Do topo das duas torres mais próximas, alguns homens, espiando curiosos entre as ameias, observaram-nos se aproximar. Nas melhores épocas as torres tinham apenas um contingente para autodefesa, dependendo mais das paredes de pedra do que de braços fortes para sobreviver, mas todo homem que podia ser liberado estava cavalgando para a Garganta de Tarwin. A queda das torres não importaria se os lanceiros não conseguissem resistir na Garganta.
Rand estremeceu enquanto eles cavalgavam entre as torres. Era quase como se ele estivesse cavalgando através de uma muralha de ar mais frio. Aquela era a Fronteira. A terra mais além não parecia diferente de Shienar, mas lá fora, em algum lugar além das árvores sem folhas, estava a Praga.
Ingtar ergueu um punho de aço para fazer com que os lanceiros parassem pouco antes de um marco de pedra simples à vista das torres. Um posto de fronteira, marcando o limite entre Shienar e o que um dia fora Malkier.
— Seu perdão, Moiraine Aes Sedai. Perdão, Dai Shan. Perdão, Construtor. Lorde Agelmar me ordenou que não avançasse mais. — Ele parecia infeliz com isso, infeliz com a vida.
— Foi o que planejamos, Lorde Agelmar e eu — disse Moiraine.
Ingtar grunhiu, amargo.
— Perdão, Aes Sedai. — Ele pediu desculpas, mas não parecia estar sendo sincero. — Escoltar vocês até aqui significa que podemos não chegar à Garganta antes do fim da luta. Foi-me roubada a chance de lutar com os outros, e ao mesmo tempo tenho ordens de não cavalgar um passo além do posto de fronteira, como se eu nunca antes tivesse estado na Praga. E Lorde Agelmar não me diz o porquê. — Atrás das barras de seu elmo, seus olhos transformaram a última palavra em uma pergunta para a Aes Sedai. Olhou para Rand e os outros com escárnio; havia descoberto que eles acompanhariam Lan até a Praga.
— Ele pode ficar com o meu lugar — resmungou Mat para Rand. Lan dirigiu aos dois um olhar severo. Mat abaixou a cabeça, o rosto vermelho.
— Cada um de nós tem sua parte no Padrão, Ingtar — disse Moiraine com firmeza. — Daqui precisamos tecer as nossas sozinhos.
A mesura de Ingtar foi mais dura do que sua armadura exigia.
— Como desejar, Aes Sedai. Devo deixá-los agora e forçar a cavalgada para alcançar a Garganta de Tarwin. Pelo menos me será… permitido… enfrentar Trollocs lá.
— Você está realmente assim tão ansioso? — perguntou Nynaeve. — Para combater Trollocs?
Ingtar observou-a intrigado, depois olhou de esguelha para Lan como se o Guardião pudesse explicar.
— Isto é o que eu faço, senhora — disse ele devagar. — Isto é o que eu sou. — Ele ergueu uma manopla de aço para Lan, a palma aberta na direção do Guardião. — Suravye ninto manshima taishite, Dai Shan. Que a Paz favoreça sua espada.
Puxando as rédeas de seu cavalo e dando meia-volta, Ingtar seguiu para o leste com seu porta-estandarte e seus cem lanceiros. Eles foram andando, mas a passo firme, tão rápido quanto cavalos com armadura poderiam conseguir com uma grande distância ainda a percorrer.
— Que coisa estranha de se dizer… — disse Egwene. — Por que eles usam desse jeito? Paz.
— Quando você nunca conheceu uma coisa exceto em sonho — respondeu Lan, pressionando Mandarb com os calcanhares para atiçá-lo —, aquilo se torna mais do que um talismã.
Quando Rand seguiu o Guardião além do marco de pedra da fronteira, ele se virou na sela para olhar para trás, observando Ingtar e os lanceiros desaparecerem atrás de árvores nuas, o posto de fronteira sumir, e por último as torres no topo de suas colinas olhando acima das árvores. Em pouquíssimo tempo eles estavam sós, cavalgando para o norte sob o teto sem folhas da floresta. Rand afundou num silêncio vigilante, e pela primeira vez nem mesmo Mat tinha qualquer coisa a dizer.
Naquela manhã os portões de Fal Dara foram abertos com a aurora. Lorde Agelmar, de armadura e elmo como seus soldados, cavalgara com o estandarte do Falcão Negro e as Três Raposas do Portão Leste na direção do sol, ainda apenas uma fatia vermelha acima das árvores. Como uma serpente de aço ondulando ao som de tambores de guerra, a coluna quádrupla deixara a cidade, Agelmar à frente, em sua cabeça oculta na floresta, antes de a cauda deixar o fortim de Fal Dara. Não se ouviram gritos de apoio nas ruas para apressá-los, somente os próprios tambores, e as flâmulas estalando ao vento, mas seus olhos miravam com determinação o sol nascente. A leste eles se juntariam a outras serpentes de aço, de Fal Moran, atrás do próprio Rei Easar com os filhos a seu lado, e de Ankor Dail, que sustentava as Marchas Orientais e protegia a Espinha do Mundo; de Mos Shirare, Fal Sion e Camron Caan, e todas as outras fortalezas em Shienar, grandes e pequenas. Formando todas uma serpente maior, elas virariam rumo ao norte, para a Garganta de Tarwin.
Outro êxodo havia começado ao mesmo tempo, usando o Portão do Rei, que dava para o caminho para Fal Moran. Carroças e carroções, pessoas montadas e a pé, conduzindo seu gado, carregando crianças nas costas, rostos tristes como as sombras da manhã. A relutância em deixar seus lares, talvez para sempre, os tornava mais lentos, mas o medo do que estava por vir os impulsionava, de modo que eles iam aos trancos, arrastando os pés, depois dando uma corrida por alguns passos antes de voltar mais uma vez a arrastar os pés no pó da estrada. Alguns pausavam do lado de fora da cidade para ver a linha de soldados com armadura que entrava sinuosa na floresta. A esperança brotava em alguns olhos, e preces eram murmuradas, preces por eles, preces pelos soldados, antes que se voltassem para o sul novamente, bem devagar.
A menor coluna saía do Portão de Malkier. Deixados para trás, uns poucos permaneceriam, soldados e um punhado de homens mais velhos, viúvos com seus filhos crescidos fazendo a lenta viagem para o sul. Um último punhado para que, acontecesse o que acontecesse na Garganta de Tarwin, Fal Dara não caísse sem ser defendida. A Coruja Cinza de Ingtar ia na frente, mas era Moiraine quem os levava para o norte. A fileira mais importante de todas, e a mais desesperada.
Por pelo menos uma hora depois de passarem pelo posto da fronteira não houve qualquer mudança na terra nem na floresta. O Guardião os mantinha a um passo firme, uma caminhada tão rápida quanto os cavalos podiam suportar, mas Rand não parava de se perguntar quando chegariam à Praga. As colinas ficaram um pouco maiores, mas as árvores, as trepadeiras e o mato rasteiro não eram diferentes do que vira em Shienar, cinzentas e sem folhas. Ele começou a sentir um pouco mais de calor, o bastante para pendurar o manto no cepilho da sela.
— Este é o melhor tempo que já vimos o ano todo — disse Egwene, retirando o próprio manto.
Nynaeve balançou a cabeça, franzindo a testa como se estivesse escutando o vento.
— Há algo errado.
Rand assentiu. Ele também sentia isso, embora não conseguisse dizer exatamente o que era. A sensação de que havia algo errado ia além do primeiro calor do qual conseguia se lembrar a céu aberto naquele ano; era mais que o simples fato de que não devia estar tão quente ali tão ao norte. Devia ser a Praga, mas a terra era a mesma.
O sol subiu, uma bola vermelha que não deveria dar tanto calor apesar do céu sem nuvens. Pouco depois Rand desabotoou o casaco. O suor descia pelo seu rosto.
Ele não era o único. Mat tirou o casaco, exibindo abertamente a adaga de ouro e rubi, e limpou o rosto com a ponta do cachecol. Piscando, ele voltou a enrolar o cachecol numa faixa estreita pouco acima dos olhos. Nynaeve e Egwene se abanavam; elas cavalgavam curvadas, como se estivessem murchando. Loial abriu a túnica de colarinho alto, bem como a camisa; o Ogier tinha uma faixa estreita de cabelo que ia até o meio do peito, espessa como pelo de animal. Ele murmurou desculpas para todos.
— Vocês precisam me perdoar. O Pouso Shangtai fica nas montanhas, e é fresco. — Suas narinas largas se abriram, sugando o ar que ficava cada vez mais quente. — Não gosto deste calor e desta umidade.