Perrin montou correndo no cavalo que Nynaeve havia trazido atrás de Bela. A falta de uma sela não foi obstáculo para ele; não cavalgava muito em casa, mas quando o fazia era mais em pelo do que em sela. Ainda carregava o manto branco, agora enrolado e amarrado ao cinto. O Guardião dissera que eles deveriam evitar o máximo possível deixar vestígios para os Filhos encontrarem. Ainda achava que podia sentir o cheiro de Byar naquilo.
Quando partiram, o Guardião à frente em seu alto garanhão negro, Perrin sentiu o toque de Pintada em sua mente mais uma vez. Um dia novamente. Mais uma sensação do que palavras, suspirando com a promessa de um encontro predestinado, com a expectativa do que estava por vir, com a resignação pelo que estava por vir, tudo em camadas. Ele tentou perguntar quando e por quê, atrapalhado com a pressa e um medo repentino. O vestígio dos lobos foi ficando mais fraco e desaparecendo. Suas perguntas frenéticas recebiam apenas a mesma resposta carregada de significados. Um dia novamente. Essa mensagem pairou em sua mente, assombrando-a por muito depois que a percepção dos lobos sumiu.
Lan seguiu para o sul lenta porém continuamente. A vastidão selvagem sob o manto da noite — o terreno ondulado e a vegetação rasteira oculta até estar sob as patas dos cavalos, árvores na sombra, espessas contra o céu — não permitiam uma grande velocidade de qualquer maneira. Por duas vezes o Guardião os deixou, cavalgando de volta na direção da lua prateada, ele e Mandarb se fundindo à noite ao fundo. Em ambas as vezes ele retornou para relatar que não havia nenhum sinal de perseguição.
Egwene mantinha-se bem perto de Nynaeve. Fragmentos suaves da conversa empolgada flutuavam até Perrin. Aquelas duas estavam felizes como se tivessem chegado em casa. Ele ocupava a retaguarda da pequena coluna. Às vezes a Sabedoria se virava na sela para olhá-lo, e toda vez que ela o fazia ele acenava, como se para dizer que estava tudo bem, mas ficava onde estava. Tinha muito em que pensar, embora não conseguisse concatenar qualquer coisa em sua cabeça. O que estava por vir. O que estava por vir?
Perrin achou que a aurora não podia estar muito longe quando Moiraine finalmente mandou que parassem. Lan encontrou uma ravina onde poderia fazer uma fogueira escondida no oco de uma das encostas.
Finalmente permitiram que se livrassem dos mantos brancos, enterrando-os num buraco escavado perto do fogo. Quando ele ia jogar fora o manto que havia usado, o sol dourado bordado no peito chamou sua atenção, e as duas estrelas douradas embaixo também. Deixou cair o manto como se tivesse levado uma ferroada e se afastou, esfregando as mãos no casaco, indo sentar-se sozinho.
— Agora — disse Egwene, quando Lan estava jogando pás de terra no buraco — alguém quer me contar onde Rand e Mat estão?
— Acredito que eles estejam em Caemlyn — disse Moiraine com cuidado —, ou a caminho de lá. — Nynaeve soltou um grunhido alto e discordante, mas a Aes Sedai continuou como se não tivesse sido interrompida. — Se não estiverem, eu ainda os encontrarei. Isso eu prometo.
Fizeram uma refeição silenciosa de pão e queijo com chá quente. Até mesmo o entusiasmo de Egwene sucumbiu ao cansaço. A Sabedoria retirou um unguento de sua bolsa para as marcas fundas que as cordas haviam deixado nos pulsos de Egwene, e um segundo para os outros machucados dela. Quando foi até onde Perrin estava sentado, à margem da luz do fogo, ele não levantou a cabeça.
Ela ficou parada em pé, olhando para ele em silêncio por um tempo, e depois se agachou com a bolsa ao lado, dizendo, ríspida:
— Tire o casaco e a camisa, Perrin. Disseram-me que um dos Mantos-brancos não foi muito com a sua cara.
Ele obedeceu devagar, ainda meio perdido na mensagem de Pintada, até Nynaeve arquejar. Espantado, ele a encarou, depois olhou para o próprio peito nu. Era uma massa de cores, as manchas roxas mais novas se sobrepondo a outras mais antigas que se desvaneciam em matizes de marrom e amarelo. Somente a espessa musculatura adquirida durante as horas na forja de Mestre Luhhan evitara que ele quebrasse alguma costela. Com a cabeça ocupada pelos lobos, ele havia conseguido esquecer a dor, mas agora se lembrava dela, que voltou intensa. Respirou fundo involuntariamente e apertou os lábios, grunhindo.
— O que o fez ter tanta raiva de você? — perguntou Nynaeve, intrigada.
Eu matei dois homens. Em voz alta, ele respondeu:
— Não sei.
Ela mexeu em sua bolsa, e ele fez uma careta quando ela começou a espalhar um linimento gorduroso sobre suas escoriações.
— Hera-terrestre, cinco-dedos e raiz-de-sol-radiante — disse ela.
Era quente e frio ao mesmo tempo, o que o fez tremer e começar a suar, mas ele não protestou. Já havia experimentado os unguentos e as compressas de Nynaeve antes. Enquanto os dedos dela esfregavam gentilmente a mistura, o calor e o frio desapareceram, levando com eles a dor. As manchas roxas se tornaram marrons, e as marrons e amarelas perderam a cor, algumas desaparecendo por completo. Ele experimentou respirar fundo; quase não sentiu dor.
— Você parece surpreso — disse Nynaeve. Ela própria parecia um tanto surpresa e estranhamente assustada. — Da próxima vez, pode pedir a ela.
— Surpreso não — respondeu para apaziguá-la. — Apenas contente. — Às vezes os unguentos de Nynaeve funcionavam rápido e às vezes devagar, mas sempre funcionavam. — O que… o que aconteceu com Rand e Mat?
Nynaeve começou a enfiar seus frascos e potes de volta na bolsa, metendo cada um como se os estivesse forçando através de uma barreira.
— Ela diz que eles estão bem. Ela diz que iremos encontrá-los. Em Caemlyn, ela diz. Ela diz que é importante demais para nós não fazermos isso, seja lá o que isso signifique. Ela diz muitas coisas.
Perrin não conseguiu evitar um sorriso. O que quer que houvesse mudado, a Sabedoria ainda era ela mesma, e ela e a Aes Sedai ainda estavam longe de serem amigas.
Subitamente Nynaeve enrijeceu, encarando bem o rosto dele. Deixando a bolsa abruptamente no chão, ela levou as costas de suas mãos às bochechas e à testa dele. Ele tentou recuar, mas ela agarrou sua cabeça com ambas as mãos e abriu seus olhos com os polegares, espiando bem dentro dos olhos dele e murmurando para si mesma. Apesar de pequena, ela segurava seu rosto com facilidade; nunca era fácil se livrar de Nynaeve quando ela não queria.
— Não estou entendendo — disse ela finalmente, liberando-o e recuando para sentar-se sobre os calcanhares. — Se fosse febre do olho amarelo, você não seria capaz de ficar em pé. Mas você não tem nenhuma febre, e os brancos dos seus olhos não estão amarelos, só as íris.
— Amarelos? — perguntou Moiraine, e tanto Perrin quanto Nynaeve pularam de susto. A aproximação da Aes Sedai havia sido absolutamente silenciosa. Egwene dormia à beira do fogo, enrolada em seus mantos, Perrin viu. Suas próprias pálpebras queriam se fechar.
— Não é nada — disse ele, mas Moiraine pôs a mão no queixo dele e levantou-lhe o rosto para poder olhar em seus olhos do mesmo modo que Nynaeve. Ele se soltou, sentindo um formigamento. As duas mulheres o estavam tratando como se ele fosse uma criança. — Eu disse que não é nada.
— Não havia como prever isso — disse Moiraine, como se para si mesma. Seus olhos pareciam olhar para alguma coisa além dele. — Algo predestinado a ser tecido, ou uma mudança no Padrão? Se é uma mudança, por obra de quem? Há de ser o que a Roda tecer. Deve ser isso.
— Você sabe o que é? — Nynaeve perguntou com relutância, depois hesitou. — Você pode fazer algo por ele? Com sua Cura? — O pedido de auxílio e a admissão de que ela nada podia fazer saíram dela como se forçados.