Quando ela passou para Mat, Rand se perguntou se ela achava que era assim tão simples, que ela podia lhe dizer que ele estava a salvo e ele acreditaria. Mas de algum modo ele se sentiu seguro… ou mais seguro, pelo menos. Pensando nisso, começou a adormecer, e não sonhou.
Lan os despertou. Rand se perguntou se o Guardião havia dormido; ele não parecia cansado, nem de perto tão cansado quanto aqueles que haviam se deitado por algumas horas na pedra dura. Moiraine lhes permitiu tempo suficiente para preparar chá, mas só uma xícara por pessoa. Comeram o desjejum na sela, Loial e o Guardião conduzindo o grupo. Era a mesma refeição que as outras: pão, carne e queijo. Rand pensou que seria fácil se cansar de pão, carne e queijo.
Pouco depois de a última migalha ter sido lambida do último dedo, Lan disse baixinho:
— Alguém está nos seguindo. Ou alguma coisa. — Eles estavam no meio de uma ponte, com ambas as extremidades ocultas.
Mat sacou uma flecha de sua aljava e, antes que alguém pudesse detê-lo, disparou-a nas trevas atrás deles.
— Eu sabia que não devia ter feito isso — murmurou Loial. — Nunca lide com uma Aes Sedai a não ser num pouso.
Lan abaixou o arco de Mat antes que este pudesse puxar outra flecha.
— Pare com isso, seu aldeão idiota. Não há como saber quem é.
— É o único lugar em que elas não representam qualquer risco — continuou o Ogier.
— O que mais estaria em um lugar como este se não fosse algo de ruim? — Mat quis saber.
— É o que os Anciões dizem, e eu devia tê-los ouvido…
— Nós, por exemplo — respondeu o Guardião, seco.
— Talvez seja outro viajante — disse Egwene, esperançosa. — Um Ogier, quem sabe?
— Ogier têm juízo bastante para não usar os Caminhos — grunhiu Loial. — Todos a não ser Loial, que não tem juízo. O Ancião Haman sempre disse isso, e é verdade.
— O que você está sentindo, Lan? — perguntou Moiraine. — É algo que serve ao Tenebroso?
O Guardião balançou a cabeça devagar.
— Não sei — respondeu, como se aquilo o surpreendesse. — Não sei dizer. Talvez sejam os Caminhos, e a mácula. Tudo parece errado. Mas, seja quem for, ou o que for, não está tentando nos pegar. Ele quase nos alcançou na última Ilha e deu a volta na ponte para isso não acontecer. Se eu ficasse para trás, poderia surpreendê-lo e ver quem ou o que ele é.
— Se você ficar para trás, Guardião — disse Loial com firmeza —, passará o resto da vida nos Caminhos. Mesmo que soubesse ler Ogier, nunca ouvi falar nem li sobre um humano que conseguisse encontrar seu caminho depois da primeira Ilha sem um guia Ogier. Você sabe ler Ogier?
Lan tornou a balançar a cabeça, e Moiraine disse:
— Contanto que ele não nos perturbe, não o perturbaremos. Não temos tempo. Nenhum tempo.
Enquanto cavalgavam atravessando a ponte para a Ilha seguinte, Loial disse:
— Se bem me lembro do último Guia, existe um caminho daqui que vai dar em Tar Valon. Metade de um dia de jornada no máximo. Não é tanto tempo quanto levaremos para alcançar Mafal Dadaranell. Tenho certeza de que…
Parou de falar quando a luz de seus lampiões chegou ao Guia. Perto do topo da placa, linhas fundas escavadas, agudas e angulosas, abriam feridas na pedra. Subitamente Lan não disfarçava mais seu estado de alerta. Permanecia tranquilamente de pé na sela, mas Rand teve a impressão súbita de que o Guardião podia sentir tudo ao seu redor, até mesmo o resto deles respirando. Lan começou a dar a volta no Guia com seu garanhão, numa espiral que se distanciava da pedra. Cavalgava como se estivesse pronto para ser atacado, ou para atacar.
— Isto explica muita coisa — disse Moiraine baixinho — e me deixa com medo. Muita coisa mesmo. Eu devia ter imaginado. A mácula, a decadência. Eu devia ter imaginado.
— Imaginado o quê? — Nynaeve quis saber no momento em que Loial perguntou:
— O que é? Quem fez isto? Nunca vi nem ouvi falar em nada parecido.
A Aes Sedai os encarou com calma.
— Trollocs. — Ela ignorou seus arquejos assustados. — Ou Desvanecidos. Estas runas são de Trollocs. Os Trollocs descobriram como entrar nos Caminhos. Deve ser assim que eles chegaram aos Dois Rios sem serem descobertos; pelo Portal dos Caminhos em Manetheren. Existe pelo menos um Portal dos Caminhos na Praga. — Ela olhou para Lan antes de continuar; o Guardião estava longe o suficiente para que apenas uma fraca luz de seu lampião pudesse ser vista. — Manetheren foi destruída, mas quase nada é capaz de destruir um Portal dos Caminhos. Foi assim que os Desvanecidos conseguiram reunir um pequeno exército ao redor de Caemlyn sem alarmar todas as nações entre a Praga e Andor. — Fazendo uma pausa, ela tocou os lábios, pensativa. — Mas eles não podem conhecer todas as trilhas ainda, caso contrário estariam jorrando em Caemlyn pelo portão que usamos. Sim.
Rand estremeceu. Atravessar o Portal dos Caminhos para encontrar Trollocs esperando nas trevas, centenas deles, talvez milhares, gigantes deformados com rostos semianimais, rosnando ao darem o bote na escuridão para matar. Ou pior.
— Eles não usam os Caminhos facilmente — disse Lan, ainda afastado. Seu lampião não estava a mais de vinte braças, mas sua luz era apenas uma bola indefinida e fraca que parecia muito distante para os que estavam em torno do Guia. Moiraine os levou até lá. Rand desejou que seu estômago estivesse vazio quando viu o que o Guardião havia encontrado.
Ao pé de uma das pontes jaziam as formas congeladas de Trollocs, no ato de brandir, desesperados, machados com ganchos e espadas semelhantes a foices. Cinza e cheios de buracos como as pedras, os corpos imensos estavam meio afundados na superfície inchada e borbulhante. Algumas das bolhas haviam estourado, revelando mais rostos com focinhos, para sempre rosnando apavorados. Rand ouviu alguém vomitando atrás dele e engoliu em seco para evitar se juntar a quem quer que fosse. Até mesmo para os Trollocs, fora uma forma horrível de morrer.
Alguns passos além dos Trollocs a ponte terminava. O marco de sinalização estava estilhaçado em mil.
Loial desceu desconfiado de seu cavalo, olhando os Trollocs como se achasse que eles poderiam voltar à vida. Examinou os restos do marco apressadamente, analisando a escrita de metal que havia sido inserida na pedra, depois voltou, desajeitado, à sua sela.
— Esta era a primeira ponte da trilha daqui para Tar Valon — disse.
Mat estava esfregando as costas da mão na boca, com a cabeça virada para longe dos Trollocs. Egwene escondia o rosto nas mãos. Rand aproximou seu cavalo de Bela e tocou o ombro de Egwene, que se virou e o agarrou, estremecendo. Ele também queria estremecer; o fato de ela estar agarrada a ele era a única coisa que o impedia.
— Que bom que ainda não estamos indo para Tar Valon — disse Moiraine.
Nynaeve virou-se para a Aes Sedai.
— Como você pode encarar isso com tanta calma? A mesma coisa poderia acontecer conosco!
— Talvez — disse Moiraine, serena, e Nynaeve rangeu os dentes tão alto que Rand conseguiu ouvir. — Mas é mais provável — continuou Moiraine, imperturbável — que os Aes Sedai que fizeram os Caminhos os tenham protegido, construindo armadilhas para criaturas do Tenebroso. É algo que eles deviam temer na época, antes que os Meios-homens e os Trollocs tivessem sido rechaçados para a Praga. De qualquer maneira, não podemos nos deter aqui, e, seja qual for o caminho que escolhermos, para trás ou para a frente, é tão provável que haja uma armadilha nele quanto em qualquer outro. Loial, você sabe qual é a próxima ponte?
— Sim. Sim, eles não arruinaram aquela parte do Guia, graças à Luz. — Pela primeira vez Loial parecia tão ansioso para seguir em frente quanto Moiraine. Pôs seu cavalo grande a andar antes de terminar de falar.