Perrin fuzilou as duas mulheres com o olhar.
— Se vocês vão falar sobre mim, falem comigo. Eu estou sentado bem aqui. — Nenhuma das duas olhou para ele.
— Cura? — Moiraine sorriu. — Cura não pode fazer nada a este respeito. Não é uma doença, e não vai… — Ela hesitou brevemente. Então olhou de relance para Perrin, um olhar rápido que lamentava muitas coisas. Mas o olhar não o incluía, e ele resmungou com amargura quando ela voltou a olhar para Nynaeve. — Eu ia dizer que isso não lhe fará mal, mas quem há de dizer como as coisas terminarão? Pelo menos posso dizer que não lhe fará mal diretamente.
Nynaeve se levantou, limpando a terra dos joelhos, e confrontou a Aes Sedai, olho no olho.
— Isso não basta. Se há algo de errado com…
— O que é, é. O que já foi tecido não pode mais ser alterado. — Moiraine virou-se bruscamente. — Precisamos dormir enquanto podemos e partir assim que amanhecer. Se a mão do Tenebroso ficar forte demais… Precisamos chegar logo a Caemlyn.
Com raiva, Nynaeve agarrou sua bolsa e saiu dali antes que Perrin pudesse falar. Ele começou a rosnar um impropério, mas um pensamento o atingiu como um golpe e ele ficou ali sentado, em silêncio, boquiaberto. Moiraine sabia. A Aes Sedai sabia a respeito dos lobos. E ela achava que podia ser obra do Tenebroso. Um arrepio percorreu seu corpo. Apressadamente, ele tornou a vestir a camisa, enfiando-a, desajeitado, dentro da calça, e pôs o casaco e o manto novamente. As roupas não ajudaram muito; ele sentia um frio que ia até os ossos, e a medula parecia geleia congelada.
Lan sentou-se no chão com as pernas cruzadas, jogando o manto para trás. Perrin ficou feliz por isso. Era desagradável olhar para o Guardião e seus olhos passarem direto por ele.
Por um longo momento eles simplesmente ficaram se encarando. Os traços duros do rosto do Guardião eram ilegíveis, mas nos olhos dele Perrin achou ter visto… alguma coisa. Compaixão? Curiosidade? Ambas?
— Você sabe? — perguntou Perrin, e Lan assentiu.
— Sei alguma coisa, não tudo. Isso simplesmente aconteceu com você, ou você encontrou um guia, um intermediário?
— Houve um homem — disse Perrin lentamente. Ele sabe, mas pensa o mesmo que Moiraine? — Ele disse que seu nome era Elyas. Elyas Machera. — Lan inspirou fundo, e Perrin olhou muito sério para ele. — Você o conhece?
— Eu o conheci. Ele me ensinou muito, sobre a Praga, e sobre isto. — Lan tocou o cabo de sua espada. — Ele era um Guardião, antes… antes do que aconteceu. A Ajah Vermelha… — Ele olhou para Moiraine, deitada diante do fogo.
Era a primeira vez que Perrin se lembrava de ter visto qualquer incerteza no Guardião. Em Shadar Logoth, Lan fora seguro e forte, assim como quando enfrentava Desvanecidos e Trollocs. Ali ele não sentia medo, Perrin estava convencido disso, mas estava preocupado, como se pudesse falar demais. Como se o que dissesse pudesse ser perigoso.
— Já ouvi falar na Ajah Vermelha — disse Perrin a Lan.
— E a maior parte do que você ouviu falar está errado, não há dúvida. Você precisa entender que existem… facções dentro de Tar Valon. Umas querem combater o Tenebroso de um jeito, outras de outro. O objetivo é o mesmo, mas as diferenças… as diferenças podem significar vidas transformadas, ou interrompidas. As vidas de homens ou de nações. Ele está bem, Elyas?
— Acho que sim. Os Mantos-brancos disseram que o mataram, mas a Pintada… — Perrin olhou para o Guardião desconfortavelmente. — Eu não sei. — Lan pareceu aceitar que ele não sabia mesmo, com relutância, e isso lhe deu coragem para continuar. — Esta comunicação com os lobos. Moiraine parece achar que é algo que… algo que o Tenebroso fez. Mas não é, é? — Ele se recusava a acreditar que Elyas fosse um Amigo das Trevas.
Mas Lan hesitou, e o suor começou a brotar do rosto de Perrin, gotas frias que a noite resfriava ainda mais. Elas escorriam pelas suas bochechas quando o Guardião finalmente falou.
— Por si mesmo, não. Há quem acredite que sim, mas estão errados; isso já era antigo e havia se perdido muito tempo antes que o Tenebroso fosse encontrado. Mas e o acaso envolvido, ferreiro? Às vezes o Padrão tem uma certa aleatoriedade, aos nossos olhos, pelo menos, mas qual é a chance de você encontrar um homem que pudesse orientá-lo nessa coisa, e você ser alguém que pudesse ser orientado? O Padrão está formando uma Grande Teia, o que alguns chamam de Renda das Eras, e vocês rapazes são fundamentais para ela. Acho que não há muita escolha para vocês em suas vidas agora. Você foi escolhido, então? E, nesse caso, foi pela Luz ou pela Sombra?
— O Tenebroso não pode nos tocar, a não ser que o nomeemos. — Perrin imediatamente pensou nos sonhos com Ba’alzamon, os sonhos que eram mais do que sonhos. Enxugou o suor do rosto. — Não pode.
— Teimoso feito uma mula — disse o Guardião, pensativo. — Talvez teimoso o suficiente para se salvar, no fim. Lembre-se dos tempos em que vivemos, ferreiro. Lembre-se do que Moiraine Sedai lhe disse. Nestes tempos muitas coisas estão se dissolvendo, e se quebrando. Antigas barreiras se enfraquecem, velhas paredes desabam. As barreiras entre o que é e o que foi, entre o que é e o que será. — Sua voz ficou amarga. — As muralhas da prisão do Tenebroso. Este pode ser o fim de uma Era. Podemos ver uma nova Era nascer antes de morrermos. Ou talvez seja o fim das Eras, o fim do próprio tempo. O fim do mundo. — Subitamente ele deu um sorriso, mas era um sorriso tão sombrio que parecia mais um esgar; seus olhos emitiram um brilho de alegria, como quem ri ao pé da forca. — Mas isso não é coisa para nós nos preocuparmos, hein, ferreiro? Vamos combater a Sombra enquanto pudermos respirar, e, se isso nos destruir, vamos cair lutando com unhas e dentes. Vocês, gente dos Dois Rios, são teimosos demais para se renderem. Não se preocupe se o Tenebroso interferiu ou não na sua vida. Você agora está de volta entre amigos. Lembre-se, há de ser o que a Roda tecer, e nem mesmo o Tenebroso pode mudar isso, não com Moiraine tomando conta de você. Mas é melhor encontrarmos seus amigos em breve.
— Como assim?
— Eles não têm nenhuma Aes Sedai tocando a Fonte Verdadeira para protegê-los. Ferreiro, talvez as paredes tenham enfraquecido o suficiente para que o próprio Tenebroso toque os acontecimentos. Não diretamente, ou já estaríamos acabados, mas talvez pequenos desvios nos fios da trama. Uma virada por acaso numa curva em vez de outra, um encontro fortuito, uma palavra dita por acaso, ou o que parece acaso, e eles poderiam se encontrar tão profundamente na Sombra que nem mesmo Moiraine poderia trazê-los de volta.
— Precisamos encontrá-los — disse Perrin, e o Guardião deu um grunhido com uma ponta de risada.
— O que é que eu estava dizendo? Vá dormir um pouco, ferreiro. — O manto de Lan o envolveu novamente quando ele se levantou. À luz fraca do fogo ele quase parecia fazer parte das sombras ao fundo. — Temos uns poucos dias difíceis até Caemlyn. Reze para que os encontremos lá.
— Mas Moiraine… ela pode encontrá-los em qualquer lugar, não pode? Ela diz que pode.
— Mas será que ela poderá encontrá-los a tempo? Se o Tenebroso está forte o bastante para interferir por conta própria, o tempo está se esgotando. Reze para que os encontremos em Caemlyn, ferreiro, ou podemos estar todos perdidos.
39
Tessitura da Teia
Rand olhou para a multidão pela janela alta de seu quarto na Bênção da Rainha. As pessoas corriam gritando ao longo da rua, todas seguindo na mesma direção, sacudindo flâmulas e bandeiras, o leão branco montando guarda em mil campos de vermelho. Tanto a gente de Caemlyn quanto os que vinham de fora, todos corriam juntos, e para variar ninguém parecia querer arrebentar a cabeça de ninguém. Nesse dia, talvez, houvesse apenas uma facção.
Deu as costas para a janela com um sorriso. Afora o dia em que Egwene e Perrin entrassem, vivos e rindo do que tinham visto, esse era o dia pelo qual ele mais havia esperado.