— Vocês dois, fiquem quietos. — A voz de Elayne foi ríspida, mas tão ausente quanto a de seu irmão. — Estou tentando pensar.
Rand observou o gato, olhando para trás até os guardas o fazerem virar uma curva, o que tirou o animal de vista. Uma quantidade grande de gatos teria feito com que ele se sentisse melhor; teria sido bom se houvesse alguma coisa de normal naquele Palácio, mesmo que fossem ratos.
O caminho que Tallanvor tomou fez tantas curvas que Rand perdeu o senso de direção. Por fim, o jovem oficial parou diante de uma porta dupla de madeira escura com um brilho distinto, não tão grandiosa quanto algumas pelas quais eles haviam passado, mas ainda toda esculpida com fileiras de leões finamente trabalhados em detalhes. De cada lado da porta, um serviçal de libré montava guarda.
— Pelo menos não é o Grande Salão. — Gawyn riu, inseguro. — Nunca ouvi dizer que nossa Mãe tenha dado ordens para cortar a cabeça de alguém aqui. — Ele soava como se achasse que ela poderia abrir um precedente.
Tallanvor estendeu a mão para pegar a espada de Rand, mas um gesto de Elayne interrompeu seu movimento.
— Ele é meu convidado, e, por costume e pela lei, convidados da família real podem se apresentar armados mesmo na presença de minha Mãe. Ou você vai negar minha palavra de que ele é meu convidado?
Tallanvor hesitou, olhando-a nos olhos, e então assentiu.
— Muito bem, minha senhora. — Ela sorriu para Rand quando Tallanvor recuou, mas isso só durou um instante. — A primeira fileira me acompanhe — ordenou Tallanvor. — Anunciem Lady Elayne e Lorde Gawyn a Sua Majestade — disse aos porteiros. — E também o Tenente da Guarda Tallanvor, a mando de Sua Majestade, com o intruso sob escolta.
Elayne olhou de cara feia para Tallanvor, mas as portas já estavam se abrindo. Uma voz sonora se fez ouvir, anunciando os que chegavam.
Imponente, Elayne passou pelas portas, estragando apenas um pouco sua entrada régia ao fazer um gesto para que Rand ficasse bem atrás dela. Gawyn empertigou os ombros e entrou ao lado dela, um passo calculado atrás. Rand seguiu, inseguro, na mesma altura de Gawyn do outro lado dela. Tallanvor manteve-se próximo a Rand, e dez soldados entraram com ele. As portas se fecharam silenciosamente.
Subitamente Elayne se abaixou numa mesura profunda, curvando-se ao mesmo tempo da cintura para cima, e ali permaneceu, segurando a saia bem aberta. Rand levou um susto, mas rapidamente imitou Gawyn e os outros homens, deslocando o corpo de modo desajeitado até acertar o movimento. Apoiou-se sobre o joelho direito, a cabeça abaixada, curvando-se para a frente até pressionar os nós dos dedos da mão direita contra o piso de mármore, a mão esquerda repousando no cabo de sua espada. Gawyn, sem espada, colocou a mão sobre a adaga da mesma maneira.
Rand estava acabando de se parabenizar por ter feito tudo certo quando reparou que Tallanvor, a cabeça ainda abaixada, olhava de esguelha para ele por trás da viseira, fuzilando-o com o olhar. Será que eu deveria fazer outra coisa? Ficou subitamente com raiva por Tallanvor ter esperado que ele soubesse o que fazer quando ninguém lhe dissera. E com raiva por estar com medo dos guardas. Ele não havia feito nada para ter medo. Sabia que seu medo não era culpa de Tallanvor, mas estava com raiva dele mesmo assim.
Todos ficaram em suas posições, congelados como se esperassem pelo degelo da primavera. Ele não sabia por que estavam esperando, mas aproveitou a oportunidade para estudar o lugar ao qual havia sido levado. Manteve a cabeça baixa, apenas virando-a o suficiente para ver. O olhar zangado de Tallanvor tornou-se mais intenso, mas ele o ignorou.
A câmara quadrada tinha mais ou menos o tamanho do salão da Bênção da Rainha. Suas paredes exibiam cenas de caça esculpidas em relevo em pedra do mais puro branco. As tapeçarias entre os entalhes eram imagens suaves de flores de cores vivas e beija-flores de plumagens brilhantes, exceto pelas duas na extremidade oposta do salão, onde o Leão Branco de Andor se erguia mais alto que um homem em campos escarlates. Essas duas tapeçarias flanqueavam uma plataforma, e sobre esta havia um trono entalhado e folheado a ouro, onde se sentava a Rainha.
Um homem corpulento e atarracado, de cabeça descoberta, estava à direita da Rainha, vestindo o vermelho das Guardas da Rainha, com quatro nós dourados no ombro de seu manto e faixas douradas largas quebrando o branco dos punhos. Suas têmporas eram totalmente grisalhas, mas ele parecia forte e sólido como uma rocha. Tinha de ser o Capitão-general, Gareth Bryne. Atrás do trono, do outro lado, uma mulher vestida de seda verde-escura estava sentada em uma banqueta baixa, tricotando algo feito de lã escura, quase negra. No começo o tricotar fez Rand pensar que se tratasse de uma velha, mas um segundo olhar fez com que ele não conseguisse definir-lhe a idade. Jovem, velha, ele não sabia dizer. A atenção dela parecia inteiramente voltada para as agulhas e o novelo, como se não estivesse na presença de uma Rainha. Era uma mulher bonita, plácida por fora, mas havia alguma coisa de terrível em sua concentração. Não havia som na sala exceto pelo clique-clique de suas agulhas.
Ele tentava olhar para tudo, mas seus olhos voltavam à mulher com a coroa reluzente de rosas finamente esculpidas na testa, a Coroa de Rosas de Andor. Uma longa estola vermelha, o Leão de Andor marchando ao longo de seu comprimento, pendia sobre o vestido de seda plissada vermelho e branco, e, quando ela tocou o braço do Capitão-general com a mão esquerda, um anel no formato da Grande Serpente devorando a própria cauda reluziu. Mas não era a grandiosidade das roupas ou das joias que atraía o olhar de Rand sem parar: era a mulher que as usava.
Morgase tinha a beleza da filha, amadurecida e florescida. Seu rosto e sua figura, sua presença, preenchiam o salão como uma luz que obscurecia os outros dois que estavam com ela. Se tivesse sido uma viúva em Campo de Emond, ela teria tido uma fileira de pretendentes do lado de fora de sua porta mesmo que fosse a pior cozinheira e mais desleixada dona de casa dos Dois Rios. Ele viu que ela o analisava e abaixou a cabeça, temendo que ela fosse capaz de ler seus pensamentos só de ver seu rosto. Luz, pensar na Rainha como se ela fosse uma aldeã! Seu idiota!
— Vocês podem se levantar — disse Morgase com uma voz rica e calorosa que tinha a certeza da obediência de Elayne multiplicada por cem.
Rand se levantou com os demais.
— Mãe… — começou Elayne, mas Morgase a interrompeu.
— Ao que parece, você andou subindo em árvores, filha. — Elayne arrancou um fragmento solto de casca de árvore do vestido e, descobrindo que não havia onde colocá-lo, manteve-o em sua mão. — Na verdade — Morgase continuou calmamente — parece que, apesar de minhas ordens em contrário, você conseguiu dar sua olhada nesse Logain. Gawyn, eu esperava mais de você. Precisa aprender não só a obedecer a sua irmã, mas a ser um contraponto a ela para evitar desastres. — Os olhos da Rainha voltaram-se para o homem corpulento ao lado dela, mas logo se desviaram novamente. Bryne permaneceu impassível, como se não houvesse notado, mas Rand achava que aqueles olhos notavam tudo. — Isso, Gawyn, é tarefa do Primeiro Príncipe tanto quanto liderar os exércitos de Andor. Talvez, se seu treinamento for intensificado, você encontre menos tempo para deixar sua irmã colocar você em apuros. Pedirei ao Capitão-general para cuidar que não lhe faltem coisas para fazer na jornada para o norte.
Gawyn mexeu os pés como se fosse protestar, mas então abaixou a cabeça.
— Como ordenar, mãe.
Elayne fez uma careta.
— Mãe, Gawyn não pode evitar que eu me meta em apuros se não estiver comigo. Foi somente por esse motivo que ele deixou seus aposentos. Mãe, certamente não podia haver mal nenhum em apenas olhar para Logain. Quase todos na cidade estavam mais perto dele do que nós.