— Minha senhora, meu senhor, abaixem-se, rápido!
Apesar de seus braços estendidos, Elayne assumiu uma postura régia.
— Você ousa trazer aço nu à minha presença, Tallanvor? Gareth Bryne porá você para limpar estábulos com o soldado mais raso por isto, se você tiver sorte!
Os soldados trocaram olhares intrigados, e alguns dos arqueiros, desconfortáveis, baixaram um pouco os arcos. Só então Elayne desceu os braços, como se só os tivesse erguido casualmente. Gawyn hesitou, mas seguiu o exemplo dela. Rand podia contar os arcos que não haviam sido abaixados. Os músculos de seu estômago tensionaram como se pudessem deter uma flecha a vinte passos de distância.
O homem com o nó de oficial parecia o mais perplexo de todos.
— Minha senhora, me perdoe, mas Lorde Galadedrid relatou que havia um camponês sujo à espreita nos jardins, armado e ameaçando Lady Elayne e Lorde Gawyn. — Seus olhos dirigiram-se a Rand, e sua voz tornou-se mais firme. — Se minha senhora e meu senhor me fizerem a gentileza de se afastarem, levarei o vilão sob custódia. Há muita gente de baixo nível na cidade no momento.
— Duvido muito que Galad tenha relatado algo desse tipo — disse Elayne. — Galad não mente.
— Às vezes eu gostaria que ele mentisse — disse Gawyn baixinho, para Rand ouvir. — Só uma vez. Tornaria mais fácil viver com ele.
— Este homem é meu convidado — continuou Elayne —, e está aqui sob minha proteção. Pode se retirar, Tallanvor.
— Lamento que isso não seja possível, minha senhora. Como sabe, a Rainha, senhora sua mãe, deu ordens com relação a qualquer um dentro dos muros do Palácio sem a permissão de Sua Majestade, e Sua Majestade já foi informada deste intruso. — Havia mais que uma leve satisfação na voz de Tallanvor. Rand suspeitava que o oficial já tivera de aceitar de Elayne outras ordens que não achara adequadas; mas dessa vez isso não aconteceria, não quando ele tinha a desculpa perfeita.
Elayne encarou Tallanvor; pela primeira vez, parecia não saber o que fazer.
Rand dirigiu um olhar questionador a Gawyn, que entendeu.
— Prisão — murmurou Gawyn. O rosto de Rand ficou branco, e o jovem acrescentou rapidamente: — Apenas por alguns dias, e você não será ferido. Será interrogado por Gareth Bryne, o Capitão-general, pessoalmente, mas será solto assim que ficar claro que não pretendia fazer mal algum. — Ele fez uma pausa, com pensamentos ocultos nos olhos. — Espero que você esteja dizendo a verdade, Rand al’Thor dos Dois Rios.
— Você conduzirá nós três a minha mãe — anunciou Elayne subitamente.
Um sorriso despontou no rosto de Gawyn.
Atrás das barras de aço que lhe cobriam o rosto, Tallanvor pareceu surpreendido.
— Minha senhora, eu…
— Ou então conduza todos os três a uma cela — disse Elayne. — Permaneceremos juntos. Ou você dará ordens para que coloquem as mãos em mim? — Seu sorriso era de vitória, e a maneira como Tallanvor correu os olhos ao redor, como se esperasse encontrar ajuda nas árvores, dizia que ele também achava que ela havia vencido.
Vencido o quê? Como?
— Mamãe está vendo Logain — disse Gawyn baixinho, como se tivesse lido os pensamentos de Rand —, e, mesmo que não estivesse ocupada, Tallanvor não ousaria marchar na presença dela com Elayne e eu, como se nós estivéssemos sob guarda. Mamãe tem um temperamento um pouco esquentado às vezes.
Rand se lembrou do que Mestre Gill dissera a respeito da Rainha Morgase. Um pouco esquentado?
Outro soldado de uniforme vermelho veio correndo pelo caminho, quase escorregando ao parar para uma saudação com um braço cruzado sobre o peito. Ele falou baixinho com Tallanvor, e suas palavras trouxeram a satisfação de volta ao rosto do comandante.
— A Rainha, senhora sua mãe — anunciou Tallanvor —, ordena que eu leve o intruso a ela imediatamente. É também ordem da Rainha que Lady Elayne e Lorde Gawyn se apresentem a ela. Também imediatamente.
Gawyn fez uma careta súbita, e Elayne engoliu em seco. Seu rosto composto, ela começou ainda assim a limpar, concentrada, as manchas no vestido. Além de deslocar alguns pedaços de casca, seus esforços não ajudaram em muita coisa.
— Minha senhora, por favor… — disse Tallanvor, presunçoso. — Meu senhor?
Os soldados fizeram ao redor deles uma formação retangular que se pôs em movimento, com Tallanvor à frente. Gawyn e Elayne ladeavam Rand, ambos parecendo perdidos em pensamentos desagradáveis. Os soldados haviam embainhado suas espadas e devolvido as flechas às aljavas, mas não estavam menos alertas do que quando empunhavam as armas. Eles vigiavam Rand como se esperassem que ele puxasse a espada a qualquer momento e tentasse abrir caminho para a liberdade.
Tentar alguma coisa? Não vou tentar nada. Despercebido! Hah!
Vigiando os soldados que o vigiavam, ele subitamente se deu conta do jardim. Acontecera uma coisa atrás da outra, cada novo choque vindo antes que o anterior tivesse chance de arrefecer, e o local onde estava até então não lhe chamara atenção, exceto pelo muro e seu desejo desesperado de estar de volta do outro lado dele. Naquele momento ele viu a grama verde que antes havia apenas tocado de leve o fundo de sua mente. Verde! Uma centena de tons de verde. Árvores e arbustos verdes e viçosos, densos de tantas folhas e frutos. Trepadeiras luxuriantes cobrindo caramanchões no caminho. Algumas ele conhecia — sol-radiante dourada e pontas-de-sebo minúsculas e rosadas, fulgor-das-estrelas rubra e glória-de-emond púrpura, rosas de todas as cores, do mais puro branco ao vermelho mais intenso —, mas outras eram estranhas, tão fantásticas em forma e cor que ele ficou se perguntando se seriam de verdade.
— Está verde — sussurrou. — Verde.
Os soldados resmungaram uns com os outros. Tallanvor olhou para trás, lançando-lhes um olhar ríspido, e eles ficaram quietos.
— Obra de Elaida — disse Gawyn, distraído.
— Não está certo — disse Elayne. — Ela perguntou se eu queria escolher a única fazenda pela qual ela podia fazer o mesmo, enquanto ao redor todas as plantações ainda mirravam, mas ainda não está certo que nós tenhamos flores quando há pessoas que não têm o bastante para comer. — Ela respirou fundo e voltou a se mostrar autoconfiante. — Lembre-se — disse bruscamente a Rand —, fale com clareza quando se dirigirem a você, mas afora isso, não diga nada. E faça o que eu fizer. Tudo vai ficar bem.
Rand desejou ter a confiança dela. Teria ajudado se Gawyn a tivesse também. Enquanto Tallanvor os conduzia para o interior do Palácio, ele olhou para o jardim atrás deles, todo aquele verde rajado de flores, cores criadas para uma Rainha pela mão de uma Aes Sedai. Ele estava em águas profundas, e não havia nenhuma margem à vista.
Serviçais palacianos enchiam os salões, em librés vermelhas com colarinhos e punhos brancos, o Leão Branco no peito esquerdo de suas túnicas, concentrados em suas tarefas, nem todas aparentes. Quando os soldados passavam marchando com Elayne e Gawyn, e Rand no meio deles, todos paravam onde estavam para olhar, boquiabertos.
No meio de toda essa consternação, um gato de listras acinzentadas vagava despreocupado pelo salão, abrindo caminho por entre as pernas de serviçais de olhos arregalados. Subitamente Rand achou o gato estranho. Ele estivera em Baerlon tempo suficiente para saber que até mesmo a loja mais reles tinha gatos espreitando em cada canto. Desde que haviam entrado no Palácio, aquele gato era o único que ele vira.
— Vocês não têm ratos? — perguntou, incrédulo. Todo lugar tinha ratos.
— Elaida não gosta de ratos — murmurou Gawyn vagamente. Ele tinha a testa franzida e olhava, preocupado, na direção da outra extremidade do corredor, aparentemente já prevendo o encontro que viria com a Rainha. — Nunca temos ratos.