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— Você vem? — voltou a perguntar.

Mat olhou fuzilando de onde estava, encolhido em uma bola em cima da cama.

— Leve aquele Trolloc de quem você é tão amigo.

— Sangue e cinzas, Mat, ele não é um Trolloc. Você está sendo burro de tão teimoso. Quantas vezes quer ter essa discussão? Luz, até parece que você nunca ouviu falar de Ogier antes.

— Nunca ouvi falar que eles pareciam Trollocs. — Mat enfiou a cara no travesseiro e se enroscou ainda mais.

— Burro de tão teimoso — resmungou Rand. — Quanto tempo você vai ficar se escondendo aqui? Eu não vou ficar subindo essas escadas todas para trazer as suas refeições aqui em cima para sempre. Além disso, um banho cairia bem. — Mat se revirou na cama como se estivesse tentando se enterrar ainda mais fundo nela. Rand suspirou, depois foi até a porta. — Última chance de irmos juntos, Mat. Estou saindo agora. — Ele fechou a porta devagar, esperando que Mat mudasse de ideia, mas o amigo não se mexeu. A porta se fechou.

No corredor, ele se recostou no batente da porta. Mestre Gill dissera que havia uma velha senhora a duas ruas dali, Mãe Grubb, que vendia ervas e emplastros, além de fazer partos, cuidar dos doentes e ler a sorte. Dito assim, parecia um pouco uma Sabedoria. Mat precisava mesmo era de Nynaeve, ou quem sabe de Moiraine, mas Mãe Grubb era tudo que ele tinha. Contudo, levá-la à Bênção da Rainha também poderia atrair o tipo errado de atenção. Tanto para ela quanto para Mat e ele.

Herbalistas e curandeiros estavam atuando com muita discrição em Caemlyn naquele momento; falava-se contra qualquer pessoa que fizesse algum tipo de cura ou adivinhação. Todas as noites a Presa do Dragão era rabiscada impunemente nas portas, às vezes mesmo à luz do dia, e as pessoas podiam esquecer de quem havia curado suas febres e aliviado suas dores de dente quando o grito de Amigo das Trevas soava. Tal era o clima na cidade.

Não que Mat estivesse de fato doente. Ele comia tudo que Rand trazia da cozinha, ainda que não aceitasse nada das mãos de qualquer outra pessoa, e nunca reclamava de dores nem de febre. Ele simplesmente se recusava a sair do quarto. Mas Rand estivera certo de que aquele dia o levaria a sair.

Ajeitou o manto sobre os ombros e girou o cinturão de modo que a espada, com o pano vermelho amarrado ao seu redor, ficasse mais coberta.

Ao pé das escadas, encontrou Mestre Gill justamente começando a subir.

— Tem alguém perguntando por vocês na cidade — disse o estalajadeiro com o cachimbo na boca. Rand sentiu uma pontada de esperança. — Perguntando por você e aqueles seus amigos, pelo nome. Pelo menos por vocês jovens. Parece querer principalmente vocês, os três rapazes.

A esperança foi substituída pela ansiedade.

— Quem? — perguntou Rand. Ele ainda não conseguia evitar olhar para os dois lados do corredor. À exceção deles dois, não havia ninguém ali, da saída para o beco até a porta do salão.

— Não sei o nome dele. Só ouvi falar. Acabo sabendo da maior parte das coisas que acontecem em Caemlyn. Um mendigo. — O estalajadeiro grunhiu. — Meio maluco, pelo que ouvi dizer. Mesmo assim, poderia pegar as Graças da Rainha no Palácio, mesmo com as coisas tão ruins quanto estão. Nos Grandes Dias, a Rainha as confere com as próprias mãos, e nunca ninguém foi recusado por nenhum motivo. Em Caemlyn, ninguém precisa mendigar. Mesmo um homem procurado não pode ser preso enquanto estiver recebendo as Graças da Rainha.

— Um Amigo das Trevas? — Rand perguntou, relutante. Se os Amigos das Trevas sabem os nossos nomes…

— Você está mesmo com esse negócio de Amigo das Trevas na cabeça, meu jovem. Decerto há alguns deles por aí, mas só porque os Mantos-brancos estão deixando todo mundo com os nervos à flor da pele não é motivo para você pensar que a cidade esteja cheia deles. Sabe que boato aqueles idiotas começaram a espalhar agora? “Formas estranhas”. Dá para acreditar numa coisa dessas? Formas estranhas espreitando do lado de fora da cidade à noite. — O estalajadeiro riu até a barriga balançar.

Rand não tinha vontade de rir. Hyam Kinch havia falado de formas estranhas, e certamente houvera um Desvanecido na última vila.

— Que espécie de formas?

— Que espécie? Sei lá que espécie. Formas estranhas. Trollocs, provavelmente. O Homem das Sombras. Lews Therin Fratricida em pessoa, que voltou com quinze metros de altura. Que tipo de formas você acha que as pessoas imaginarão agora que a ideia está na cabeça delas? Mas não precisa se preocupar com isso. — Mestre Gill olhou para ele de esguelha por um momento. — Você está de saída, é? Bom, eu mesmo não posso dizer que ligo para isso, nem mesmo hoje, mas praticamente só quem sobrou aqui foi eu. Seu amigo não vai?

— Mat não está se sentindo muito bem. Talvez mais tarde.

— Bem, que seja. Cuide-se, certo? Mesmo no dia de hoje, os bons homens da Rainha estarão em menor número lá fora. Que a Luz queime o dia em que pensei que veria uma coisa dessas. É melhor você sair pelo beco. Há dois daqueles malditos traidores sentados do outro lado da rua, vigiando minha porta. Eles sabem de que lado eu estou, pela Luz!

Rand enfiou a cabeça pela porta e olhou para os dois lados antes de deslizar para o beco. Um homem corpulento que Mestre Gill havia contratado estava parado na entrada do beco, apoiado numa lança e observando as pessoas passarem correndo com aparente falta de interesse. Rand sabia que era só aparência. O sujeito, seu nome era Lamgwin, via tudo com aqueles olhos de pálpebras pesadas, e apesar de toda a sua corpulência ele podia se mover como um gato. Ele também achava que a Rainha Morgase era a Luz encarnada, ou quase isso. Como ele, havia uma dúzia espalhada ao redor da Bênção da Rainha.

Lamgwin ficou de orelha em pé quando Rand chegou à entrada do beco, mas não desviou sua desatenção da rua. Rand sabia que o homem tinha ouvido sua aproximação.

— Tome cuidado hoje, homem. — A voz de Lamgwin soava como cascalho numa frigideira. — Quando a confusão começar, vai ser bom ter alguém como você por aqui, não em outro lugar com uma faca nas costas.

Rand olhou de relance para o homem corpulento, mas sua surpresa foi muda. Ele sempre tentava manter a espada fora das vistas, mas não era a primeira vez que um dos homens de Mestre Gill supunha que ele saberia se virar em uma luta. Lamgwin não se virou para olhá-lo. O trabalho do homem era proteger a estalagem, e era o que ele fazia.

Empurrando a espada um pouco mais para trás, sob o manto, Rand se misturou ao fluxo de pessoas. Ele viu os dois homens que o estalajadeiro havia mencionado, em pé sobre barris virados para baixo na frente da estalagem para poderem ver por cima da multidão. Não achou que eles o haviam notado sair do beco. Eles não faziam segredo de sua lealdade. Não apenas suas espadas estavam envoltas em branco amarrado com vermelho como também usavam braçadeiras e rosetas brancas nos chapéus.

Em pouco tempo em Caemlyn ele aprendera que lenços vermelhos amarrados em uma espada, ou uma braçadeira ou roseta vermelhos, significavam apoio à Rainha Morgase. Branco dizia que a Rainha e seu envolvimento com as Aes Sedai e Tar Valon eram responsáveis por tudo que havia acontecido de errado. Pelo tempo ruim, e as colheitas fracassadas. Talvez até mesmo pelo falso Dragão.

Ele não queria se envolver na política de Caemlyn. Só que agora era tarde demais. Não apenas porque ele já tivesse escolhido — por acidente, mas acontecera. A situação na cidade já havia passado do ponto em que alguém pudesse permanecer neutro. Até mesmo forasteiros usavam rosetas e braçadeiras, ou amarravam as espadas, e os que usavam branco eram mais numerosos que os que usavam vermelho. Talvez alguns não pensassem daquela maneira, mas estavam longe de casa e aquele era o lado para o qual pendia o sentimento geral em Caemlyn. Homens que apoiavam a Rainha andavam em grupos para sua própria proteção, isso quando saíam às ruas.