Egwene permaneceu agarrada ao braço de Rand por mais duas pontes. Ele lamentou quando ela finalmente o soltou com um pedido de desculpas murmurado e um riso forçado, e não só porque era bom tê-la se segurando a ele assim. Era mais fácil ser corajoso, ele descobriu, quando alguém precisava de sua proteção.
Moiraine podia não ter acreditado que pudesse haver uma armadilha para eles, mas, apesar de toda a pressa de que ela falava, os fez viajar mais devagar do que antes, fazendo uma pausa antes de deixá-los passar por qualquer ponte, ou chegar a uma Ilha. Ela avançava com Aldieb, sentindo o ar à sua frente com a mão estendida, e nem mesmo Loial, ou Lan, tinha permissão de ir adiante até ela autorizar.
Rand tinha de confiar no julgamento dela a respeito de armadilhas, mas ele olhava a escuridão ao redor deles, como se realmente pudesse ver qualquer coisa a mais de duas braças, e apurava os ouvidos para escutar. Se os Trollocs podiam usar os Caminhos, então o que quer que os estivesse seguindo poderia ser mais uma criatura do Tenebroso. Ou mais de uma. Lan dissera que não conseguia saber nos Caminhos. Mas, enquanto atravessavam uma ponte atrás da outra, comiam uma refeição ao meio-dia cavalgando e atravessavam ainda mais pontes, tudo o que podia ouvir eram suas próprias selas rangendo e os cascos dos cavalos, e às vezes um dos outros tossindo ou resmungando consigo mesmo. Depois houve um vento distante também, em algum ponto em meio às trevas. Não conseguiu dizer em qual direção. No começo ele achou que fosse sua imaginação, mas com o passar do tempo teve certeza.
Vai ser bom sentir o vento de novo, mesmo que seja frio.
Subitamente ele se lembrou de uma coisa.
— Loial, você não disse que nos Caminhos não sopra nenhum vento?
Loial parou o cavalo logo antes de chegar à Ilha seguinte e inclinou a cabeça para ouvir. Lentamente seu rosto empalideceu, e ele passou a língua pelos lábios.
— Machin Shin — sussurrou, a voz rouca. — O Vento Negro. A Luz nos ilumine e nos proteja. É o Vento Negro.
— Quantas pontes faltam? — perguntou Moiraine, ríspida. — Loial, quantas pontes faltam?
— Duas. Eu acho. Duas.
— Rápido então — disse ela, espicaçando Aldieb num trote para a Ilha. — Encontre-a rápido!
Loial falava consigo mesmo, ou para quem estivesse ouvindo, enquanto lia o Guia.
— Eles saíam loucos, gritando a respeito do Machin Shin. Que a Luz nos ajude! Mesmo aqueles que as Aes Sedai podiam curar, eles… — Seu olhar percorreu apressadamente a pedra, e ele galopou com um grito na direção da ponte escolhida: — Por aqui!
Dessa vez Moiraine não esperou para conferir. Mandou que todos galopassem, a ponte tremendo sob os cavalos, lampiões balançando loucamente sobre as cabeças. Loial passou os olhos pelo Guia seguinte e, como um corredor, fez a volta com sua grande montaria quase sem parar. O som do vento estava mais alto. Rand podia ouvi-lo até mesmo com o barulho dos cascos sobre a pedra. Atrás deles, as rajadas se aproximavam.
Não se importaram em ver o último Guia. Assim que a luz dos lampiões bateu na linha branca correndo a partir dele, todos viraram naquela direção, ainda a galope. A Ilha desapareceu, e restaram apenas a pedra esburacada e cinzenta sob os pés deles e a linha branca. Rand arfava tão alto que não sabia mais ao certo se conseguia ouvir o vento.
Na escuridão os portões surgiram, com videiras esculpidas, sozinhos nas trevas como um pequeno pedaço de parede na noite. Moiraine se inclinou para fora da sela, estendendo a mão na direção das esculturas, e subitamente recuou.
— A folha de Avendesora não está aqui! — disse. — A chave sumiu!
— Luz! — gritou Mat. — Maldita Luz! — Loial jogou a cabeça para trás e soltou um grito de lamento, como um uivo de morte.
Egwene tocou o braço de Rand. Seus lábios tremiam, mas ela apenas olhou para ele, que colocou a mão sobre a dela, esperando não parecer mais assustado do que ela. Rand o sentia. Lá atrás, na direção do Guia, o vento uivava. Ele quase pensou que podia ouvir vozes nele, vozes gritando coisas vis que, mesmo semicompreendidas, fizeram a bile subir à sua garganta.
Moiraine ergueu seu cajado, e chamas saltaram da ponta. Não era a chama branca pura que Rand se lembrava de Campo de Emond e da batalha antes de Shadar Logoth. Um amarelo doentio riscava o fogo, e havia também partículas pretas, que flutuavam lentamente como fuligem. Uma fumaça fina e acre saía da chama, fazendo Loial tossir e os cavalos dançarem, nervosos, mas Moiraine estocou os portões com a chama. A fumaça arranhou a garganta de Rand e queimou seu nariz.
A pedra derreteu como manteiga, folhas e ramos murchando na chama e desaparecendo. A Aes Sedai movia a chama o mais rápido que podia, mas cortar uma abertura grande o bastante para todos passarem não era tarefa rápida. Para Rand, era como se a linha de pedra derretida caminhasse pelo arco a passo de tartaruga. Seu manto se mexeu, como se no começo de uma brisa, e seu coração gelou.
— Já dá para sentir — disse Mat, a voz trêmula. — Luz, já dá para sentir! Maldição!
A chama se apagou, e Moiraine abaixou o cajado.
— Pronto — disse ela. — Quase pronto.
Uma linha fina percorria a pedra escavada. Rand pensou ter visto luz, fraca, mas luz mesmo assim, através da rachadura. Mas, apesar do corte, as duas grandes placas curvas de pedra ainda estavam ali, meio arco em cada porta. A abertura seria grande o bastante para todos passarem com os cavalos, embora Loial pudesse ter de se deitar bem nas costas de seu cavalo. Assim que as duas metades de pedra sumissem, seria grande o bastante. Ele se perguntou o quanto cada uma delas pesava. Mil libras? Mais? Talvez, se todos desmontarmos e empurrarmos. Talvez possamos derrubar uma delas antes que o vento chegue aqui. Uma rajada puxou seu manto. Ele tentou não ouvir o que as vozes gritavam.
Quando Moiraine recuou, Mandarb disparou à frente, na direção dos portões. Lan se agachou na sela. No último instante, o cavalo de guerra se virou para atingir a pedra com o ombro, como havia sido ensinado a atingir outros cavalos em batalha. Com um estrondo, a pedra tombou para fora, e o Guardião e seu cavalo foram levados pelo impulso através do ponto tremeluzente e esfumaçado de um Portal dos Caminhos. A luz que passava por ele era a do meio da manhã, pálida e escassa, mas parecia a Rand que o sol de verão do meio-dia queimava em seu rosto.
Do outro lado do portão, Lan e Mandarb reduziram a velocidade a um passo quase arrastado, tropeçando lentamente enquanto o Guardião puxava as rédeas para dar meia-volta com o cavalo e orientá-lo na direção do portão. Rand não esperou. Empurrando a cabeça de Bela na direção da abertura, ele deu um tapa forte na garupa da égua peluda. Egwene só teve tempo de lançar um olhar assustado para ele antes que Bela a levasse para fora dos Caminhos.
— Todos vocês, para fora! — comandou Moiraine. — Rápido! Vão!
Enquanto falava, a Aes Sedai estendia ao máximo o cajado, apontando de volta na direção do Guia. Alguma coisa pulou da ponta do cajado, como luz líquida transformada em um fluxo de fogo, uma lança flamejante de branco, vermelho e amarelo, partindo na direção do negror, explodindo, coruscando como diamantes estilhaçados. O vento gritava de agonia; urrava furiosamente. Os mil murmúrios que se escondiam no vento rugiram como o trovão, rugidos de loucura, vozes semiouvidas rindo e uivando promessas que faziam o estômago de Rand embrulhar tanto pelo prazer que havia nelas quanto pelo que ele quase conseguia entender do que diziam.
Meteu as botas em Vermelho para fazer com que ele avançasse, espremendo-se atrás dos outros, todos forçando passagem pelo ponto trêmulo e esfumaçado de uma só vez. O frio gélido o percorreu por completo mais uma vez, a sensação peculiar de ser lentamente baixado de cabeça em um lago no inverno, a água fria percorrendo sua pele em um movimento infinitesimal. Como da outra vez, a sensação pareceu durar uma eternidade, enquanto sua mente acelerava, perguntando-se se o vento poderia alcançá-los enquanto estivessem suspensos daquele jeito.