— Hoje — respondeu. — Hoje de manhã.
— Bem a tempo — murmurou ela. — Onde você está hospedado? Não diga que não encontrou um quarto. Você parece um pouco desmazelado, mas teve tempo de se refrescar um pouco. Onde?
— Coroa e Leão. — Ele se lembrou de ter passado na frente da Coroa e Leão quando procurava pela Bênção da Rainha. A estalagem ficava no lado oposto da Cidade Nova em relação à de Mestre Gill. — Tenho uma cama lá. No sótão. — Teve a sensação de que ela sabia que ele estava mentindo, mas a mulher apenas assentiu.
— Que coincidência, não? — disse ela. — Hoje o descrente foi trazido para Caemlyn. Em dois dias ele será levado para Tar Valon, ao norte, e com ele segue a Filha-herdeira para seu treinamento. E justamente nesta encruzilhada um jovem aparece nos jardins do Palácio, afirmando ser um súdito leal dos Dois Rios…
— Eu sou dos Dois Rios. — Todos estavam olhando para ele, mas todos o ignoraram. Todos menos Tallanvor e os guardas; aqueles olhos jamais piscavam.
— …com uma história calculada para cativar Elayne e trazendo uma espada com a marca da garça. Ele não usa nenhuma braçadeira nem laço para proclamar sua lealdade, mas amarrações que cuidadosamente escondem a garça de olhos curiosos. Quais são as chances de isso acontecer, Morgase?
A Rainha fez um gesto para que o Capitão-general se afastasse, e quando ele o fez ela estudou Rand com um olhar preocupado. Mas foi com Elaida que ela falou.
— O que você está insinuando que ele seja? Amigo das Trevas? Um dos seguidores de Logain?
— O Tenebroso se agita em Shayol Ghul — replicou a Aes Sedai. — A Sombra se estende sobre o Padrão, e o futuro está equilibrado na ponta de um alfinete. Este rapaz é perigoso.
Subitamente Elayne jogou-se de joelhos perante o trono.
— Mãe, eu lhe imploro que não faça mal a ele. Ele teria partido caso eu não o tivesse impedido. Ele queria ir. Fui eu quem o fez ficar. Não posso acreditar que ele seja um Amigo das Trevas.
Morgase fez um gesto apaziguador para a filha, mas seus olhos permaneceram em Rand.
— Isto é uma Previsão, Elaida? Você está lendo o Padrão? Você diz que isso lhe vem quando você menos espera e desaparece tão subitamente quanto chega. Se isto é uma Previsão, Elaida, eu lhe ordeno que diga a verdade claramente, sem seu costume de envolvê-la em tanto mistério que ninguém consegue dizer se você disse sim ou não. Fale. O que você vê?
— Isto eu Predigo — respondeu Elaida —, e juro sob a Luz que não posso dizer com mais clareza. Deste dia em diante Andor marcha na direção da dor e da divisão. A Sombra ainda está para alcançar sua maior escuridão, e não consigo ver se a Luz virá depois dela. Onde o mundo já chorou uma lágrima, irá chorar milhares. Isto eu Predigo.
Uma mortalha de silêncio cobriu o salão, quebrada apenas por Morgase, que soltou o ar como se fosse sua última respiração.
Elaida continuou a fitar os olhos de Rand. Ela voltou a falar, mal movendo os lábios, tão suavemente que ele quase não conseguiu ouvi-la, mesmo a menos de um braço de distância.
— Isto também eu Predigo. Dor e divisão virão ao mundo inteiro, e este homem está no coração de tudo. Eu obedeço à Rainha — sussurrou — e falo com clareza.
Rand teve a sensação de que seus pés estavam enraizados no piso de mármore. O frio e a dureza da pedra subiram por suas pernas, e um tremor percorreu sua espinha. Ninguém mais podia ter ouvido. Mas ela ainda estava olhando para ele, e ele tinha ouvido.
— Eu sou um pastor — disse ele para todo o salão. — Dos Dois Rios. Um pastor.
— Há de ser o que a Roda tecer — disse Elaida em voz alta, e ele não soube dizer se havia um toque de deboche em seu tom ou não.
— Lorde Gareth — disse Morgase —, preciso do conselho do meu Capitão-general.
O homem corpulento sacudiu a cabeça.
— Elaida Sedai diz que o rapaz é perigoso, minha Rainha, e se ela pudesse dizer mais eu mandaria chamar o carrasco. Mas tudo o que ela diz é o que qualquer um de nós pode ver com os próprios olhos. Não há um fazendeiro no campo que não diga que as coisas vão ficar piores sem precisar de Previsão. Eu mesmo acredito que o garoto esteja aqui por mero acaso, embora um acaso que lhe seja desfavorável. Por segurança, minha Rainha, recomendo pô-lo numa cela até que Lady Elayne e Lorde Gawyn estejam bem longe, e depois deixá-lo ir embora. A menos, Aes Sedai, que você tenha mais a Predizer sobre ele.
— Eu já disse tudo o que li no Padrão, Capitão-general — disse Elaida. Ela dirigiu um sorriso duro para Rand, um sorriso que mal levantava os cantos dos lábios, fazendo pouco da incapacidade dele de dizer que ela não estava falando a verdade. — Algumas semanas de prisão não lhe farão mal, e podem me dar a chance de descobrir mais. — Seus olhos estavam famintos, o que fez o frio na espinha de Rand ficar ainda maior. — Talvez haja outra Previsão.
Por algum tempo Morgase ficou pensando, o queixo apoiado no punho fechado, o cotovelo no braço do trono. Rand teria se mexido desconfortavelmente sob o olhar intrigado dela se conseguisse se mover, mas os olhos de Elaida o paralisavam completamente. Por fim, a Rainha falou:
— A desconfiança está sufocando Caemlyn, talvez Andor inteira. O medo, e uma desconfiança negra. Mulheres denunciam suas vizinhas como Amigas das Trevas. Homens rabiscam a Presa do Dragão nas portas de pessoas que conhecem há anos. Eu não vou me tornar parte disso.
— Morgase… — começou Elaida, mas a Rainha a interrompeu.
— Eu não vou me tornar parte disso. Quando subi ao trono jurei fazer justiça para os nobres e os plebeus, e eu a farei, ainda que seja a última em Andor a se lembrar do que é justiça. Rand al’Thor, sob a Luz, você jura que seu pai, um pastor nos Dois Rios, lhe deu esta lâmina com a marca da garça?
Rand tentou produzir saliva suficiente para falar.
— Eu juro. — Subitamente, atentando na pessoa com quem estava falando, acrescentou: — Minha Rainha. — Lorde Gareth ergueu uma sobrancelha, mas Morgase não pareceu se importar.
— E você escalou o muro do jardim simplesmente para ver melhor o falso Dragão?
— Sim, minha Rainha.
— Você deseja algum mal ao trono de Andor, ou a minha filha, ou a meu filho? — Seu tom de voz dizia que os dois últimos lhe dariam ainda menos piedade que o primeiro.
— Não desejo mal algum a quem quer que seja, minha Rainha. À senhora e aos seus menos ainda.
— Então eu lhe darei justiça, Rand al’Thor — disse ela. — Primeiro, porque tenho uma vantagem sobre Elaida e Gareth, de ter ouvido a fala dos Dois Rios quando jovem. Você não tem a aparência, mas, se minha pálida lembrança não me falha, você tem os Dois Rios em sua língua. Segundo, ninguém com seu cabelo e olhos afirmaria ser um pastor dos Dois Rios a menos que fosse verdade. E que seu pai lhe deu uma espada com a marca da garça é absurdo demais para que seja mentira. E, terceiro, a voz que sussurra para mim que a melhor mentira é frequentemente ridícula demais para ser tomada como mentira… essa voz não prova nada. Eu agirei conforme as leis que criei. Eu lhe dou sua liberdade, Rand al’Thor, mas sugiro que tome cuidado com os locais que invadir no futuro. Se for encontrado em território do Palácio novamente, não se livrará assim tão fácil.
— Obrigado, minha Rainha — disse ele com a voz rouca. Podia sentir o desprazer de Elaida como um bafo quente no rosto.
— Tallanvor — disse Morgase —, escolte este… escolte o convidado de minha filha até a saída do Palácio, e demonstre toda a cortesia para com ele. O resto de vocês pode ir também. Não, Elaida, você fica. E, você também, por favor, Lorde Gareth. Preciso decidir o que fazer com relação a esses Mantos-brancos na cidade.
Tallanvor e os guardas embainharam as espadas com relutância, prontos para sacá-las novamente num instante. Mesmo assim, Rand ficou feliz em ver os soldados formarem um quadrado ao seu redor e seguirem Tallanvor. Elaida estava apenas dando parte de sua atenção ao que a Rainha dizia; ele podia sentir os olhos dela em suas costas. O que teria acontecido se Morgase não tivesse mantido a Aes Sedai consigo? Esse pensamento o fez desejar que os soldados andassem mais rápido.