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Rand piscou.

— Bosques?

— Sim, os bosques. As árvores. Apenas algumas das Grandes Árvores, é claro, subindo, altaneiras, para o céu a fim de manter viva a lembrança dos pousos. — Sua cadeira gemeu quando ele deslocou o peso para a frente, gesticulando com as mãos, uma das quais ainda segurava o livro. Seus olhos brilhavam mais do que nunca, e as orelhas quase estremeceram. — Na maioria das vezes eles utilizavam as árvores da terra e da região. Não se pode fazer a terra ir contra si mesma. Não por muito tempo; a terra se rebela. Você precisa moldar a visão à terra, não a terra à visão. Em cada bosque foi plantada cada árvore que cresceria e floresceria naquele lugar, cada uma equilibrada com relação à seguinte, cada qual colocada para complementar as outras, para o melhor crescimento, é claro, mas também de forma que o equilíbrio cantasse aos olhos e ao coração. Ah, os livros falavam de bosques que faziam Anciões chorarem e rirem ao mesmo tempo, bosques para permanecer verdes para sempre na memória.

— E quanto às cidades? — perguntou Rand. Loial lhe dirigiu um olhar intrigado. — As cidades. As cidades que os Ogier construíram. Aqui, por exemplo. Caemlyn. Foram Ogier que construíram Caemlyn, não foram? As histórias contam isso.

— Trabalhar com pedra… — Loial deu de ombros, um movimento enorme. — Foi algo que aprendemos nos anos após a Ruptura, durante o Exílio, quando ainda estávamos tentando reencontrar os pousos. É uma coisa boa, suponho, mas não é a coisa genuína. Por mais que você tente, e eu li que os Ogier que construíram as cidades realmente tentaram, não se consegue dar vida à pedra. Uns poucos ainda trabalham com pedra, mas apenas porque vocês humanos danificam os prédios tão frequentemente com suas guerras. Havia um punhado de Ogier em… ah… Cairhien, é como se chama agora… quando passei por lá. Por sorte eram de outro pouso, então não sabiam nada a meu respeito, mas mesmo assim ficaram desconfiados por eu estar Fora sozinho tão jovem. Suponho que tenha sido bom também não haver razão para eu ficar por lá. De qualquer maneira, trabalhar com pedra é simplesmente uma coisa que nos foi imposta pela trama do Padrão; os bosques vieram do coração.

Rand balançou a cabeça. Metade das histórias com as quais ele crescera havia acabado de vir abaixo.

— Eu não sabia que os Ogier acreditavam no Padrão, Loial.

— Claro que acreditamos. A Roda do Tempo tece o Padrão das Eras, e as vidas são os fios que ela tece. Ninguém sabe dizer como o fio de sua própria vida será tecido dentro do Padrão, ou como o fio de um povo será tecido. Ela nos deu a Ruptura do Mundo, e o Exílio, e a Pedra, e a Saudade, e acabou nos devolvendo os pousos antes que todos morrêssemos. Às vezes penso que a razão pela qual vocês humanos são do jeito que são é porque seus fios são tão curtos. Eles precisam pular no meio da trama. Ah, pronto, fiz de novo. Os Anciões dizem que vocês humanos não gostam de ser lembrados do tempo tão curto que vivem. Espero não ter ferido seus sentimentos.

Rand riu e balançou a cabeça.

— De jeito nenhum. Suponho que seria divertido viver tanto tempo quanto vocês, mas nunca pensei a respeito. Acho que viver tanto quanto o velho Cenn Buie já seria o bastante para qualquer um.

— Ele é um homem muito velho?

Rand apenas assentiu. Não ia explicar que o velho Cenn Buie não era tão velho quanto Loial.

— Bem — disse Loial —, talvez vocês humanos tenham de fato vidas curtas, mas fazem tanta coisa com elas, sempre pulando de um lado para outro, sempre tão apressados! E vocês têm o mundo inteiro para isso. Nós, Ogier, estamos presos aos nossos pousos.

— Você está Fora.

— Por algum tempo, Rand. Mas um dia terei de voltar. Este mundo é seu, seu e da sua espécie. Os pousos são meus. Aqui Fora há muito barulho e confusão. E tanta coisa mudou em relação ao que eu havia lido…

— Bem, as coisas mudam ao longo dos anos. Algumas, pelo menos.

— Algumas? Metade das cidades sobre as quais li não existe mais, e a maioria das restantes é conhecida por nomes diferentes. Cairhien, por exemplo. O nome adequado da cidade é Al’cair’rahienallen, Colina da Aurora Dourada. Eles nem sequer se lembram, apesar do nascer do sol em seus estandartes. E o bosque de lá? Duvido que ele tenha sido cuidado desde as Guerras dos Trollocs. É apenas outra floresta agora, onde eles cortam lenha. As Grandes Árvores desapareceram todas, e ninguém se lembra delas. E aqui? Caemlyn ainda é Caemlyn, mas eles deixaram a cidade crescer bem em cima do bosque. Não estamos nem a um quarto de milha do centro dele bem aqui onde estamos sentados… ou de onde o centro dele deveria estar. Não restou uma árvore sequer. Eu também estive em Tear e Illian. Nomes diferentes, e nenhuma lembrança. Só há pasto para seus cavalos onde ficava o bosque em Tear, e em Illian o bosque é o parque do Rei, onde ele caça seus cervos, e ninguém pode entrar sem a permissão dele. Tudo mudou, Rand. Tenho muito receio de encontrar a mesma coisa em todo lugar aonde for. Todos os bosques perdidos, todas as memórias perdidas, todos os sonhos mortos.

— Você não pode desistir, Loial. Não pode desistir jamais. Se desistisse, seria o mesmo que estar morto. — Rand afundou novamente em sua cadeira até onde podia ir, o rosto ficando vermelho. Ele esperou que o Ogier risse dele, mas em vez disso Loial concordou muito sério com um aceno de cabeça.

— Sim, é assim a sua espécie, não é? — A voz do Ogier mudou, como se ele estivesse citando alguém. — Até que os abrigos se vão, até que a água se vá, saltando na Sombra com os dentes à mostra, gritando em desafio com seu último fôlego, para cuspir no olho do Tira-visão no Último Dia. — Loial inclinou a cabeça peluda esperando algo, mas Rand não fazia ideia do quê.

Um minuto se passou com Loial esperando, depois outro, e suas sobrancelhas começaram a abaixar, intrigadas. Mas ele ainda assim ficou esperando, num silêncio cada vez mais incômodo para Rand.

— As Grandes Árvores — disse Rand finalmente, só para que alguma coisa quebrasse aquele silêncio —, elas são como Avendesora?

Loial se endireitou na cadeira de repente; a cadeira gemeu e rangeu tão alto que Rand achou que ela iria desmontar.

— Você sabe que não é isso. Logo você.

— Eu? Como é que eu iria saber?

— Está brincando comigo? Às vezes vocês do Deserto Aiel acham engraçadas as coisas mais estranhas.

— O quê? Eu não sou do Deserto Aiel! Eu sou dos Dois Rios. Eu nunca sequer vi um Aiel!

Loial balançou a cabeça, e os tufos em suas orelhas se projetaram para fora e para baixo.

— Está vendo? Está tudo mudado, e metade do que eu sei é inútil. Espero não tê-lo ofendido. Tenho certeza de que seus Dois Rios são um lugar muito bom, seja lá onde for.

— Alguém me contou — disse Rand — que ele um dia se chamou Manetheren. Eu nunca tinha ouvido falar, mas quem sabe você…

As orelhas do Ogier se agitaram, felizes.

— Ah! Sim. Manetheren. — Os tufos desceram novamente. — Havia um belo bosque lá. Sua dor canta no meu coração, Rand al’Thor. Nós não conseguimos chegar a tempo.

Loial fez uma mesura de onde estava, e Rand retribuiu o gesto. Ele suspeitava que Loial ficaria magoado se ele não o fizesse, pensaria que era no mínimo rude. Ficou imaginando se Loial achava que ele tinha o mesmo tipo de memória que os Ogier pareciam ter. Os cantos da boca e dos olhos de Loial estavam certamente voltados para baixo, como se ele estivesse compartilhando da dor da perda de Rand, como se a destruição de Manetheren não fosse algo ocorrido mais ou menos dois mil anos antes, algo de que Rand só sabia por causa da história de Moiraine.

Depois de algum tempo, Loial suspirou.

— A Roda gira — disse ele —, e ninguém conhece o seu giro. Mas você está quase tão longe de casa quanto eu. Uma distância bem considerável, do jeito que as coisas estão hoje. Quando os Caminhos eram abertos livremente, é claro… mas isso foi há muito tempo. Diga-me: o que o traz tão longe? Há alguma coisa que você queira ver também?