— Acorde! — gritou. — Egwene! Acorde!
— O qu… O quê? — A voz de Egwene estava assustada e ainda grogue de sono. Ela ergueu a cabeça, piscando com a luz do lampião.
Byar não mostrou nenhum sinal de decepção por não ser capaz de acordá-la com um chute. Simplesmente puxou com força as cordas dela do mesmo jeito que havia feito com Perrin, ignorando seus gemidos. Causar dor era outra daquelas coisas que pareciam não afetá-lo; Perrin era o único que ele realmente se esforçava para ferir. Mesmo que Perrin não conseguisse se lembrar, Byar não esquecia que ele havia matado dois dos Filhos.
— Por que Amigos das Trevas deveriam dormir — disse Byar de modo desapaixonado — quando homens decentes precisam ficar acordados para vigiá-los?
— Pela centésima vez — disse Egwene, fraca. — Não somos Amigos das Trevas.
Perrin ficou tenso. Às vezes uma negação dessas trazia uma lição num tom monocórdio rascante, sobre confissão e arrependimento, que levava a uma descrição dos métodos dos Questionadores para obtê-los. Às vezes trazia uma lição e um chute. Para sua surpresa, desta vez Byar ignorou.
Em vez disso, o homem se agachou na sua frente, todo ângulos e covas, com o machado no colo. O sol dourado no peito esquerdo de seu manto e as duas estrelas douradas embaixo dele reluziam à luz do lampião. Tirando o capacete, ele o colocou ao lado do lampião. Dessa vez havia alguma coisa além de desdém ou ódio em seu rosto, algo ilegível e determinado. Ele descansou os braços sobre o cabo do machado e ficou estudando Perrin intensamente. Perrin tentou não se mexer sob aquele olhar.
— Você está nos atrasando, Amigo das Trevas, você e seus lobos. O Conselho dos Ungidos já ouviu relatos de tais coisas, e eles querem saber mais, então você precisa ser levado para Amador e entregue aos Questionadores, mas você está nos atrasando. Eu havia esperado que pudéssemos nos mover com rapidez suficiente, mesmo sem as montarias de reserva, mas estava errado. — Ele ficou em silêncio, franzindo a testa para eles.
Perrin esperou; Byar lhe diria quando estivesse pronto.
— O Senhor Capitão está preso no abismo de um dilema — disse Byar por fim. — Por causa dos lobos ele deve levar você até o Conselho, mas ele também precisa chegar a Caemlyn. Não temos cavalos de sobra para carregar vocês, mas se continuarmos a deixá-los andar, não chegaremos a Caemlyn no tempo aprazado. O Senhor Capitão vê suas tarefas com determinação e pretende colocar você perante o Conselho.
Egwene emitiu um som. Byar estava encarando Perrin fixamente, e este o encarou de volta, quase com medo de piscar.
— Não estou entendendo — disse lentamente.
— Não há o que entender — replicou Byar. — Nada a não ser especulação. Se vocês escapassem, não teríamos tempo de procurá-los. Não temos uma hora sequer a perder se quisermos chegar a Caemlyn a tempo. Se vocês, digamos, cortassem as cordas com uma pedra afiada e sumissem à noite, o problema do Senhor Capitão estaria resolvido. — Sem tirar o olhar de Perrin, ele meteu a mão dentro do manto e jogou algo no chão.
Os olhos de Perrin seguiram a coisa automaticamente. Quando percebeu o que era, arquejou. Uma pedra. Uma pedra partida com ponta afiada.
— Mera especulação — disse Byar. — Mas seus guardas hoje também especulam.
A boca de Perrin ficou seca subitamente. Pense direito! Luz, ajude-me. Pense direito e não cometa nenhum erro!
Poderia ser verdade? A necessidade de os Mantos-brancos chegarem rápido a Caemlyn seria importante o bastante para isso? Deixar suspeitos de serem Amigos das Trevas escaparem? Não havia por que tentar pensar assim; ele não sabia o bastante. Byar era o único Manto-branco que falava com eles, além do Senhor Capitão Bornhald, e nenhum deles era exatamente generoso em matéria de informações. Outra linha de pensamento. Se Byar quisesse que eles fugissem, por que, simplesmente, não cortava as cordas? Byar querendo que eles fugissem? Byar, que estava convencido até a medula de que eles eram Amigos das Trevas? Byar, que odiava Amigos das Trevas mais do que odiava o próprio Tenebroso? Byar, que buscava qualquer desculpa para lhe provocar dor por ter matado dois Mantos-brancos? Byar queria que eles escapassem?
Se Perrin achara que sua mente estava em disparada antes, agora ela alcançava a velocidade de uma avalanche. Apesar do frio, o suor pingava de seu rosto. Olhou de esguelha para os guardas. Eram apenas sombras claras, cinzentas, mas pareceu-lhe que estavam preparados, esperando. Se ele e Egwene fossem mortos tentando escapar, e suas cordas tivessem sido cortadas numa pedra que pudesse ter ido parar ali por acaso… O dilema do Senhor Capitão teria sido resolvido sim, claro. E Byar os teria mortos, do jeito que os queria.
O homem magro pegou seu capacete ao lado do lampião e começou a se levantar.
— Espere — disse Perrin com a voz rouca. Seus pensamentos davam voltas e mais voltas enquanto ele procurava em vão uma saída. — Espere, eu quero falar. Eu…
O socorro está chegando!
O pensamento brotou em sua mente, um clarão límpido de luz em meio ao caos, tão estonteante que por um momento ele esqueceu de tudo o mais, até mesmo de onde estava. Pintada estava viva. Elyas, ele pensou para o lobo, exigindo sem palavras saber se o homem estava vivo. Uma imagem retornou. Elyas, deitado sobre um leito de ramos ao lado de uma pequena fogueira em uma caverna, cuidando de uma ferida no peito. Tudo levou apenas um instante. Ele olhou boquiaberto para Byar, e seu rosto se abriu num sorriso bobo. Elyas estava vivo. Pintada estava viva. O socorro estava chegando.
Byar fez uma pausa, agachado, olhando para ele.
— Você pensou em alguma coisa agora, Perrin dos Dois Rios, e eu quero saber o que foi.
Por um instante Perrin pensou que ele estava se referindo ao pensamento de Pintada. Seu rosto se encheu de pânico, acompanhado de alívio. Byar não tinha condição de saber.
Byar ficou observando suas mudanças de expressão, e pela primeira vez os olhos do Manto-branco se dirigiram para a pedra que ele havia jogado no chão.
Ele estava reconsiderando, Perrin percebeu. Se mudasse de ideia quanto à pedra, será que se atreveria a deixá-los vivos para falar? Cordas podiam ser cortadas depois que as pessoas que amarravam estivessem mortas, ainda que se corresse o risco da descoberta. Ele olhou no fundo dos olhos de Byar, os ocos ensombrecidos das órbitas dos olhos do homem dando a impressão de que ele olhava de dentro de cavernas escuras, e viu a decisão da morte.
Byar abriu a boca, e, enquanto Perrin esperava a sentença ser pronunciada, as coisas começaram a acontecer rápido demais para dar tempo de pensar.
Subitamente um dos guardas desapareceu. Num instante havia dois vultos na penumbra, no seguinte a noite engolia um deles. O segundo guarda se virou, o começo de um grito nos lábios, mas, antes que a primeira sílaba fosse pronunciada, ouviu-se um tchunc sólido e ele desabou feito uma árvore derrubada.
Byar se virou, rápido como uma víbora dando o bote, girando o machado em suas mãos com tanta rapidez que chegou a zunir. Perrin arregalou os olhos quando a noite pareceu fluir para dentro da luz do lampião. Sua boca se abriu para gritar, mas a garganta estava travada de medo. Por um instante ele chegou até a esquecer que Byar queria matá-los. O Manto-branco era outro ser humano, e a noite havia ganhado vida para levá-los a todos.
Então a escuridão que invadiu a luz se tornou Lan, o manto turbilhonando entre tons de cinza e preto enquanto ele se movia. O machado nas mãos de Byar atacou como um relâmpago… e Lan pareceu se inclinar casualmente para o lado, deixando a lâmina passar tão perto que devia ter sentido o deslocamento do ar. Byar arregalou os olhos quando a força de seu golpe o fez se desequilibrar, e o Guardião atacou com mãos e pés em rápida sucessão, tão rápido que Perrin não teve certeza do que havia acabado de ver. O que ele sabia era que Byar caiu como um fantoche. Antes que o Manto-branco tivesse acabado de desabar no chão, o Guardião estava de joelhos apagando o lampião.