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— Sangue e cinzas — grunhiu Mat —, por que eles construiriam um desses portões num lugar assim?

— Nem sempre foi assim — disse Loial. Sua voz de trovão ecoou no espaço cavernoso. — Nem sempre. Não! — O Ogier estava com raiva, Rand percebeu com um susto. — Um dia houve árvores aqui. Toda espécie de árvore que crescesse neste lugar, todo tipo de árvore que os Ogier pudessem convencer a crescer aqui. As Grandes Árvores, com uma centena de braças de altura. Sombras de galhos, e brisas frescas para apanhar o cheiro de folhas e flores e manter a memória da paz do pouso. Tudo aquilo assassinado para isto! — Socou uma coluna com o punho.

A coluna pareceu estremecer com o impacto. Rand teve certeza de ouvir tijolos rachando. Cascatas de cimento seco caíram pela coluna.

— O que já foi tramado não pode ser desfeito — disse Moiraine gentilmente. — Você derrubar o edifício sobre nossas cabeças não fará as árvores crescerem novamente. — As sobrancelhas caídas de Loial o faziam parecer mais entristecido que um rosto humano poderia ter conseguido. — Com sua ajuda, Loial, talvez possamos evitar que os bosques que ainda restam caiam perante a Sombra. Você nos trouxe ao que buscamos.

Enquanto ela andava até uma das paredes, Rand percebeu que aquela era diferente das outras. Estas eram de tijolos comuns; aquela era um trabalho intrincado de cantaria, redemoinhos exóticos de folhas e lianas talhados na pedra, pálidos mesmo sob a camada de poeira. O tijolo e o cimento eram velhos, mas alguma coisa na pedra dizia que ela estava ali havia muito tempo, muito antes de os tijolos terem sido assentados. Construtores posteriores, eles próprios mortos havia séculos, tinham incorporado o que já estava em pé, e mais tarde ainda os homens tinham feito aquilo parte de um porão.

Uma porção da parede de pedra esculpida, bem no centro, era mais elaborada que o restante. Por mais bem-feita que fosse, parecia uma cópia tosca em comparação. Trabalhadas em pedra dura, aquelas folhas pareciam suaves, capturadas em um momento congelado no tempo enquanto uma suave brisa de verão as agitava. Apesar de tudo isso, tinham o aspecto da idade, mais antigas que o restante da pedra assim como o restante era mais antigo que o tijolo. Bem mais antigo. Loial olhou para eles como se preferisse estar em qualquer outro lugar que não ali, até mesmo nas ruas com outra turba furiosa.

Avendesora — murmurou Moiraine, repousando a mão em uma folha de três pontas na cantaria. Rand vasculhou as esculturas com o olhar; aquela era a única folha de sua espécie que ele conseguiu encontrar. — A folha da Árvore da Vida é a chave — disse a Aes Sedai, e a folha saiu na mão dela.

Rand piscou, surpreso; atrás dele, ouviu alguém arquejar. Aquela folha parecia fazer parte da parede tanto quanto qualquer outra. Com a mesma simplicidade, a Aes Sedai a colocou contra o padrão um palmo abaixo. A folha de três pontas se encaixou ali como se o espaço tivesse sido criado para ela, e mais uma vez se tornou parte do todo. Assim que ela se encaixou, toda a natureza do trabalho central na pedra mudou.

Então Rand teve certeza de que estava vendo as folhas sopradas por alguma brisa que ele não sentia; quase achou que elas eram verdes sob a poeira, uma tapeçaria espessa do verde da primavera ali no porão iluminado pelos lampiões. De modo quase imperceptível no começo, uma rachadura se abriu no meio da escultura ancestral, aumentando enquanto as duas metades lentamente giravam para dentro do porão até se abrirem, retas. As partes de trás dos portões eram tão trabalhadas quanto a frente, a mesma profusão de lianas e folhas, quase vivas. Atrás, onde deveria haver poeira ou o porão do prédio ao lado, um brilho suave e reflexivo captava suas imagens de forma tênue.

— Ouvi dizer — disse Loial meio triste, meio temeroso — que um dia os Portais dos Caminhos brilhavam como espelhos. Um dia, quem entrava nos Caminhos seguia pelo sol e pelo céu. Um dia.

— Não podemos mais esperar — disse Moiraine.

Lan passou direto por ela, conduzindo Mandarb, a vara com o lampião na mão. O reflexo sombrio se aproximou dele, conduzindo um cavalo sombrio. Homem e reflexo aparentemente entraram um no outro na superfície tremeluzente, e ambos desapareceram. Por um momento o garanhão negro parou, uma rédea aparentemente contínua ligando-o à forma tênue de sua própria imagem. A rédea diminuiu, e o cavalo de guerra também desapareceu.

Por um momento, todos no porão ficaram olhando para o Portal dos Caminhos.

— Depressa — disse Moiraine. — Eu preciso ser a última a passar. Não podemos deixar isto aberto para que alguém o encontre por acaso. Depressa.

Com um suspiro pesado, Loial caminhou para dentro de sua imagem tremeluzente. Sacudindo a cabeça, o cavalo enorme tentou se afastar da superfície e foi puxado através dela. Os dois desapareceram tão completamente quanto o Guardião e Mandarb.

Com hesitação, Rand enfiou o lampião no Portal dos Caminhos. O lampião afundou em seu reflexo, os dois se fundindo até que ambos desapareceram. Ele se obrigou a caminhar adiante, vendo a vara desaparecer dentro de si mesma palmo a palmo, e então ele próprio atravessou, entrando no portão. Seu queixo caiu. Alguma coisa gelada deslizou ao longo de sua pele, como se ele estivesse atravessando uma muralha de água fria. O tempo se prolongou; o frio envolveu um cabelo de cada vez, penetrando em suas roupas fio a fio.

Subitamente o frio estourou como uma bolha, e ele fez uma pausa para respirar. Estava dentro dos Caminhos. Logo à frente, Lan e Loial esperavam pacientemente ao lado de seus cavalos. Ao redor deles havia uma escuridão que parecia se estender para sempre. Seus lampiões criavam uma pequena área de luz ao redor deles, pequena demais, como se alguma coisa pressionasse a luz de volta, ou a devorasse.

Subitamente ansioso, Rand puxou as rédeas. Vermelho e o cavalo de carga atravessaram num pulo, quase derrubando-o. Tropeçando, ele se endireitou e se apressou até o Guardião e o Ogier, conduzindo os cavalos nervosos. Os animais relincharam baixinho. Até mesmo Mandarb parecia sentir algum conforto com a presença de outros cavalos.

— Vá com calma quando você passar por um Portal dos Caminhos, Rand — aconselhou Loial. — As coisas são… diferentes dentro dos Caminhos. Veja.

Ele olhou para trás, na direção para a qual o Ogier apontou, esperando a mesma visão turva. Em vez disso, podia ver o lado de dentro do porão, como se estivesse olhando através de um pedaço grande de vidro esfumaçado na escuridão. De um modo perturbador, a escuridão ao redor da janela para o porão dava uma sensação de profundidade, como se a abertura estivesse sozinha, sem nada ao redor nem atrás dela a não ser a escuridão. Ele disse isso com uma risada insegura, mas Loial o levou a sério.

— Você poderia dar a volta nele que não veria nada do outro lado. Mas eu não aconselharia. Os livros não são muito claros com relação ao que existe atrás dos Portais dos Caminhos. Acho que você poderia se perder lá e nunca mais achar o caminho de volta.

Rand sacudiu a cabeça e tentou se concentrar no Portal dos Caminhos propriamente dito em vez de no que havia atrás dele, mas à sua própria maneira ele era igualmente perturbador. Se houvesse algo para olhar na escuridão além do Portal dos Caminhos, ele teria olhado. No porão, em meio à fumaça e à baixa luminosidade, Moiraine e os outros eram visíveis o suficiente, mas se moviam como num sonho. Cada piscar de olhos parecia um gesto deliberado e exagerado. Mat estava se dirigindo para o Portal dos Caminhos como se atravessasse uma geleia transparente. Suas pernas pareciam estar nadando à frente.