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Loial, pelo menos, não parecia preocupado. O Ogier estava estudando as paredes. Primeiro ele havia ficado em pé no meio do aposento e olhado tudo, girando lentamente num círculo; estava quase pressionando o nariz largo contra a pedra enquanto gentilmente percorria uma junta com dedos mais grossos que o polegar da maioria dos homens. Às vezes ele fechava os olhos, como se a sensação fosse mais importante do que ver. Suas orelhas estremeciam ocasionalmente, e ele murmurava consigo mesmo em Ogier, parecendo ter esquecido que havia mais alguém na sala com ele.

Lorde Agelmar conversava em voz baixa com Nynaeve e Egwene em frente da lareira comprida no fim do salão. Ele era um bom anfitrião, adepto de fazer as pessoas esquecerem seus problemas; diversas de suas histórias fizeram Egwene rir. Uma das vezes até mesmo Nynaeve jogou a cabeça para trás e gargalhou. Rand se assustou com o som inesperado e deu outro pulo quando a cadeira de Mat caiu com um estrondo.

— Sangue e cinzas! — grunhiu Mat, ignorando a maneira como a boca de Nynaeve se crispou com seu palavreado. — Por que estão levando tanto tempo? — Ele endireitou a cadeira e voltou a se sentar sem olhar para ninguém. Sua mão seguiu, distraída, até o casaco.

O Senhor de Fal Dara olhou para Mat com desaprovação. Seu olhar abarcou Rand e Perrin sem qualquer melhora, e depois se voltou para as mulheres. Os passos de Rand o haviam levado para mais perto deles.

— Meu senhor — dizia Egwene, sentindo-se tão à vontade quanto se tivesse usado títulos a vida inteira —, pensei que ele fosse um Guardião, mas o senhor o chama de Dai Shan e fala sobre um estandarte do Grou Dourado, como fizeram os outros homens. Às vezes parece que o senhor está falando com um rei. Lembro que um dia Moiraine o chamou de último Senhor das Sete Torres. Quem é ele?

Nynaeve começou a estudar com atenção seu cálice, mas era óbvio para Rand que subitamente ela estava ouvindo ainda mais atentamente do que Egwene. Rand parou e tentou ouvir sem parecer que estava bisbilhotando.

— Senhor das Sete Torres — disse Agelmar, franzindo a testa. — Um título antigo, Lady Egwene. Nem mesmo os Grão-senhores de Tear têm um título mais antigo, embora a Rainha de Andor chegue perto. — Deu um suspiro e balançou a cabeça. — Ele não fala a respeito, mas a história é bem conhecida ao longo da Fronteira. Ele é um rei, ou deveria ter sido, al’Lan Mandragoran, Senhor das Sete Torres, Senhor dos Lagos, Rei não coroado dos Malkieri. — Sua cabeça raspada se ergueu, e havia uma luz em seu olhar semelhante ao orgulho de um pai. A voz ficou mais forte, repleta da força de seu sentimento. Todo o aposento podia ouvir sem esforço. — Nós de Shienar nos chamamos de Homens da Fronteira, mas, há menos de cinquenta anos, Shienar não fazia realmente parte das Terras da Fronteira. A norte de nós, e de Arafel, ficava Malkier. As lanças de Shienar cavalgavam para o norte, mas era Malkier que detinha o avanço da Praga. Malkier, que a Paz lhe favoreça a memória e a Luz ilumine seu nome.

— Lan é de Malkier — disse a Sabedoria suavemente, erguendo os olhos. Parecia perturbada.

Não era uma pergunta, mas Agelmar assentiu.

— Sim, Lady Nynaeve, ele é filho de al’Akir Mandragoran, último Rei coroado dos Malkieri. Como ele se tornou o que é? O início talvez tenha sido Lain. Num gesto ousado, Lain Mandragoran, irmão do Rei, liderou suas lanças através da Praga até as Terras Devastadas, talvez até à própria Shayol Ghul. A esposa de Lain, Breyan, provocou essa ousadia pela inveja que queimava seu coração pelo fato de al’Akir ter subido ao trono em lugar de Lain. O Rei e Lain eram tão próximos quanto irmãos poderiam ser, tão próximos quanto gêmeos, mesmo depois que o prefixo régio “al” foi acrescentado ao nome de Akir, mas a inveja destruiu Breyan. Lain foi aclamado por seus feitos, e com razão, mas nem mesmo ele podia ofuscar o brilho de al’Akir. Ele foi um homem e rei como não surge um em cem anos, no mínimo. A Paz o favoreça, e a el’Leanna.

“Lain morreu nas Terras Devastadas com a maioria dos que o seguiram, homens que Malkier não podia se dar ao luxo de perder, e Breyan culpou o Rei, dizendo que a própria Shayol Ghul teria caído se al’Akir tivesse liderado o resto dos Malkieri para o norte com seu marido. Por vingança, ela tramou com Cowin Gemallan, chamado Cowin Coração Justo, para tomar o trono para seu filho, Isam. Bem, Coração Justo era um herói quase tão amado quanto o próprio al’Akir, e um dos Grandes Senhores, mas, quando os Grandes Senhores haviam lançado os bastões para escolher o rei, só dois o haviam separado de Akir, e ele nunca se esqueceu de que, se dois homens houvessem atribuído uma cor diferente à Pedra da Coroação, isso o teria colocado no trono. Entre eles, Cowin e Breyan trouxeram soldados de volta da Praga para tomar as Sete Torres, transformando os Fortes da Fronteira em meras guarnições.

“Mas a inveja de Cowin foi maior. — O nojo dominou a voz de Agelmar. — O herói Coração Justo, cujos feitos na Praga eram cantados por todas as Terras da Fronteira, era um Amigo das Trevas. Com os Fortes da Fronteira enfraquecidos, Trollocs jorraram em Malkier como uma enchente. O Rei al’Akir e Lain juntos poderiam ter mobilizado a terra; eles já o haviam feito antes. Mas o destino de Lain nas Terras Devastadas havia abalado as pessoas, e a invasão dos Trollocs jogou por terra o ânimo dos homens e sua vontade de resistir. Homens demais. Números devastadores forçaram os Malkieri a recuar para a terra natal.

“Breyan fugiu com seu filho Isam, e foi alcançada por Trollocs enquanto cavalgava para o sul com ele. Ninguém sabe o destino deles com certeza, mas podemos imaginar. Tenho pena somente do garoto. Quando a traição de Cowin Coração Justo foi revelada e ele foi capturado pelo jovem Jain Charin, já chamado de Jain, o Viajante, quando Coração Justo foi levado para as Sete Torres acorrentado, os Grandes Senhores exigiram sua cabeça na ponta de uma lança. Mas, como ele havia perdido somente para al’Akir e Lain no coração do povo, o Rei o enfrentou em combate individual e o matou. Al’Akir chorou quando matou Cowin. Uns dizem que ele chorou por um amigo que havia passado para o lado da Sombra, e outros dizem que foi por Malkier.”

O Senhor de Fal Dara balançou a cabeça, triste.

— O primeiro golpe da perdição das Sete Torres havia sido desferido. Não havia tempo de pedir a ajuda de Shienar nem de Arafel, e nenhuma esperança de que Malkier pudesse resistir sozinha, com cinco mil de suas lanças mortas nas Terras Devastadas, seus Fortes da Fronteira tomados.

“Al’Akir e sua Rainha, el’Leanna, mandaram que Lan fosse levado até eles no berço. Em suas mãos de bebê eles colocaram a espada dos reis Malkieri, a espada que ele usa hoje. Uma arma feita por Aes Sedai durante a Guerra do Poder, a Guerra da Sombra que pôs fim à Era das Lendas. Eles ungiram sua cabeça com óleo, nomeando-o Dai Shan, um Senhor da Guerra do Diadema, e o consagraram como o próximo Rei dos Malkieri, e em seu nome eles fizeram o antigo juramento dos reis e rainhas Malkieri.”

O rosto de Agelmar endureceu, e ele disse as palavras como se ele também tivesse feito aquele juramento, ou um muito semelhante.

— Enfrentar a Sombra enquanto o ferro for duro e a pedra resistir. Defender os Malkieri enquanto restar uma gota de sangue. Vingar o que não pode ser defendido.

As palavras ecoaram no salão.

— El’Leanna colocou um camafeu no pescoço do filho, para que ele se lembrasse, e o bebê, enrolado em mantas pelas mãos da própria Rainha, foi entregue a vinte escolhidos da Guarda do Rei, os melhores espadachins, os combatentes mais letais. A ordem deles: levar a criança a Fal Moran.