Mas aquele dia era diferente. Pelo menos aparentemente. Naquele dia Caemlyn comemorava uma vitória da Luz sobre a Sombra. Naquele dia o falso Dragão estava sendo trazido à cidade para ser exibido perante a Rainha antes de ser levado para Tar Valon, ao norte.
Ninguém falava dessa parte. Ninguém, a não ser as Aes Sedai, podia lidar com um homem realmente capaz de usar o Poder Único, é claro, mas ninguém queria falar disso. A Luz havia derrotado a Sombra, e soldados de Andor haviam estado na vanguarda da batalha. Por ora, isso era tudo o que importava. Por ora, tudo o mais podia ser esquecido.
Será mesmo?, Rand se perguntava. A multidão corria, cantando e sacudindo bandeiras, rindo, mas os homens que ostentavam o vermelho mantinham-se juntos em grupos de dez ou vinte, e não havia mulheres nem crianças com eles. Ele achou que pelo menos dez homens exibiam branco para cada um proclamando lealdade à Rainha. Não pela primeira vez, ele pensou que gostaria que o pano branco tivesse sido o mais barato. Mas será que Mestre Gill teria ajudado se você estivesse mostrando o branco?
A multidão era tão densa que abrir caminho a cotoveladas era inevitável. Nem mesmo os Mantos-brancos gozavam de seus pequenos espaços abertos na massa. Enquanto Rand deixava a multidão carregá-lo na direção da Cidade Interna, percebeu que nem todas as animosidades estavam sendo contidas. Viu um dos Filhos da Luz, de um grupo de três, levar um esbarrão com tanta força que quase caiu. O Manto-branco se segurou por pouco, e quando disparava uma saraivada de impropérios irritados contra o homem que havia esbarrado nele, outro homem cambaleou em sua direção com um ombro deliberadamente mirado nele. Antes que a coisa esquentasse mais, os companheiros do Manto-branco o puxaram para a lateral da rua, onde eles puderam se abrigar sob o umbral de uma porta. Os três pareciam divididos entre seus costumeiros olhares mal-humorados e a incredulidade. A multidão passava como se ninguém tivesse notado, e talvez ninguém tivesse mesmo.
Ninguém teria ousado uma coisa daquelas dois dias antes. Mais do que isso, percebeu Rand, os homens que haviam esbarrado usavam rosetas brancas nos chapéus. Acreditava-se amplamente que os Mantos-brancos apoiavam os que se opunham à Rainha e sua conselheira Aes Sedai, mas isso não fez diferença. Os homens estavam fazendo coisas que nunca pensaram em fazer antes. Empurrar Mantos-brancos hoje. Amanhã, talvez, derrubar uma Rainha… Subitamente desejou que houvesse mais alguns homens perto dele exibindo o vermelho; empurrado por fitas e braçadeiras brancas, ele subitamente se sentiu muito sozinho.
Os Mantos-brancos notaram que ele os olhava e o encararam de volta como se aceitassem um desafio. Ele deixou que um grupo que cantava na multidão o carregasse para longe de suas vistas, cantando junto com eles.
A rota que levaria o falso Dragão para Caemlyn era bem conhecida. Essas ruas estavam sendo mantidas abertas por fileiras sólidas de Guardas da Rainha e lanceiros com mantos vermelhos, mas as pessoas se aglomeravam nas proximidades delas ombro a ombro, até mesmo nas janelas e nos telhados. Rand abriu caminho até a Cidade Interna, tentando chegar mais perto do Palácio. Pensava em realmente ver Logain exibido perante a Rainha. Ver o falso Dragão e uma Rainha também… isso era algo com que ele jamais havia sonhado.
A Cidade Interna fora erigida sobre colinas, e muito do que os Ogier haviam construído ainda permanecia. Enquanto as ruas da Cidade Nova corriam em sua maioria em uma colcha de retalhos maluca, ali elas seguiam as curvas das colinas como se fossem parte natural da terra. Elevações e quedas apresentavam vistas novas e surpreendentes a cada curva. Parques vistos de ângulos diferentes, mesmo do alto, onde seus passeios e monumentos criavam padrões agradáveis ao olhar, ainda que mal tocados pelo verde. Torres subitamente reveladas, paredes ladrilhadas reluzindo à luz do sol com uma centena de cores mutantes. Elevações súbitas onde o olhar podia abranger a cidade inteira, até as planícies ondulantes e florestas além. No todo, teria sido algo maravilhoso de ver se não fosse pela multidão que o apressava antes que ele tivesse chance de realmente assimilar tudo. E todas aquelas ruas curvas tornavam impossível ver muito além.
Subitamente ele foi levado de roldão por uma curva, e lá estava o Palácio. As ruas, mesmo seguindo os contornos naturais da terra, haviam sido dispostas em espiral em torno dele — aquela história viva de menestréis, de espirais brancas, cúpulas douradas e intricados arabescos de cantaria, com o estandarte de Andor tremulando em cada proeminência, uma peça central para a qual todas as outras vistas haviam sido projetadas. Parecia mais algo esculpido por um artista do que simplesmente construído como os edifícios comuns.
Esse vislumbre o fez perceber que não chegaria mais perto. Ninguém tinha permissão de se aproximar do Palácio. Os Guardas da Rainha formavam pelotões de dez fileiras escarlates flanqueando os portões do Palácio. Ao longo do topo das muralhas brancas, em balcões elevados e torres, mais Guardas postavam-se, rígidos, arcos inclinados com precisão sobre peitos com placas metálicas. Eles também pareciam saídos de uma história de menestrel, uma guarda de honra, mas Rand não acreditava que era por isso que eles estavam ali. A multidão clamorosa que se enfileirava pelas ruas era quase um bloco sólido com espadas atadas com lenços brancos, braçadeiras brancas e rosetas brancas. Apenas aqui e ali a muralha alva era interrompida por algumas manchas vermelhas. Os guardas de uniforme vermelho pareciam uma barreira fina contra todo aquele branco.
Desistindo de se aproximar mais do Palácio, ele procurou um lugar onde pudesse usar sua altura como vantagem. Ele não precisava estar na primeira fileira para ver tudo. A multidão se deslocava constantemente, gente empurrando para chegar mais perto da frente, gente se apressando para o que achava ser um ponto com uma vista melhor. Num desses deslocamentos ele se viu a apenas três pessoas da rua, e todos à sua frente eram mais baixos que ele, incluindo os lanceiros. Quase todo mundo era. As pessoas se aglomeravam contra ele de ambos os lados, suando pela pressão de tantos corpos. Os que estavam atrás dele resmungavam por não serem capazes de ver, e tentavam se esgueirar para passar. Ele fincou pé onde estava, criando uma muralha intransponível com os que estavam de ambos os lados. Ele estava satisfeito. Quando o falso Dragão passasse, estaria perto o bastante para ver com clareza o rosto do homem.
Do outro lado da rua, descendo na direção dos portões que davam na Cidade Nova, uma ondulação percorreu a multidão compacta; fazendo a curva, uma maré de pessoas estava se afastando para deixar alguma coisa passar. Não era como o espaço vazio que acompanhava os Mantos-brancos em qualquer dia a não ser aquele. Aquelas pessoas recuavam assustadas, com olhares de medo que se tornavam caretas de nojo. Apertando-se para sair do caminho, elas viravam o rosto para o que quer que estivesse ali, mas olhavam pelos cantos dos olhos até que passasse.
Outros olhos ao seu redor também perceberam a perturbação. Preparados para a chegada do Dragão, mas sem nada a fazer naquele momento além de esperar, a multidão achava que tudo era digno de comentários. Ele ouviu especulações que iam de uma Aes Sedai até o próprio Logain, e algumas sugestões mais desprezíveis que arrancaram gargalhadas dos homens e muxoxos de desdém das mulheres.
A ondulação serpenteava pela multidão, aproximando-se mais da margem da rua à medida que avançava. Ninguém parecia hesitar em deixá-la ir aonde quisesse, mesmo que isso significasse perder um bom lugar para ver enquanto a multidão voltava a se fechar atrás da passagem. Por fim, bem à frente de Rand, a multidão invadiu a rua, empurrando os lanceiros de mantos vermelhos que lutavam para fazê-las voltar, e rompeu o isolamento. A figura corcunda que se arrastava hesitante no espaço que se abria mais parecia uma pilha de farrapos imundos que um homem. Rand ouviu murmúrios de nojo ao seu redor.