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Rand abriu a boca para dizer que tinham vindo para ver o falso Dragão… e não conseguiu. Talvez fosse porque Loial agia como se não fosse mais velho do que Rand, noventa anos de idade ou não. Talvez para um Ogier noventa anos fosse o equivalente da idade dele. Fazia muito tempo desde que conseguira realmente conversar com alguém sobre o que estava acontecendo. Sempre havia o medo de que as pessoas fossem Amigos das Trevas, ou de que achassem que ele o era. Mat estava tão ensimesmado, alimentando seus temores com as próprias desconfianças, que não dava para conversar com ele. Rand se viu contando a Loial sobre a Noite Invernal. Não uma história vaga sobre Amigos das Trevas; mas a verdade sobre os Trollocs arrombando sua porta, e um Desvanecido na Estrada da Pedreira.

Parte dele sentia-se horrorizada com o que estava fazendo, mas era quase como se ele fosse duas pessoas, uma tentando segurar a língua enquanto a outra sentia apenas o alívio de ser capaz de finalmente contar tudo. O resultado foi que ele tropeçou, gaguejou e pulou de um lado para outro da história. Shadar Logoth e a perda de seus amigos na noite, sem saber se estavam vivos ou mortos. O Desvanecido em Ponte Branca, e Thom morrendo para que eles pudessem escapar. O Desvanecido em Baerlon. Amigos das Trevas depois, Howal Gode, e o garoto que tinha medo deles, e a mulher que tentara matar Mat. O Meio-homem do lado de fora da Ganso e Coroa.

Quando ele começou a falar sobre sonhos, mesmo a parte dele que queria desabafar sentiu os pelos se eriçarem na nuca. Ele se conteve e trincou os dentes. Respirando pesado pelo nariz, ficou observando o Ogier com desconfiança, torcendo para que ele achasse que se tratava de pesadelos. A Luz sabia que tudo aquilo soava como um pesadelo, ou o suficiente para dar pesadelos a qualquer um. Talvez Loial pensasse simplesmente que ele estava ficando louco. Talvez…

Ta’veren — disse Loial.

Rand piscou.

— O quê?

Ta’veren — Loial coçou atrás de uma das orelhas pontudas com um dedo grosso e deu de ombros levemente. — O Ancião Haman sempre dizia que eu nunca escutava, mas às vezes escutava sim. Às vezes eu escutava. Você sabe como o Padrão é tecido, sim?

— Nunca parei realmente para pensar nisso — disse Rand, devagar. — Ele simplesmente é.

— Sim, bem. Não exatamente. Sabe, a Roda do Tempo tece o Padrão das Eras, e os fios que ela utiliza são vidas. Não é fixo, o Padrão. Nem sempre. Se um homem tenta mudar a direção de sua vida, e o Padrão tem espaço para isso, a Roda simplesmente tece e acomoda isso. Sempre existe espaço para pequenas mudanças, mas às vezes o Padrão simplesmente não aceita uma mudança grande, não importa o quanto você tente. Entende?

Rand assentiu.

— Eu poderia viver na fazenda ou em Campo de Emond, e essa seria uma mudança pequena. Mas se eu quisesse ser um rei… — Ele deu uma risada, e Loial deu um sorriso que quase partiu seu rosto em dois. Seus dentes eram brancos, e do tamanho de cinzéis.

— Sim, é isso mesmo. Mas às vezes a mudança escolhe você, ou a Roda escolhe a mudança para você. E às vezes a Roda dobra um fio de vida, ou vários fios, de forma tal que todos os fios em volta são forçados a girar em torno deles, e os segundos forçam outros fios, que por sua vez forçam mais outros, e assim por diante. Aquela primeira dobra para compor a Teia, isso é ta’veren, e não há nada que você possa fazer para mudá-la, não até que o próprio Padrão mude. A Teia, ta’maral’ailen, como ela é chamada, pode durar semanas, ou anos. Pode envolver uma cidade, ou até mesmo todo o Padrão. Artur Asa-de-gavião era ta’veren. Lews Therin Fratricida também era, suponho. — Ele soltou uma risadinha retumbante. — O Ancião Haman teria orgulho de mim. Ele não parava de falar, e, apesar de os livros sobre viagens serem muito mais interessantes, eu escutava às vezes.

— Isso tudo é muito bom — disse Rand —, mas não entendo o que tem a ver comigo. Eu sou um pastor, não outro Artur Asa-de-gavião. Nem Mat, nem Perrin. Isso é simplesmente… ridículo.

— Eu não disse que você era, mas quase pude sentir o Padrão girando em torno de você ao ouvi-lo contar sua história, e eu não tenho nenhum Talento para isso. Você é ta’veren, sim. Você e talvez seus amigos também. — O Ogier fez uma pausa, esfregando pensativamente a ponta do nariz largo. Por fim ele assentiu para si mesmo como se tivesse chegado a uma decisão. — Eu quero viajar com você, Rand.

Por um minuto Rand ficou olhando fixamente para ele, perguntando-se se havia ouvido direito.

— Comigo?! — exclamou quando conseguiu falar. — Não ouviu o que eu disse a respeito de…? — Olhou subitamente para a porta. Ela estava bem fechada, e era espessa o bastante para que qualquer um que tentasse escutar do outro lado ouvisse apenas um murmúrio, mesmo com a orelha colada à madeira. Mesmo assim, ele continuou falando com voz baixa. — A respeito de quem está me caçando? Além do mais, pensei que você quisesse ir ver suas árvores.

— Há um bosque muito bom em Tar Valon, e me disseram que as Aes Sedai o mantêm bem cuidado. Além disso, não quero só ver as árvores. Talvez você não seja outro Artur Asa-de-gavião, mas, pelo menos durante algum tempo, parte do mundo irá se moldar ao seu redor. Talvez esteja se moldando ao seu redor neste exato momento. Até mesmo o Ancião Haman iria querer ver isso.

Rand hesitou. Seria bom ter mais alguém junto. Do jeito como Mat vinha se comportando, estar com ele era quase como estar sozinho. O Ogier era uma presença reconfortante. Talvez ele fosse jovem da maneira como os Ogier calculavam idade, mas ele parecia imóvel como uma rocha, como Tam. E Loial havia estado em todos aqueles lugares, e sabia sobre outros. Ele olhou para o Ogier, sentado ali com sua cara larga, o retrato da paciência. Sentado ali, e mais alto sentado que a maioria dos homens em pé. Como se esconde alguém com quase duas braças de altura? Ele suspirou e balançou a cabeça.

— Não acho que seja uma boa ideia, Loial. Mesmo que Moiraine nos encontre aqui, estaremos em perigo durante todo o caminho até Tar Valon. Se ela não nos encontrar… — Se ela não nos encontrar, então está morta, e todos os outros também. Oh, Egwene. Balançou com força a cabeça. Egwene não estava morta, e Moiraine os encontraria.

Loial olhou para ele com simpatia e tocou seu ombro.

— Tenho certeza de que seus amigos estão bem.

Rand assentiu em agradecimento. Sua garganta estava apertada demais para falar.

— Você pelo menos conversará comigo de vez em quando? — Loial suspirou, um som baixo, profundo. — E talvez me enfrente em um jogo de pedras? Não falo com ninguém há dias, com exceção do bom Mestre Gill, e ele está ocupado a maior parte do tempo. A cozinheira parece fustigá-lo sem dó nem piedade. Talvez ela é que seja de fato a dona da estalagem, não?

— Sim, claro. — A voz de Rand saiu rouca. Ele pigarreou, limpando a garganta, e tentou sorrir. — E se nos encontrarmos em Tar Valon você poderá me mostrar o bosque de lá. — Eles têm de estar bem. A Luz permita que estejam todos bem.

37

A Longa Perseguição

Nynaeve segurou firme as rédeas dos três cavalos e olhou noite adentro como se pudesse de algum modo devassar a escuridão e encontrar a Aes Sedai e o Guardião. Árvores esqueléticas a cercavam, rígidas e negras à luz fraca do luar. As árvores e a noite davam uma cobertura eficiente para o que quer que Moiraine e Lan estivessem fazendo. Não que qualquer dos dois tivesse parado para explicar a ela o que era. Um “Mantenha os cavalos quietos” vindo de Lan, e eles se foram, deixando-a ali parada em pé como um cavalariço. Ela olhou de relance para os cavalos e suspirou, exasperada.