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— Suponho que isso significa que nós duas acompanharemos vocês. — Nynaeve parecia resignada, mas seus olhos brilharam quando ela acrescentou: — Você ainda precisa das minhas ervas, Aes Sedai, a menos que tenha subitamente adquirido alguma habilidade da qual não sei. — Sua voz tinha uma atitude desafiadora que Rand não entendeu, mas Moiraine se limitou a assentir e virou-se para o Ogier.

— Bem, Loial, filho de Arent filho de Halan?

Loial abriu a boca duas vezes, as orelhas peludas tremelicando, antes de falar.

— Sim… bem… O Homem Verde. O Olho do Mundo. Eles são mencionados nos livros, é claro, mas não acho que algum Ogier os tenha realmente visto em, hã, um bom tempo. Suponho… Mas precisa ser pelos Caminhos? — Moiraine assentiu, e suas sobrancelhas compridas caíram até as pontas baterem nas bochechas. — Muito bem, então. Suponho que deva guiar vocês. O Ancião Haman diria que não mereço menos que isso por ser tão ansioso o tempo todo.

— Nossas escolhas estão feitas, então — disse Moiraine. — E, agora que elas foram feitas, precisamos decidir o que fazer a respeito delas, e como.

Planejaram por muito tempo noite adentro. Moiraine fez a maior parte do planejamento, com os conselhos de Loial em relação aos Caminhos, mas escutou perguntas e sugestões de todos. Assim que a escuridão caiu, Lan se juntou a eles, acrescentando seus comentários naquele tom férreo. Nynaeve fez uma lista dos suprimentos de que necessitavam, mergulhando sua pena no tinteiro com mão firme, apesar de o tempo todo resmungar baixinho.

Rand queria ser tão pragmático quanto a Sabedoria. Não conseguia parar de andar para cima e para baixo, como se tivesse energia para queimar ou explodir com ela. Sabia que sua decisão estava tomada, sabia que era a única que ele podia tomar com o conhecimento de que dispunha, mas isso não fazia com que gostasse daquilo. A Praga. Shayol Ghul ficava em algum lugar na Praga, além das Terras Devastadas.

Ele podia ver a mesma preocupação nos olhos de Mat, o mesmo medo que ele sabia ser visível nos seus próprios. Mat estava sentado, apertando as mãos. Os dedos estavam brancos. Se ele as soltasse, Rand pensou, agarraria a adaga de Shadar Logoth.

Não havia a menor preocupação no rosto de Perrin, mas o que havia ali era pior: uma máscara de resignação cansada. Era como se Perrin tivesse lutado contra alguma coisa até não poder mais e estivesse apenas esperando que ela acabasse com ele. E, no entanto, às vezes…

— Nós fazemos o que é necessário, Rand — disse ele. — A Praga… — Por um instante aqueles olhos amarelos se iluminaram, ávidos, clarões no cansaço constante de seu rosto, como se tivessem vida própria, independente do corpulento aprendiz de ferreiro. — Há caça boa ao longo da Praga — sussurrou ele. Depois estremeceu, como se tivesse se dado conta do que dissera, e mais uma vez seu rosto voltou à resignação.

E Egwene. Rand puxou-a de lado a certa altura, até o lado da lareira, onde os que planejavam ao redor da mesa não poderiam ouvir.

— Egwene, eu… — Os olhos dela, como grandes lagos escuros a atraí-lo, fizeram-no parar e engolir em seco. — É de mim que o Tenebroso está atrás, Egwene. De mim, Mat e Perrin. Não quero saber o que Moiraine Sedai diz. De manhã, você e Nynaeve podem ir para casa, ou para Tar Valon, ou para onde quer que queiram ir, e ninguém tentará impedir vocês. Nem os Trollocs, nem os Desvanecidos, nem ninguém. Desde que vocês não estejam conosco. Vá para casa, Egwene. Ou para Tar Valon. Mas vá.

Ele esperou que ela lhe dissesse que tinha tanto direito de ir para onde queria quanto ele, que ele não tinha o direito de lhe dizer o que fazer. Para sua surpresa, ela sorriu e tocou seu rosto.

— Obrigada, Rand — disse baixinho. Ele piscou e fechou a boca enquanto ela continuava. — Mas você sabe que eu não posso. Moiraine Sedai nos disse o que Min viu em Baerlon. Você devia ter me dito quem era Min. Eu achei… Bem, Min diz que eu também faço parte disso. E Nynaeve. Talvez eu não seja ta’veren — ela se atrapalhou com a palavra —, mas o Padrão me manda para o Olho do Mundo também, ao que parece. O que quer que envolva você me envolve também.

— Mas, Egwene…?

— Quem é Elayne?

Por um momento ele ficou olhando fixamente para ela, e então contou a verdade.

— A Filha-herdeira do trono de Andor.

Os olhos dela pareceram se incendiar.

— Se você não consegue falar sério por mais de um minuto, Rand al’Thor, não quero mais falar com você.

Incrédulo, ele a viu, rígida, retornar à mesa, onde se apoiou nos cotovelos perto de Moiraine para escutar o que o Guardião dizia. Preciso falar com Perrin, pensou Rand. Ele sabe como lidar com as mulheres.

Mestre Gill entrou diversas vezes, primeiro para acender os lampiões, depois para trazer comida pessoalmente, e mais tarde para relatar o que estava acontecendo lá fora. Mantos-brancos estavam vigiando a estalagem de duas posições: mais acima e mais abaixo na rua. Havia acontecido um tumulto nos portões que davam para a Cidade Interna, com os Guardas da Rainha prendendo tanto rosetas brancas quanto vermelhas. Alguém havia tentado talhar a Presa do Dragão na porta da frente e fora despachado pela bota de Lamgwin.

Se o estalajadeiro achava estranho que Loial estivesse com eles, não deu a entender. Respondeu as poucas perguntas que Moiraine lhe fez sem tentar descobrir o que eles estavam planejando, e, a cada vez que aparecia, batia na porta e esperava que Lan a abrisse, como se a estalagem e a biblioteca não fossem dele. Em sua última visita, Moiraine lhe deu a folha de pergaminho preenchida pela letra bonita de Nynaeve.

— Não será fácil, a esta hora da noite — disse ele, balançando a cabeça enquanto corria os olhos pela lista —, mas eu consigo arranjar tudo.

Moiraine acrescentou uma sacolinha de couro surrado, que tilintou quando a entregou a ele pelos cordões.

— Ótimo. E cuide para que sejamos acordados antes do dia nascer. Os vigias estarão menos alertas.

— Vamos deixá-los vigiando uma toca vazia, Aes Sedai. — Mestre Gill sorriu.

Rand bocejava quando saiu do aposento arrastando as pernas com os outros em busca de banho e cama. Enquanto se limpava esfregando o corpo com um pedaço de tecido áspero em uma das mãos e uma grande barra de sabão amarelo na outra, seus olhos vagaram até a banqueta ao lado da banheira de Mat. A ponta da bainha dourada da adaga de Shadar Logoth espiava de sob a ponta do casaco bem dobrado de Mat. Lan também olhava de relance para ela de vez em quando. Rand se perguntou se era realmente tão seguro assim tê-la por perto como Moiraine afirmava.

— Você acha que meu pai vai acreditar nisso? — Mat deu uma gargalhada, esfregando as costas com uma escova de cabo comprido. — Eu, salvando o mundo? Minhas irmãs não vão saber se riem ou se choram.

Ele falava como o velho Mat. Rand queria poder esquecer a adaga.

Estava escuro como breu quando ele e Mat finalmente subiram até seu quarto no sótão, as estrelas ocultas pelas nuvens. Pela primeira vez em muito tempo Mat tirou a roupa antes de se deitar, mas também enfiou casualmente a adaga embaixo do travesseiro. Rand apagou a vela e deitou-se. Ele conseguia sentir que havia algo errado na outra cama, não em Mat, mas embaixo de seu travesseiro. Ainda se preocupava com isso quando o sono chegou.

Desde o primeiro instante ele percebeu que era um sonho, um daqueles que não eram inteiramente sonhos. Estava em pé, olhando para a porta de madeira, com a superfície escura, rachada e toda lascada. O ar era frio e úmido, pesado, com o cheiro de matéria em decomposição. Ao longe, o ruído de água gotejando, os pingos nas poças produzindo ecos ocos pelos corredores de pedra.

Negue-o. Negue-o, e o poder dele falhará.

Ele fechou os olhos e se concentrou na Bênção da Rainha, em sua cama, em si mesmo dormindo na cama. Quando abriu os olhos, a porta ainda estava lá. Os ecos da água começaram a combinar com as batidas do seu coração, como se sua pulsação estivesse marcando o compasso deles. Procurou a chama e o vazio, conforme Tam lhe ensinara, e encontrou tranquilidade interior, mas nada fora dele havia mudado. Devagar, abriu a porta e entrou.