longe que parecem estar do outro lado do mundo. Estamos sozinhos, e nunca vamos voltar para casa. Nós vamos morrer, Rand.

— Ainda não — retorquiu Rand. — Todo mundo morre. A Roda gira. Mas eu não vou me enroscar num canto e esperar que isso aconteça.

— Parece Mestre al’Vere falando — resmungou Mat, mas sua voz já havia se animado um pouco.

— Ótimo — disse Rand. — Ótimo. — Luz, permita que os outros estejam todos bem. Por favor, não nos deixe sozinhos.

Ele começou a pedir orientações sobre como chegar à Bênção da Rainha. As respostas variavam imensamente — um impropério contra todos que não ficavam em seus devidos lugares ou um dar de ombros e um olhar vazio sendo as mais comuns. Outros passavam direto sem mais que um olhar de relance, se tanto.

Um homem de rosto largo, quase tão grande quanto Perrin, inclinou a cabeça e disse:

— A Bênção da Rainha, hein? Vocês garotos da roça são homens da Rainha? — Ele usava um laço branco no chapéu de aba larga e uma faixa branca no braço de seu casaco longo. — Bem, vocês chegaram tarde demais.

Ele saiu gargalhando estrondosamente, deixando Rand e Mat se entreolhando, intrigados. Rand deu de ombros: havia muita gente esquisita em Caemlyn, gente como ele nunca havia visto antes.

Algumas pessoas se destacavam na multidão, com a pele muito escura ou muito clara, casacos de cortes estranhos ou cores vivas, chapéus pontudos ou com penachos longos. Havia mulheres com véus cobrindo o rosto, mulheres com vestidos armados de largura igual à altura de quem o usava, mulheres com vestidos que deixavam mais pele à mostra que qualquer empregada de taverna que ele já vira. Ocasionalmente uma carruagem, toda pintada em cores vivas e folheada a ouro, espremia-se pelas ruas lotadas atrás de uma parelha de quatro ou seis cavalos com plumas nos arreios. Liteiras estavam por toda parte, os carregadores abrindo caminho sem se importar com quem empurravam para os lados.

Rand viu uma briga começar assim, um grupo agressivo de homens balançando os punhos enquanto outro homem, de pele muito clara, usando um casaco de listras vermelhas, descia da liteira caída de lado. Dois homens vestidos de maneira rústica, que pareciam estar apenas de passagem por ali até então, pularam em cima dele antes que saísse do caminho. A multidão que havia parado para ver começou a ficar furiosa, resmungando e brandindo os punhos. Rand puxou Mat pela manga e saiu apressado. Mat não precisou de um segundo chamado. O rugido de um pequeno tumulto os acompanhou rua abaixo.

Por diversas vezes outros homens se aproximaram dos dois, e não o contrário. Suas roupas cheias de pó os marcavam como recém-chegados, e eles pareciam agir como um ímã para certos tipos. Sujeitos furtivos que ofereciam relíquias de Logain com olhares inquietos e pés prontos para correr. Rand calculou que lhe ofereceram pedaços suficientes do manto do falso Dragão e fragmentos de sua espada para fazer duas espadas e meia dúzia de mantos. O rosto de Mat brilhou com interesse, pelo menos da primeira vez, mas Rand dava a todos um não seco, e eles o aceitavam com um aceno de cabeça e um rápido “A Luz ilumine a Rainha, bom mestre”, e sumiam. A maior parte das lojas tinha pratos e copos pintados com cenas exóticas que propunham mostrar o falso Dragão sendo exibido diante da Rainha. E havia Mantos-brancos nas ruas. Cada qual caminhava em um espaço aberto que se movia junto com ele, assim como em Baerlon.

Passar despercebido foi algo sobre o que Rand pensou bastante. Ele mantinha o manto sobre a espada, mas isso não seria suficiente por muito tempo. Mais cedo ou mais tarde alguém iria se perguntar o que ele estava escondendo. Ele não iria, não podia, aceitar o conselho de Bunt para deixar de usá-la, não seu vínculo com Tam. Com seu pai.

Muitos outros na multidão usavam espadas, mas nenhuma com a marca da garça para chamar atenção. Todos os homens de Caemlyn, entretanto, e alguns dos estranhos, tinham suas espadas envoltas em faixas de pano, bainha e punho, vermelhas amarradas com cordas brancas, ou brancas amarradas com cordas vermelhas. Uma centena de marcas da garça podia se esconder embaixo daquelas faixas e ninguém veria. Além disso, seguir a moda local faria com que eles parecessem mais ajustados ao lugar.

Uma boa quantidade de lojas apresentava na frente bancadas que exibiam os panos e cordões, e Rand parou em uma delas. O pano vermelho era mais barato que o branco, embora ele não conseguisse ver diferença entre eles além da cor, de modo que comprou esse e o cordão branco para combinar, apesar das queixas de Mat sobre quão pouco dinheiro ainda tinham. O vendedor de lábios contraídos os olhou de cima a baixo com a boca torcida enquanto aceitava os cobres de Rand, e os xingou quando Rand pediu para amarrar sua espada em um lugar ali dentro.

— Não viemos ver Logain — disse Rand pacientemente. — Viemos só para ver Caemlyn. — Lembrou-se de Bunt e acrescentou: — A maior cidade do mundo. — A carranca do vendedor permaneceu. — Que a Luz ilumine a boa Rainha Morgase — insistiu Rand, esperançoso.

— Se vocês criarem qualquer problema — disse o homem, amargo —, há cem homens ao alcance da minha voz que virão e cuidarão de vocês mesmo que os Guardas não o façam. — Fez uma pausa para cuspir, errando por pouco o pé de Rand. — Vão logo cuidar da vidinha suja de vocês.