Moiraine estava olhando para ele, mas ele não conseguia ler seu rosto.
— Você os conhece? — perguntou ele. — Significam alguma coisa?
— O Pai das Mentiras é um bom nome para o Tenebroso — respondeu Moiraine. — Sempre foi típico dele colocar o verme da dúvida onde for possível. Esse verme devora as mentes dos homens como um câncer. Acreditar no Pai das Mentiras é o primeiro passo para a rendição. Lembre-se. Se você se render ao Tenebroso, ele o possuirá.
Uma Aes Sedai nunca mente, mas a verdade que ela diz pode não ser a verdade que você pensa que ouviu. Fora o que Tam dissera, e ela não havia realmente respondido à sua pergunta. Ele manteve o rosto impassível e as mãos ainda sobre os joelhos, tentando não enxugar o suor delas na calça.
Egwene chorava baixinho. Nynaeve tinha os braços ao redor dela, mas também parecia querer fazer o mesmo. Rand quase desejou poder chorar também.
— Eles são todos ta’veren — disse Loial bruscamente. Parecia empolgado com a possibilidade, ansioso para ver de perto o Padrão tecendo-se ao redor deles. Rand olhou para ele sem acreditar, e o Ogier deu de ombros meio envergonhado, mas não foi o bastante para reduzir sua ansiedade.
— São mesmo — disse Moiraine. — Três deles, quando eu esperava um. Aconteceram muitas coisas que eu não esperava. Essa novidade com relação ao Olho do Mundo muda muita coisa. — Ela fez uma pausa, franzindo a testa. — Por um tempo o Padrão parece estar girando ao redor de vocês três, como Loial falou, e esse turbilhão vai crescer antes de ficar menor. Às vezes, ser ta’veren quer dizer que o Padrão é forçado a se dobrar a você, e às vezes quer dizer que o Padrão força você a seguir o caminho necessário. A Teia ainda pode ser tecida de muitas maneiras, e alguns desses desenhos seriam desastrosos. Para vocês, para o mundo.
“Não podemos permanecer em Caemlyn, mas, por qualquer estrada, Myrddraal e Trollocs estarão em cima de nós antes de percorrermos dez milhas. E justo neste ponto ouvimos falar de uma ameaça ao Olho do Mundo, não de uma fonte, mas de três, cada qual aparentemente independente das outras. O Padrão está forçando nosso caminho. O Padrão ainda está sendo tecido ao redor de vocês três, mas que mão agora segura o fuso, e que mão controla a roca? Será que a prisão do Tenebroso enfraqueceu o suficiente para que ele exerça tanto controle assim?”
— Não há necessidade para este tipo de conversa! — disse Nynaeve bruscamente. — Você só vai assustá-los.
— E a você não? — perguntou Moiraine. — Isso me assusta. Bem, talvez você tenha razão. Não podemos permitir que o medo afete nosso curso. Seja isto uma armadilha ou um aviso bem a tempo, precisamos fazer o que é necessário, e isto significa chegar ao Olho do Mundo rapidamente. O Homem Verde precisa saber desta ameaça.
Rand levou um susto. O Homem Verde? Os outros também a olharam, todos a não ser Loial, cujo rosto largo parecia preocupado.
— Não posso sequer correr o risco de parar em Tar Valon em busca de ajuda — continuou Moiraine. — O tempo nos aprisiona. Ainda que pudéssemos cavalgar para fora da cidade sem obstáculos, levaríamos muitas semanas para chegar à Praga, e receio que não tenhamos semanas.
— A Praga! — Rand ouviu a si mesmo ecoado num coro, mas Moiraine ignorou todas as vozes.
— O Padrão apresenta uma crise e, ao mesmo tempo, um jeito de solucioná-la. Se eu não soubesse que era impossível, quase poderia acreditar que o Criador está intervindo. Há um caminho. — Ela sorriu como se fosse uma piada particular e virou-se para Loial. — Havia um bosque Ogier aqui em Caemlyn, e um Portal dos Caminhos. A Cidade Nova agora se espalha sobre o local onde o bosque ficava, de modo que o Portal dos Caminhos deve estar dentro das muralhas. Eu sei que não são muitos Ogier que conhecem os Caminhos agora, mas um que possui um Talento e aprende as antigas Canções do Crescimento deve ter se sentido atraído por tal tipo de conhecimento, ainda que acredite que ele nunca será usado. Você conhece os Caminhos, Loial?
O Ogier mexeu os pés, desconfortável.
— Conheço, Aes Sedai, mas…
— Você consegue encontrar a trilha para Fal Dara ao longo dos Caminhos?
— Nunca ouvi falar em Fal Dara — disse Loial, parecendo aliviado.
— Nos tempos das Guerras dos Trollocs o lugar era conhecido como Mafal Dadaranell. Esse nome você conhece?
— Conheço — disse Loial com relutância —, mas…
— Então você consegue encontrar a trilha para nós — disse Moiraine. — Uma virada curiosa, de fato. Quando não podemos ficar nem partir por nenhum meio normal, fico sabendo de uma ameaça ao Olho, e no mesmo lugar existe alguém que pode nos levar até lá em dias. Seja o Criador, ou o destino ou até mesmo o Tenebroso, o Padrão escolheu nosso caminho por nós.
— Não! — disse Loial, num ribombar enfático como trovão. Todos se voltaram para ele, que piscou ante tamanha atenção, mas não havia nenhuma hesitação em suas palavras. — Se entrarmos nos Caminhos, todos morreremos… ou seremos engolidos pela Sombra.
43
Decisões e Aparições
A Aes Sedai parecia saber o que Loial queria dizer, mas ficou quieta. Loial olhava para o chão, esfregando o nariz com um dedo grosso, como se estivesse envergonhado por sua explosão. Ninguém queria falar.
— Por quê? — Rand finalmente perguntou. — Por que nós morreríamos? O que são os Caminhos?
Loial olhou de esguelha para Moiraine, que se virou para pegar uma cadeira diante da lareira. O gatinho se espreguiçou, suas garras arranhando a pedra da lareira, e languidamente saiu dali para esfregar a cabeça nos tornozelos dela, que fez um carinho atrás das orelhas dele com um dedo. O ronronar do gato era um estranho contraponto à voz neutra da Aes Sedai.
— O conhecimento é seu, Loial. Os Caminhos são a única saída para nossa segurança, a única trilha para atrasar o Tenebroso, mesmo que só por um tempo, mas essa é uma história para você contar.
O Ogier não pareceu consolado. Mexeu-se desconfortavelmente em sua cadeira antes de começar.
— Durante o Tempo da Loucura, enquanto o mundo ainda estava em ruptura, a terra estava em revolta, e a humanidade estava sendo dispersa como poeira ao vento. Nós, Ogier, também fomos espalhados, afastados dos pousos, em Exílio e na Longa Peregrinação, quando a Saudade estava gravada em nossos corações. — Ele dirigiu a Moiraine outra olhada de lado. Suas sobrancelhas compridas encolheram-se, formando dois pontos. — Tentarei ser breve, mas isto não é algo que possa ser contado com tanta brevidade. Agora é dos outros que devo falar, os poucos Ogier que ficaram em seus pousos enquanto ao redor deles o mundo se despedaçava. E dos Aes Sedai — ele evitou olhar para Moiraine nesse ponto —, os Aes Sedai homens que morriam ao mesmo tempo que destruíam o mundo em sua loucura. Foi a esses Aes Sedai, os que até aquele momento haviam conseguido evitar a loucura, que os pousos primeiro fizeram a oferta de abrigo. Muitos aceitaram, pois nos pousos eles ficavam protegidos da mácula do Tenebroso que os estava matando. Mas eles perdiam o contato com a Fonte Verdadeira. O problema não era apenas não conseguir manipular o Poder Único, ou tocar a Fonte; eles não conseguiam mais sequer sentir que a Fonte existia. No fim, nenhum deles conseguiu aceitar aquele isolamento, e um a um foram deixando os pousos, torcendo para que àquela altura a mácula tivesse desaparecido. Isso nunca aconteceu.
— Há em Tar Valon — disse Moiraine baixinho — quem diga que o santuário oferecido pelos Ogier prolongou a Ruptura e a agravou. Outras dizem que, se todos aqueles homens tivessem podido enlouquecer ao mesmo tempo, não teria restado nada do mundo. Eu sou da Ajah Azul, Loial; ao contrário da Ajah Vermelha, somos da segunda opinião. O santuário ajudou a salvar o que podia ser salvo. Continue, por favor.