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— Amigos das Trevas não conhecem fronteira nem sangue — disse Moiraine. — Eles são encontrados em todas as terras, e não são de qualquer delas. Eu também estou interessada em ver esse homem. O Padrão está formando uma Teia, Lorde Agelmar, mas a forma final da Teia ainda não foi definida. Ela pode ainda envolver o mundo, ou se desfazer e levar a Roda a uma nova tessitura. A essa altura, até mesmo as coisas pequenas podem mudar a forma da Teia. A essa altura eu desconfio de coisas pequenas fora do comum.

Agelmar olhou de relance para Nynaeve e Egwene.

— Como desejar, Aes Sedai.

Ingtar retornou com dois guardas carregando lanças longas e escoltando um homem que parecia um saco esfarrapado virado do avesso. Seu rosto estava cheio de fuligem e grudava seus cabelos e barba compridos e emaranhados. Ele entrou curvado no aposento, com os olhos fundos se movendo de um lado para outro. Um cheiro acre emanava dele.

Rand sentou-se mais para a frente, tentando ver através de toda aquela sujeira.

— Vocês não têm motivo para me prender assim — gemeu o homem imundo. — Sou apenas um pobre sem nada, abandonado pela Luz e procurando um lugar, como todo mundo, para me abrigar da Sombra.

— As Terras da Fronteira são um lugar estranho para procurar… — começou Agelmar, quando Mat o interrompeu.

— O mascate!

— Padan Fain — concordou Perrin, assentindo.

— O mendigo — disse Rand, subitamente rouco. Ele se recostou ao ver o ódio súbito que flamejava nos olhos de Fain. — Ele é o homem que estava perguntando por nós em Caemlyn. Tem de ser.

— Então isto lhe diz respeito, afinal, Moiraine Sedai — disse Agelmar lentamente.

Moiraine assentiu.

— Receio enormemente que sim.

— Eu não queria. — Fain começou a chorar. Lágrimas grossas abriam canais na sujeira em seu rosto, mas eram incapazes de chegar à camada mais profunda. — Ele me obrigou! Ele e seus olhos de fogo. — Rand estremeceu. Mat enfiou a mão embaixo do casaco, sem dúvida segurando a adaga de Shadar Logoth. — Ele fez de mim seu cão! Seu sabujo, para caçar e seguir sem sequer um pouco de descanso. Apenas seu cão, mesmo depois que ele me jogou fora.

— Isso nos preocupa a todos — disse Moiraine, pessimista. — Há algum lugar onde eu possa conversar com ele a sós, Lorde Agelmar? — Sua boca se contraiu de nojo. — E lavem-no primeiro. Posso precisar tocar nele. — Agelmar assentiu e falou baixinho com Ingtar, que fez uma mesura e desapareceu porta afora.

— Eu não serei compelido! — A voz era de Fain, mas ele não estava mais chorando, e um tom arrogante havia substituído os gemidos. Empertigou-se e, jogando a cabeça para trás, gritou para o teto: — Nunca mais! Eu… não… aceitarei! — Encarou Agelmar como se os homens que o flanqueavam fossem seus próprios guarda-costas e o Senhor de Fal Dara seu igual, e não seu captor. O tom de voz se tornou mais leve e untuoso. — Há um mal-entendido aqui, Grande Senhor. Eu às vezes sou possuído por feitiços, mas isso passará logo. Sim, logo me livrarei deles. — Com desprezo, passou a ponta dos dedos pelos farrapos que vestia. — Não se deixe levar por isto, Grande Senhor. Precisei me disfarçar contra aqueles que tentaram me deter, e minha jornada foi longa e árdua. Mas finalmente cheguei a terras onde os homens ainda conhecem os perigos de Ba’alzamon, onde os homens ainda combatem o Tenebroso.

Rand ficou olhando fixamente para ele, os olhos arregalados. A voz era mesmo de Fain, mas as palavras não soavam nem um pouco como sendo do mascate.

— Então você veio aqui porque lutamos contra Trollocs — disse Agelmar. — E você é tão importante que alguém quer detê-lo. Estas pessoas dizem que você é um mascate chamado Padan Fain, e que as está seguindo.

Fain hesitou. Olhou de esguelha para Moiraine e apressadamente desviou os olhos. Seu olhar percorreu todos de Campo de Emond, depois voltou rápido para Agelmar. Rand sentiu o ódio naquele olhar, e o medo. Quando Fain tornou a falar, entretanto, sua voz estava normal.

— Padan Fain é simplesmente um dos muitos disfarces que tenho sido forçado a usar ao longo dos anos. Amigos das Trevas me perseguem, pois aprendi como derrotar a Sombra. Eu posso lhes mostrar como derrotá-la, Grande Senhor.

— Nós estamos indo tão bem quanto podem os homens — disse Agelmar, seco. — Há de ser o que a Roda tecer, mas nós combatemos o Tenebroso quase desde a Ruptura do Mundo sem mascates para nos ensinar como.

— Grande Senhor, seu poder é inquestionável, mas ele poderá resistir ao Tenebroso para sempre? O senhor não se sente com frequência pressionado a resistir? Perdoe-me a temeridade, Grande Senhor; ele o esmagará no fim, do jeito que as coisas estão. Eu sei; creia em mim, eu sei. Mas eu posso lhe mostrar como expulsar a Sombra da terra, Grande Senhor. — Seu tom de voz se tornou ainda mais untuoso, embora ainda arrogante. — Se experimentar o que aconselho, verá, Grande Senhor. Purificará a terra. O Grande Senhor pode fazer isso, se direcionar seu poder na direção correta. Não permita que Tar Valon o emaranhe em suas armadilhas, e poderá salvar o mundo. O Grande Senhor será o homem lembrado por toda a história por trazer a vitória final à Luz. — Os guardas continuavam onde estavam, mas suas mãos buscaram os longos cabos das lanças como se achassem que poderiam ter de usá-las.

— Ele se acha muito importante para um vendedor ambulante — disse Agelmar para Lan. — Acho que Ingtar tem razão. Ele é louco.

Os olhos de Fain se estreitaram, raivosos, mas sua voz permaneceu suave.

— Grande Senhor, sei que minhas palavras parecem grandiosas, mas se simplesmente… — Ele se interrompeu de modo abrupto, recuando, quando Moiraine se levantou e começou lentamente a contornar a mesa. Somente as lanças cruzadas dos guardas evitavam que Fain recuasse a ponto de sair do aposento.

Parando atrás da cadeira de Mat, Moiraine pôs a mão em seu ombro e se curvou para sussurrar em seu ouvido. O que quer que ela tenha dito, a tensão desapareceu do rosto dele, que tirou a mão de dentro do casaco. A Aes Sedai prosseguiu até se encontrar ao lado de Agelmar, confrontando Fain. Quando ela parou, o mascate se agachou mais uma vez.

— Eu o odeio — gemeu. — Quero me libertar dele. Eu quero andar na Luz novamente. — Seus ombros começaram a sacudir, e as lágrimas começaram a escorrer pelo rosto ainda mais abundantes que antes. — Ele me obrigou a fazer isso.

— Receio que ele seja mais que um vendedor ambulante, Lorde Agelmar — disse Moiraine. — Menos que humano, pior do que vil, mais perigoso do que você pode imaginar. Ele pode tomar banho depois que eu tiver falado com ele. Não ouso perder um minuto sequer. Vamos, Lan.

47

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Uma grande inquietação fazia com que Rand não parasse de andar ao lado da mesa de jantar. Doze passos. A mesa tinha exatamente doze passos de comprimento, não importava quantas vezes ele a percorresse. Irritado, ele se obrigou a parar de contar. Que coisa idiota de se fazer. Não me interessa qual o comprimento da maldita mesa. Alguns minutos mais tarde ele descobriu que estava contando o número de viagens de ida e volta que fazia ao lado da mesa. O que será que ele está dizendo a Moiraine e Lan? Será que ele sabe por que o Tenebroso está atrás de nós? Será que sabe qual de nós o Tenebroso quer?

Olhou de relance para seus amigos. Perrin havia esmigalhado um pedaço de pão e empurrava, distraído, as migalhas na mesa com um dedo. Seus olhos amarelos encaravam as migalhas sem piscar, mas pareciam ver alguma coisa distante. Mat estava escarrapachado na cadeira, os olhos semicerrados e o começo de um sorriso no rosto. Era um sorriso nervoso, não de diversão. Por fora ele parecia o velho Mat, mas de tempos em tempos tocava inconscientemente a adaga de Shadar Logoth por cima do casaco. O que Fain está dizendo a ela? O que será que ele sabe?