Ela engoliu em seco com dificuldade. Caçar coelhos era uma coisa; guardas, entretanto, com lanças e espadas… Então ele acha que eu sou boa, é?
— Eu consigo.
Lan assentiu novamente, como se não tivesse esperado menos que isso.
— Mais uma coisa. Há lobos por perto esta noite. Eu vi dois, e, se vi essa quantidade, provavelmente existem mais. — Ele fez uma pausa, e, embora sua voz não mudasse, ela teve a sensação de que ele estava intrigado. — Foi quase como se eles quisessem que eu os visse. De qualquer maneira, eles não devem incomodar você. Os lobos costumam manter distância das pessoas.
— Eu não teria como saber disso — disse ela docemente —, tendo crescido cercada de pastores. — Ele soltou um grunhido, e ela sorriu na escuridão.
— Vamos agora, então — ele disse.
O sorriso dela desapareceu quando ela olhou bem para o acampamento abaixo, cheio de homens armados. Duzentos homens com lanças e espadas e… Antes que ela pudesse reconsiderar, desembainhou a faca e começou a descer. Moiraine pegou-a pelo braço com quase tanta força quanto Lan.
— Cuidado — disse baixinho a Aes Sedai. — Assim que cortar as cordas, volte o mais rápido que puder. Você faz parte do Padrão também, e eu não poria sua vida em perigo mais que a de qualquer um dos outros se o mundo inteiro não estivesse em perigo.
Nynaeve esfregou o braço discretamente quando Moiraine o soltou. Não a deixaria saber que o aperto machucara. Mas Moiraine voltou a observar o acampamento abaixo assim que a soltou. E o Guardião havia sumido, Nynaeve percebeu com um susto. Que a Luz cegue esse maldito homem! Rapidamente ela amarrou suas saias para dar mais liberdade às pernas e saiu correndo noite adentro.
Depois daquela primeira corrida, com galhos caídos estalando sob seus pés, ela reduziu a velocidade, feliz por não haver ninguém ali para vê-la enrubescer. A ideia era fazer silêncio, e ela não estava em nenhum tipo de competição com o Guardião. Ah, não?
Afastou esse pensamento e se concentrou em seguir pela floresta escura. A coisa em si não era difícil; a luz fraca da lua minguante era mais que suficiente para qualquer um que tivesse aprendido com seu pai, e o terreno tinha um declive suave e tranquilo. Mas as árvores, nuas e rígidas contra o céu noturno, a lembravam constantemente de que aquilo não era nenhuma brincadeira de criança, e o som agudo do vento era muito parecido com as cornetas dos Trollocs. Sozinha na escuridão, lembrava-se de que os lobos, que normalmente fugiam de gente, haviam se comportado de modo diferente nos Dois Rios naquele inverno.
O alívio a envolveu como um calor quando finalmente sentiu o cheiro dos cavalos. Quase prendendo a respiração, deitou de bruços e começou a se arrastar contra o vento, na direção do cheiro.
Estava quase em cima dos guardas quando os viu, marchando na direção dela pela noite, mantos brancos drapejando ao vento e quase reluzindo ao luar. Se estivessem carregando tochas, a luz não poderia tê-los deixado muito mais visíveis. Ela parou onde estava, tentando se tornar parte do chão. Bem perto, à sua frente, a menos de dez passos, eles pararam de marchar com uma batida de pés, de frente um para o outro, lanças aos ombros. Logo além deles ela podia distinguir sombras que tinham de ser os cavalos. O cheiro de estábulo, cavalos e estrume era forte.
— Tudo vai bem na noite — anunciou uma forma com um manto branco. — Que a Luz nos ilumine e nos proteja da Sombra.
— Tudo vai bem na noite — respondeu a outra. — Que a Luz nos ilumine e nos proteja da Sombra.
Com isso, eles se viraram e voltaram a marchar rumo à escuridão.
Nynaeve esperou, contando para si mesma enquanto eles faziam seu circuito duas vezes. De ambas eles levaram exatamente a mesma contagem, e a cada vez repetiam rigidamente a mesma fórmula, nem uma palavra a mais ou a menos. Nem sequer davam uma olhada de esguelha para o lado; olhavam direto para a frente ao virem marchando, e depois ao irem embora. Ela ficou se perguntando se eles teriam reparado nela mesmo que ela estivesse em pé.
Antes que a noite engolisse seus pálidos mantos tremulantes uma terceira vez, ela já estava de pé, correndo abaixada na direção dos cavalos. Ao se aproximar, reduziu a velocidade para não assustar os animais. Os guardas dos Mantos-brancos podiam não ver o que não estava enfiado bem debaixo de seus narizes, mas certamente investigariam se os cavalos começassem a relinchar.
Os cavalos nas fileiras de piquetes, e havia mais de uma fileira, eram massas quase indistintas na escuridão, com suas cabeças abaixadas. Ocasionalmente um deles resfolegava ou batia uma pata durante o sono. No luar pálido ela estava quase junto ao poste onde a corda estava amarrada antes de vê-la. Estendeu a mão para pegar a corda, e parou quando o cavalo mais próximo levantou a cabeça e olhou para ela. Sua rédea simples estava atada num laço grande ao redor da corda, da grossura de um polegar, que terminava no poste. Um relincho. Seu coração quase saía do peito, de tão forte que batia. Parecia tão alto que poderia chamar a atenção dos guardas.
Sem tirar os olhos do cavalo, ela cortou a corda, tateando na frente de sua lâmina para ver até que ponto havia cortado. O cavalo virou a cabeça, e ela gelou. Só um relincho.
Apenas alguns finos fios de cânhamo permaneciam inteiros sob seus dedos. Lentamente, ela passou para a corda seguinte, observando o cavalo até não poder mais ver se ele estava olhando para ela ou não, e então soltou o ar devagar. Se todos fossem assim, ela achava que não iria aguentar.
Mas na corda seguinte, e na seguinte, e na seguinte, os cavalos permaneceram dormindo, mesmo quando ela cortou o polegar e abafou um grito. Chupando o corte do dedo, ela olhou com desconfiança para o caminho por onde viera. Por estar contra o vento, não podia mais ouvir os guardas falarem, mas eles poderiam ouvi-la se estivessem no lugar certo. Se viessem ver o que era aquele ruído, o vento a impediria de ouvi-los até que estivessem bem em cima dela. Hora de ir embora. Com quatro de cada cinco cavalos à solta, eles não vão perseguir ninguém.
No entanto ela não se moveu. Podia imaginar os olhos de Lan quando ele ouvisse o que ela havia feito. Não haveria acusação neles; o raciocínio dela era correto, e ele não esperaria mais dela. Ela era uma Sabedoria, não um maldito Guardião invencível que podia se tornar praticamente invisível. Travando o maxilar, ela avançou até a última corda. O primeiro cavalo ali era Bela.
Não havia como se enganar com aquela forma peluda e atarracada; pois haver outro cavalo assim, ali e agora, seria uma coincidência grande demais. Subitamente ficou tão feliz por não ter deixado para trás aquela última corda que começou a tremer. Seus braços e pernas se sacudiam tanto que lhe davam medo de tocar a corda, mas sua mente estava tão clara quanto o Fonte de Vinho. Não importava qual dos rapazes estava no acampamento, Egwene encontrava-se ali também. E se partissem os dois montados no mesmo cavalo, alguns dos Filhos os alcançariam, por mais que os cavalos estivessem dispersos, e alguém morreria. Tinha tanta certeza disso quanto se estivesse ouvindo no vento. Isso lhe deu um frio terrível na barriga, medo de como ela estava certa. Isso não tinha nada a ver com o tempo, colheitas ou doenças. Por que Moiraine me disse que eu posso usar o Poder? Por que ela não me deixou em paz?
Estranhamente, o medo fez com que Nynaeve parasse de tremer. Com mãos tão firmes como se estivesse moendo ervas em sua casa, ela cortou a corda da mesma forma que havia feito com as outras. Reembainhando a adaga, desamarrou a rédea principal de Bela. A égua peluda acordou com um susto, sacudindo a cabeça, mas Nynaeve acariciou seu focinho e sussurrou suavemente no ouvido dela. Bela resfolegou baixinho e pareceu contente.
Outros cavalos naquela fileira também acordaram e olharam para ela. Lembrando-se de Mandarb, ela estendeu hesitantemente a mão para a rédea seguinte, mas o cavalo não fez objeção à mão de uma estranha. De fato, parecia até querer um pouco do carinho no focinho que Bela havia recebido. Ela agarrou a rédea de Bela com força e passou a outra ao redor do próprio pulso, o tempo todo observando, nervosa, o acampamento. As tendas pálidas estavam a meras quinze braças, e ela podia ver homens se movimentando em meio a elas. Se reparassem nos cavalos se mexendo e viessem ver o que havia provocado aquilo…