— Que a Luz o ilumine também, Mestre Gill — respondeu Moiraine, curvando a cabeça. — Mas, para a Luz brilhar sobre todos nós, precisamos ser rápidos. — Ela se virou rapidamente para Loial. — Você está pronto?
Com um olhar desconfiado para os dentes do cavalo enorme, o Ogier pegou suas rédeas. Tentando manter toda a extensão das rédeas entre aquela boca e sua mão, ele levou o animal até a abertura nos fundos do estábulo. Ramey pulava de um pé para outro, impaciente para fechá-la de novo. Por um momento, Loial parou com a cabeça inclinada como se sentisse uma brisa no rosto.
— Por aqui — disse ele, e saiu para o beco estreito.
Moiraine foi logo atrás do cavalo de Loial, depois Rand e Mat. Rand assumiu o primeiro turno levando o cavalo de carga. Nynaeve e Egwene compunham o meio da fileira, com Perrin atrás delas e Lan na retaguarda. A porta oculta se fechou rapidamente assim que Mandarb saiu para o beco sujo. O tlec-tlec das travas se fechando, trancando-os do lado de fora, soou anormalmente alto para Rand.
O corredor, como Mestre Gill o havia chamado, era realmente muito estreito, e mais escuro até mesmo que o pátio do estábulo, se é que isso era possível. Paredes altas e nuas de tijolo ou madeira os cercavam de ambos os lados, com apenas uma estreita faixa de céu negro acima. As grandes cestas trançadas penduradas como alforjes no cavalo de carga raspavam os prédios em ambos os lados. Os alforjes estavam inchados de suprimentos para a jornada, a maioria deles jarros de argila cheios de óleo. Um maço de varas estava amarrado no sentido do comprimento no dorso do cavalo, e cada um deles tinha um lampião pendurado na ponta. Nos Caminhos, dissera Loial, era mais escuro que a noite mais densa.
Os lampiões parcialmente cheios faziam um barulho líquido com o movimento do cavalo e tilintavam um contra o outro. Não era um barulho muito alto, mas na hora que antecedia o amanhecer Caemlyn estava quieta. Em silêncio. O ruído metálico soava como se pudesse ser ouvido a uma milha de distância.
Quando o corredor desembocou em uma rua, Loial escolheu sua direção sem fazer pausa. Ele parecia saber exatamente para onde estava indo agora, como se a rota que precisava seguir estivesse se tornando mais clara. Rand não entendia como o Ogier podia encontrar o Portal dos Caminhos, e Loial não fora capaz de explicar muito bem. Ele simplesmente sabia, dissera; podia sentir. Loial afirmara que era como tentar explicar como respirar.
Enquanto subiam a rua apressados, Rand olhou para trás, na direção da esquina onde ficava a Bênção da Rainha. De acordo com Lamgwin, ainda havia meia dúzia de Mantos-brancos não muito longe daquela esquina. O interesse deles estava todo na estalagem, mas um ruído certamente os atrairia. Ninguém estaria na rua àquela hora por motivos respeitáveis. As ferraduras pareciam soar como sinos nas pedras do calçamento; os lampiões chacoalhavam como se o cavalo de carga os sacudisse de propósito. Só depois que viraram mais uma esquina ele parou de olhar para trás. Também ouviu suspiros aliviados do restante do grupo de Campo de Emond.
Loial parecia estar seguindo o caminho mais direto para o Portal dos Caminhos, não importava por onde isso os levasse a passar. Às vezes eles percorriam avenidas largas, vazias a não ser por um ou outro cão espreitando no escuro. Às vezes eles passavam por becos estreitos como o corredor do estábulo, onde coisas eram esmagadas sob passos incautos. Nynaeve reclamou baixinho a respeito dos cheiros resultantes, mas ninguém reduziu o passo.
A escuridão começou a diminuir, desvanecendo e transformando-se em um cinza escuro. Lampejos fracos da aurora clareavam o céu acima dos telhados a leste. Algumas pessoas começaram a aparecer nas ruas, bem agasalhadas por causa do frio da manhã, cabeças abaixadas enquanto ainda sonhavam com suas camas. A maioria não prestava atenção a mais ninguém. Apenas um punhado chegou a olhar de relance para a fileira de pessoas e cavalos com Loial à frente, e só um deles realmente os viu.
Esse único homem olhou de relance para eles, como os outros, já voltando a seus próprios pensamentos quando subitamente tropeçou e quase caiu, virando-se para fitá-los. Só havia luz suficiente para ver silhuetas indefinidas, mas já era muito. Visto a distância sozinho, o Ogier poderia ter passado por um homem alto conduzindo um cavalo comum, ou um homem comum conduzindo um cavalo pequeno. Com os outros enfileirados atrás dele, dando-lhe perspectiva, Loial parecia exatamente tão grande quanto era, uma vez e meia a altura que um homem deveria ter. O homem deu uma olhada e, com um grito estrangulado, saiu correndo, o manto drapejando atrás dele.
Em breve haveria mais gente nas ruas. Muito em breve. Rand viu uma mulher passar correndo do outro lado da rua, sem ver nada a não ser o pavimento à sua frente. Mais pessoas para notar em breve. O céu a leste ficava cada vez mais claro.
— Ali — anunciou Loial finalmente. — Fica ali embaixo. — Ele apontou para uma loja, ainda fechada. As mesas do lado de fora estavam vazias, os toldos em cima, bem enrolados, a porta firmemente fechada. As janelas acima, onde o dono da loja morava, ainda estavam às escuras.
— Embaixo? — exclamou Mat sem conseguir acreditar. — Como, pela Luz, nós podemos…?
Moiraine levantou a mão e o interrompeu, e fez um gesto para que eles a seguissem até o beco ao lado da loja. Cavalos e pessoas juntos, eles se amontoaram na abertura entre os dois edifícios. Encobertos pela sombra das paredes, estava mais escuro ali do que na rua, quase noite novamente.
— Deve haver uma entrada para um porão — murmurou Moiraine. — Ah, sim.
Subitamente uma luz surgiu. Uma bola fria e reluzente, do tamanho do punho de um homem, suspensa sobre a palma da mão da Aes Sedai, movendo-se com a mão dela. Rand achou que era uma medida do que eles haviam passado o fato de que todos ali pareceram encarar isso normalmente. Ela a aproximou das portas que havia encontrado, quase horizontais, com uma alça presa com parafusos grossos e uma fechadura de ferro maior que a mão de Rand, coberta por uma camada espessa de ferrugem velha.
Loial experimentou a fechadura.
— Eu consigo puxá-la, com alça e tudo, mas vai fazer barulho suficiente para acordar toda a vizinhança.
— Não vamos danificar a propriedade do bom homem se pudermos evitar. — Moiraine estudou a fechadura com atenção por um momento. Subitamente ela deu uma pancada no ferro com seu cajado, e a fechadura destravou-se sem esforço.
Loial abriu a fechadura apressadamente e escancarou as portas. Moiraine desceu a rampa que se revelou então, iluminando seu caminho com a bola luminosa. Aldieb entrou delicadamente atrás dela.
— Acendam os lampiões e desçam — chamou ela baixinho. — Há muito espaço. Depressa. Aí fora vai estar claro num instante.
Rand desamarrou rapidamente os lampiões das varas e os tirou do cavalo, mas antes mesmo que o primeiro fosse aceso ele já conseguia ver as feições de Mat. As pessoas estariam enchendo as ruas em minutos, e o lojista desceria para abrir seu negócio, e todos se perguntariam por que o beco estava lotado de cavalos. Mat resmungou alguma coisa, nervoso, sobre levar os cavalos para dentro, mas Rand ficou feliz por conduzir o seu rampa abaixo. Mat foi atrás, resmungando, mas com a mesma pressa.
O lampião de Rand balançava na ponta da vara, batendo no teto se ele não tomasse cuidado, e nem Vermelho nem o cavalo de carga gostaram da rampa. Então ele desceu e saiu do caminho de Mat. Moiraine deixou sua luz flutuante se apagar, mas, quando o restante se juntou a eles, a soma dos lampiões iluminou o espaço aberto.
O porão era tão comprido e largo quanto o prédio acima; a maior parte do espaço era tomada por colunas de tijolos, que subiam de bases estreitas e iam aumentando de tamanho até ficarem cinco vezes maiores no teto. O lugar parecia feito de uma série de arcos. Havia muito espaço, mas Rand ainda se sentia claustrofóbico. A cabeça de Loial roçava o teto. Como a fechadura enferrujada previra, o porão não era usado havia muito tempo. O chão estava vazio, a não ser por alguns poucos barris quebrados cheios de tralhas e uma grossa camada de poeira. Partículas, agitadas pela grande quantidade de pés, reluziam à luz dos lampiões.