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Tudo estava como ele se lembrava no aposento que parecia escavado a fogo na rocha. Janelas altas em arco davam para uma varanda sem sacada, e além dela as camadas de nuvens corriam como um rio na cheia. Os lampiões de metal preto, suas chamas brilhantes demais para os olhos, reluziam, pretos e no entanto de algum modo tão brilhantes quanto se fossem de prata. O fogo rugia mas não emitia calor na apavorante lareira, onde cada pedra parecia vagamente um rosto atormentado.

Tudo estava igual, mas havia uma coisa diferente: sobre o tampo polido da mesa, três pequenas figuras, as formas toscas e sem feições de homens, como se o escultor, apressado, não tivesse finalizado o trabalho com a argila. Ao lado de uma delas havia um lobo, seus detalhes nítidos enfatizados pela crueza da forma do homem, e outro segurava uma minúscula adaga, um ponto vermelho no cabo reluzindo na luz. O último empunhava uma espada. Os pelos da nuca se arrepiando, Rand se aproximou o suficiente para ver a garça em riqueza de detalhes na pequena lâmina.

Ele levantou a cabeça em pânico e encarou diretamente o espelho solitário. Seu reflexo era ainda um borrão, mas não tão nebuloso quanto antes. Ele quase conseguia ver as próprias feições. Se imaginasse que estava forçando bem a vista, quase poderia dizer quem era.

— Você se escondeu de mim por tempo demais.

Ele girou nos calcanhares, a respiração presa na garganta. Um instante antes estava sozinho, mas naquele momento Ba’alzamon encontrava-se diante das janelas. Quando ele falava, cavernas de chamas substituíam seus olhos e sua boca.

— Tempo demais, mas não muito mais tempo.

— Eu renego você — disse Rand com a voz rouca. — Eu nego que você tenha qualquer poder sobre mim. Eu nego a sua existência.

Ba’alzamon riu, um som rico que vinha de dentro do fogo.

— Você acha que é assim tão fácil? Você sempre pensou assim. Todas as vezes que nos defrontamos, você achou que podia me desafiar.

— Como assim todas as vezes? Eu renego você!

— Você sempre renega. No começo. Esta disputa entre nós já aconteceu incontáveis vezes. A cada vez seu rosto é diferente, e seu nome também, mas é você a cada uma delas.

— Eu renego você. — Era um sussurro desesperado.

— Todas as vezes você volta sua força patética contra mim, e a cada vez, no fim, você sabe qual de nós dois é o senhor. Era após Era, você se ajoelha aos meus pés, ou morre desejando que ainda tivesse forças para se ajoelhar. Pobre tolo, você nunca conseguirá me vencer.

— Mentiroso! — gritou Rand. — Pai das Mentiras. Pai dos Tolos se não consegue fazer melhor que isso. Os homens encontraram você na última Era, na Era das Lendas, e o prenderam no seu lugar novamente.

Ba’alzamon tornou a rir, um riso de escárnio que soava como badaladas de um sino, tão altas que Rand desejou tampar os ouvidos para não ouvir mais. Forçou as mãos a permanecerem ao lado do corpo. Com ou sem vazio, elas estavam tremendo quando as risadas finalmente pararam.

— Seu verme, você não sabe absolutamente nada. Tão ignorante quanto um besouro embaixo de uma pedra, e igualmente fácil de esmagar. Esta luta tem se dado desde o momento da criação. Os homens sempre pensam se tratar de uma guerra nova, mas é simplesmente a mesma guerra redescoberta. Mas agora a mudança sopra nos ventos do tempo. Mudança. Desta vez não há volta. Aquelas Aes Sedai orgulhosas que pensam em colocar você contra mim. Eu as acorrentarei e as porei para correr nuas cumprindo as minhas ordens, ou enviarei suas almas para o Poço da Perdição para que gritem por toda a eternidade. Todas, a não ser aquelas que já servem a mim. Estas ficarão apenas um degrau abaixo de mim. Você pode escolher se juntar a elas, com o mundo rastejando aos seus pés. Ofereço mais uma vez, uma última vez. Você pode ficar acima delas, acima de cada poder e domínio, à minha exceção. Houve ocasiões em que você fez essa escolha, ocasiões em que você viveu o suficiente para conhecer seu poder.

Negue-o! Rand agarrou-se ao que podia negar.

— Nenhuma Aes Sedai serve a você. Outra mentira!

— Foi isso o que elas lhe disseram? Há dois mil anos percorri o mundo com meus Trollocs, e até entre Aes Sedai eu encontrei quem conhecesse o desespero, quem soubesse que o mundo não podia resistir a Shai’tan. Por dois mil anos a Ajah Negra caminhou entre as outras, invisível nas sombras. Talvez até mesmo as que afirmam ajudar você.

Rand sacudiu a cabeça, tentando afastar as dúvidas que surgiam dentro dele, todas as dúvidas que tinha a respeito de Moiraine, sobre o que a Aes Sedai queria dele, sobre o que ela planejava para ele.

— O que você quer de mim? — gritou. Negue-o! A Luz me ajude a negá-lo!

— Ajoelhe-se! — Ba’alzamon apontou para o chão a seus pés. — Ajoelhe-se e me reconheça como seu senhor! No fim, você fará isso. Você será minha criatura, ou conhecerá a morte.

A última palavra ecoou pelo aposento, reverberando de volta a si mesma, duplicando e replicando, até Rand levantar as mãos como se para proteger a cabeça de um golpe. Cambaleando para trás até bater na mesa, ele gritou, tentando afogar o som em seus ouvidos.

— Nããããããão!

Ao gritar, ele girou, derrubando as figuras no chão. Alguma coisa espetou sua mão, mas ele ignorou, pisando a argila até as figuras aos seus pés se tornarem manchas disformes. Mas, quando seu grito falhou, o eco ainda estava lá, cada vez mais forte:

morte-morte-morte-morte-morte-Morte-Morte-Morte-Morte-Morte-MORTE-MORTE-MORTE-MORTE-MORTE

O som o puxou como um redemoinho, atraindo-o, despedaçando o vazio em sua mente. A luz enfraqueceu, e sua visão se estreitou até formar um túnel com Ba’alzamon em pé no último ponto brilhante, lá no fim, diminuindo até o tamanho de sua mão, uma unha, o nada. O eco turbilhonava ao seu redor, tragando-o rumo à escuridão e à morte.

Quando ele atingiu o chão, o impacto o despertou, ainda lutando para nadar e sair daquela escuridão. O quarto estava escuro, mas não tão escuro assim. Freneticamente, ele tentou se concentrar na chama, jogou o medo dentro dela, mas a calma do vazio lhe escapava. Tremores percorreram seus braços e pernas, mas ele manteve a imagem da chama única até o sangue parar de pulsar nos ouvidos.

Mat estava se revirando na cama, gemendo enquanto dormia.

— Eu nego você, nego você, nego você… — As palavras foram se extinguindo até se tornarem gemidos ininteligíveis.

Rand estendeu a mão para acordá-lo com uma sacudidela, e ao primeiro toque Mat se sentou com um grunhido estrangulado. Por um momento Mat ficou olhando ao redor como um louco, depois respirou fundo e estremeceu, levando as mãos à cabeça. Subitamente ele se virou, enfiando as mãos embaixo do travesseiro, depois se afundou na cama, segurando a adaga com cabo de rubi de encontro ao peito. Virou a cabeça para olhar para Rand, o rosto oculto nas sombras.

— Ele voltou, Rand.

— Eu sei.

Mat assentiu.

— Havia três figuras…

— Eu também vi.

— Ele sabe quem eu sou, Rand. Eu apanhei a que tinha a adaga, e ele disse: “Então esse é você.” E, quando voltei a olhar, a figura tinha o meu rosto. O meu rosto, Rand! Ela parecia de carne. Eu sentia como se fosse feita de carne. A Luz me ajude, eu podia sentir minha própria mão me segurando, como se eu fosse a figura.

Rand ficou em silêncio por um instante.

— Você precisa continuar a negá-lo, Mat.

— Eu fiz isso, e ele riu. Não parava de falar a respeito de uma tal de guerra eterna, e dizia que nós havíamos nos encontrado umas mil vezes antes, e… Luz, Rand, o Tenebroso sabe quem eu sou.

— Ele me disse a mesma coisa. Não acho que ele saiba — acrescentou lentamente. — Acho que ele não sabe qual de nós… — Qual de nós o quê?