“Então al’Akir e el’Leanna lideraram os Malkieri para enfrentar a Sombra uma última vez. Lá eles morreram, na Passagem de Herot, e os Malkieri morreram, e as Sete Torres caíram. Shienar, Arafel e Kandor enfrentaram os Meios-homens e os Trollocs na Escadaria de Jehaan e os fizeram recuar, mas não tanto quanto eles próprios haviam sido obrigados a recuar. A maior parte de Malkier permaneceu nas mãos dos Trollocs, e ano após ano, milha a milha, a Praga a engoliu.”
Agelmar suspirou, com um peso no coração. Quando continuou, havia um orgulho triste em seus olhos e em sua voz.
— Apenas cinco dos Guardas chegaram a Fal Moran com vida, todos eles feridos, mas traziam a criança incólume. Desde o berço, eles lhe ensinaram tudo o que sabiam. Ele aprendeu a usar armas como as outras crianças aprendiam a brincar, e a conhecer a Praga como outras crianças aprendiam a conhecer o jardim de suas mães. O juramento feito sobre seu berço está gravado em sua mente. Não restou nada para defender, mas ele pode vingar. Ele renega seus títulos, mas nas Terras da Fronteira é chamado de o Não Coroado, e, se algum dia ele hasteasse o Grou Dourado de Malkier, um exército o seguiria. Mas ele não lidera homens para a morte. Na Praga, ele corteja a morte como um pretendente corteja uma donzela, mas não leva outros a ela.
“Se vocês precisam entrar na Praga, e com apenas alguns, não há homem melhor para levar vocês até lá, nem para trazê-los de volta em segurança. Ele é o melhor dos Guardiões, e isso significa que é o melhor dos melhores. Vocês podem até deixar esses rapazes aqui, para ganharem mais experiência, e depositar toda a sua confiança em Lan. A Praga não é lugar para garotos inexperientes.”
Mat abriu a boca, e tornou a fechá-la a um olhar de Rand. Gostaria que ele tivesse aprendido a mantê-la fechada.
Nynaeve havia ouvido com os olhos tão arregalados quanto Egwene, mas agora ela encarava sua xícara novamente, o rosto pálido. Egwene pôs a mão no braço dela e lhe ofereceu um olhar de simpatia.
Moiraine apareceu na porta, com Lan logo atrás. Nynaeve lhes deu as costas.
— O que foi que ele disse? — Rand quis saber. Mat se levantou, e Perrin também.
— Camponês idiota — murmurou Agelmar, depois ergueu a voz a um tom normal. — Você descobriu alguma coisa, Aes Sedai, ou ele é simplesmente louco?
— Ele é louco — disse Moiraine —, ou quase, mas não há nada de simples em Padan Fain. — Um dos criados de libré em preto e dourado entrou com uma mesura, trazendo uma bacia e uma jarra azuis, uma barra de sabão amarelo e uma toalhinha numa bandeja de prata; ele olhou ansiosamente para Agelmar. Moiraine o orientou para que colocasse tudo em cima da mesa.
— Perdão por dar ordens a seus criados, Lorde Agelmar — disse ela. — Tomei a liberdade de pedir isto.
Agelmar assentiu para o criado, que pôs a bandeja sobre a mesa e saiu, apressado.
— Meus criados estão ao seu comando, Aes Sedai.
A água que Moiraine derramou na bacia fumegava como se tivesse acabado de ser fervida. Ela arregaçou as mangas e começou a lavar vigorosamente as mãos sem se preocupar com o calor da água.
— Eu disse que ele era mais do que vil, mas nem cheguei perto. Não acredito já ter encontrado alguém tão abjeto e mesquinho, e ao mesmo tempo tão sujo. Sinto-me emporcalhada só de tocar nele, e não estou me referindo à sujeira de sua pele. Suja aqui. — Ela levou a mão ao peito. — A degradação de sua alma quase me faz duvidar de que ele tenha uma. É pior que um Amigo das Trevas.
— Ele parecia tão digno de pena — murmurou Egwene. — Lembro dele chegando a Campo de Emond a cada primavera, sempre rindo e cheio de notícias de fora. Tem certeza de que não há nenhuma esperança para ele? “Nenhum homem pode ficar tanto tempo na Sombra que não possa encontrar a Luz novamente” — citou.
A Aes Sedai enxugou as mãos rapidamente.
— Eu sempre acreditei nisso também — disse ela. — Talvez Padan Fain possa se redimir. Mas ele é Amigo das Trevas há mais de quarenta anos, e o que ele fez nesse meio-tempo, em sangue, dor e morte, faria o seu coração parar só de ouvir. Entre os menores desses atos, embora não seja pequeno para vocês, suspeito, ele levou os Trollocs a Campo de Emond.
— Sim — disse Rand baixinho. Ele ouviu Egwene perder o fôlego. Eu devia ter imaginado. Que me queimem, eu devia ter imaginado, assim que o reconheci.
— Ele trouxe algum até aqui? — perguntou Mat. Olhou para as paredes de pedra ao seu redor e estremeceu. Rand pensou que ele estava se lembrando dos Myrddraal mais do que dos Trollocs; as muralhas não haviam detido os Desvanecidos em Baerlon, nem em Ponte Branca.
— Se ele o fez — Agelmar soltou uma gargalhada —, eles vão quebrar seus dentes nas muralhas de Fal Dara. Já aconteceu com muitos outros antes. — Ele estava falando a todos, mas obviamente endereçando suas palavras a Egwene e Nynaeve, pelos olhares que dirigiu a elas. — E não se preocupem com os Meios-homens também. — O rosto de Mat ficou mais vermelho. — Todas as ruas e becos de Fal Dara são iluminados à noite. E nenhum homem pode esconder o rosto dentro das muralhas.
— Por que Mestre Fain faria isso? — perguntou Egwene.
— Há três anos… — Com um suspiro pesado, Moiraine sentou-se, arqueando como se o que havia feito com Fain tivesse sugado suas forças. — Três anos, este verão. Sim, há esse tempo todo. A Luz certamente nos favorece, ou senão o Pai das Mentiras teria triunfado enquanto eu ainda estava sentada traçando planos em Tar Valon. Há três anos, Fain vem caçando vocês para o Tenebroso.
— Isso é loucura! — disse Rand. — Ele ia aos Dois Rios toda primavera como um relógio. Três anos? Nós estávamos bem na frente dele, e ele nunca olhou para nenhum de nós duas vezes antes do ano passado.
A Aes Sedai apontou um dedo para ele.
— Fain me contou tudo, Rand. Ou quase tudo. Acredito que ele tenha conseguido esconder alguma coisa, algo importante, apesar de tudo o que consegui fazer, mas ele disse o bastante. Três anos atrás, um Meio-homem foi procurá-lo numa aldeia em Murandy. Fain ficou aterrorizado, é claro, mas é considerado uma grande honra entre os Amigos das Trevas ser convocado assim. Fain acreditou que havia sido escolhido para grandes feitos, e havia, mas não do jeito que imaginava. Ele foi trazido para o norte, até a Praga, até as Terras Devastadas. Até Shayol Ghul. Onde encontrou um homem de olhos de fogo, que se autodenominou Ba’alzamon.
Mat se mexeu, inquieto, e Rand engoliu em seco. Tinha de ter sido assim, é claro, mas isso não tornava as coisas mais fáceis de serem aceitas. Somente Perrin olhou para a Aes Sedai como se nada mais pudesse surpreendê-lo.
— A Luz nos proteja — disse Agelmar com fervor.
— Fain não gostou do que lhe foi feito em Shayol Ghul — Moiraine continuou com calma. — Enquanto conversávamos, ele gritava constantemente sobre fogo e queimação. Quase o matou trazer tudo à tona de onde ele havia escondido. Mesmo com minha Cura, ele está um farrapo estraçalhado. Custará muito para deixá-lo inteiro novamente. Mas farei o esforço, mesmo que só para descobrir o que ele ainda está escondendo. Ele havia sido escolhido por causa da região que percorria enquanto fazia seus negócios. Não — disse ela rapidamente quando olharam para ela. — Não apenas os Dois Rios, não na época. O Pai das Mentiras sabia vagamente onde encontrar o que procurava, mas não muito mais do que nós em Tar Valon.
“Fain disse que havia sido transformado no sabujo do Tenebroso, e de certa maneira ele está certo. O Pai das Mentiras colocou Fain para caçar, primeiro alterando-o para que ele pudesse efetuar essas caçadas. São as coisas feitas para causar as mudanças que Fain teme recordar; ele odeia seu mestre por elas tanto quanto o teme. Então Fain foi mandado para farejar e caçar por todas as aldeias ao redor de Baerlon, e até as Montanhas da Névoa, além do Taren e atravessando os Dois Rios.”