— Então foi Fain que você sentiu nos seguindo — disse Egwene. Lan assentiu. — Como foi que ele escapou do… do Vento Negro? — Sua voz tremia. Ela parou para engolir em seco. — Ele estava bem atrás de nós no Portal dos Caminhos.
— Ele escapou e não escapou — disse Moiraine. — O Vento Negro o pegou, e ele afirmou que entendeu as vozes. Algumas o saudaram como sendo iguais a ele; outras o temeram. Tão logo envolveu Fain, o Vento fugiu.
— A Luz nos preserve… — O sussurro de Loial rugiu como um besouro gigante.
— Reze para que sim — disse Moiraine. — Ainda há muita coisa oculta sobre Padan Fain, muito que eu preciso descobrir. O mal nele é profundo, e mais forte do que em qualquer homem que já vi. Pode ser que o Tenebroso, ao fazer o que fez a Fain, tenha deixado impressa uma parte de si mesmo no homem, talvez até, sem o saber, uma parte de sua intenção. Quando mencionei o Olho do Mundo, Fain cerrou os maxilares, mas senti um reconhecimento por trás do silêncio. Se eu tivesse tempo agora… Mas não podemos esperar.
— Se esse homem sabe alguma coisa — disse Agelmar —, eu posso fazer com que ele fale. — Seu rosto não tinha nenhuma piedade por Amigos das Trevas; sua voz não prometia nenhuma piedade com Fain. — Se você puder descobrir uma parte sequer do que encontrará na Praga, vale a pena ficar aqui um dia a mais. Batalhas foram perdidas por não se saber o que o inimigo pretende.
Moiraine suspirou e balançou a cabeça tristemente.
— Meu senhor, se não precisássemos de pelo menos uma boa noite de sono antes de enfrentarmos a Praga, eu partiria em menos de uma hora, embora isso significasse o risco de encontrar um ataque de Trollocs na escuridão. Considere o que eu descobri com Fain. Três anos atrás o Tenebroso precisou levar Fain até Shayol Ghul para tocá-lo, apesar do fato de Fain ser um Amigo das Trevas dedicado até a medula. Um ano atrás, o Tenebroso conseguiu comandar Fain, o Amigo das Trevas, por seus sonhos. Este ano, Ba’alzamon caminha nos sonhos dos que vivem na Luz, e realmente aparece, ainda que com dificuldade, em Shadar Logoth. Não em seu próprio corpo, é claro, mas mesmo uma projeção da mente do Tenebroso, mesmo uma projeção vacilante, que não consiga se sustentar, é mais perigosa e mortal para o mundo que todas as hordas de Trollocs combinadas. Os selos de Shayol Ghul estão enfraquecendo desesperadamente, Lorde Agelmar. Não há tempo.
Agelmar abaixou a cabeça, concordando, mas, quando voltou a levantá-la, ainda havia uma expressão de teimosia.
— Aes Sedai, eu posso aceitar que, quando eu levar as lanças até a Garganta de Tarwin, não seremos mais do que uma distração, ou uma escaramuça nas fímbrias da verdadeira batalha. Certamente o dever leva os homens aonde for necessário, assim como a trama do Padrão, e nenhum dos dois nos promete que o que faremos será grandioso. Mas nossa escaramuça será inútil, mesmo caso vençamos, se vocês perderem a batalha. Se você diz que seu grupo precisa ser pequeno, eu digo que está tudo bem, mas imploro que façam todos os esforços para que consigam vencer. Deixe estes rapazes aqui, Aes Sedai. Eu lhe juro que posso encontrar três homens experientes sem nenhuma ideia de glória na cabeça para substituí-los, bons espadachins que sejam quase tão bons na Praga quanto Lan. Deixe-me cavalgar até a Garganta sabendo que fiz o que pude para ajudar vocês a serem vitoriosos.
— Eu preciso levá-los, e a nenhum outro, Lorde Agelmar — disse Moiraine gentilmente. — São eles que travarão a batalha no Olho do Mundo.
O queixo de Agelmar caiu, e ele ficou encarando Rand, Mat e Perrin. Subitamente o Senhor de Fal Dara deu um passo para trás, a mão buscando inconscientemente a espada que jamais usava dentro da fortaleza.
— Eles não são… Você não é Ajah Vermelha, Moiraine Sedai, mas certamente nem mesmo você iria… — Subitamente o suor começou a reluzir na cabeça raspada.
— Eles são ta’veren — disse Moiraine, apaziguadora. — O Padrão se tece ao redor deles. O Tenebroso já tentou matar cada um deles mais de uma vez. Três ta’veren em um só lugar são o bastante para mudar a vida ao redor deles tão certamente quanto um redemoinho muda o caminho de uma palha. Quando o lugar é o Olho do Mundo, o Padrão pode tecer até mesmo o Pai das Mentiras e torná-lo inócuo novamente.
Agelmar parou de tentar encontrar a espada, mas ainda olhou para Rand e os outros com dúvidas.
— Moiraine Sedai, se você diz que eles são, então eles são, mas não consigo ver isso. Garotos, fazendeiros. Você tem certeza, Aes Sedai?
— O sangue antigo — disse Moiraine — se dividiu como um rio se dividindo mil vezes em mil tributários, mas às vezes os tributários se juntam para criar um rio novamente. O sangue antigo de Manetheren é forte e puro em quase todos estes jovens. Você pode duvidar da força do sangue de Manetheren, Lorde Agelmar?
Rand olhou de esguelha para a Aes Sedai. Quase todos. Arriscou um olhar para Nynaeve; ela havia se virado para ver além de ouvir, embora ainda evitasse olhar para Lan. Ele captou o olhar da Sabedoria. Ela balançou a cabeça; não havia contado à Aes Sedai que ele não havia nascido nos Dois Rios. O que será que Moiraine sabe?
— Manetheren — disse Agelmar devagar, assentindo. — Eu não duvidaria desse sangue. — Então, mais rápido: — A Roda traz tempos estranhos. Rapazotes fazendeiros trazem a honra de Manetheren até a Praga, mas, se algum sangue pode dar um golpe doloroso no Tenebroso, é o sangue de Manetheren. Será feito como você deseja, Aes Sedai.
— Então deixe-nos ir para nossos quartos — disse Moiraine. — Precisamos partir ao nascer do sol, pois o tempo é cada vez mais curto. Os rapazes precisam dormir perto de mim. Estamos próximos demais da batalha para permitirmos que o Tenebroso desfira outro golpe contra eles. Próximos demais.
Rand sentiu os olhos dela sobre ele, estudando-o, e a seus amigos, pesando a força deles, e estremeceu. Próximos demais.
48
A Praga
O vento fustigava o manto de Lan, às vezes tornando difícil vê-lo mesmo à luz do sol, e Ingtar e os cem lanceiros que Lorde Agelmar enviara para escoltá-los até a Fronteira, caso eles se deparassem com uma incursão Trolloc, eram uma brava imagem em sua fileira dupla com armaduras, flâmulas vermelhas e cavalos cobertos de aço liderados pelo estandarte da Coruja Cinzenta de Ingtar. Eles eram tão grandiosos quanto uma centena dos Guardas da Rainha, mas eram as torres logo à frente deles que Rand estudava. Ele tivera a manhã inteira para observar as lanças de Shienar.
Cada torre se erguia alta e sólida no topo de uma colina, a meia milha de sua vizinha. Outras se erguiam a leste e a oeste, e mais além dessas. Uma rampa larga e murada fazia uma espiral ao redor de cada cilindro de pedra, dando a volta inteira até alcançar os portões pesados a meio caminho do topo provido de ameias. Um destacamento da guarnição em missão seria protegido pela muralha até que chegasse ao chão, mas inimigos que lutassem para alcançar o portão subiriam sob uma chuva de pedras, flechas e óleo fervente dos grandes caldeirões posicionados nas rampas acima. Um grande espelho de aço, cuidadosamente virado para baixo, fora do sol, reluzia no topo de cada torre abaixo do grande caldeirão de ferro onde fogueiras de sinalização podiam ser acesas quando o sol não brilhasse. O sinal seria refletido, primeiro para torres mais distantes da Fronteira, e destas para outras, e assim retransmitido para as fortalezas no interior, de onde os lanceiros cavalgariam para rechaçar o ataque. Se os tempos fossem normais, era o que aconteceria.