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Estava úmido mesmo, Rand percebeu. Parecia o Charco no auge do verão, lá nos Dois Rios. Naquele pântano lamacento cada respiração vinha como se através de um cobertor de lã encharcado em água quente. Ali não havia charcos, apenas alguns laguinhos e riachos rasos, coisas ínfimas para alguém acostumado à Floresta das Águas, mas o ar era como o do Charco. Somente Perrin, ainda em seu casaco, respirava com facilidade. Perrin e o Guardião.

Havia algumas folhas, em árvores que não eram perenes. Rand estendeu a mão para tocar um galho, e parou pouco antes das folhas. Um amarelo doentio pintalgava o vermelho das novas folhas, e pintas pretas semelhantes a uma doença.

— Eu disse para não tocar em nada. — A voz do Guardião soou neutra. Ele ainda usava o manto de cores mutantes, como se o calor não o incomodasse mais que o frio; ele quase fazia seu rosto anguloso parecer flutuar sem sustentação sobre o dorso de Mandarb. — Flores podem matar na Praga, e folhas podem aleijar. Existe uma coisinha chamada Graveto, que gosta de se esconder onde as folhas são mais espessas, e parece o objeto que leva seu nome, esperando que alguém o toque. Quando alguém o toca, ele morde. Não envenena. O suco começa a digerir a presa do Graveto para ele. A única coisa que pode salvar você é cortar o braço ou a perna que foi mordida. Mas um Graveto não vai morder a menos que você o toque. Outras coisas na Praga vão.

Rand puxou a mão de volta, deixando as folhas intocadas, e a limpou na perna da calça.

— Então nós estamos na Praga? — perguntou Perrin. Estranhamente, ele não parecia assustado.

— Só na periferia — disse Lan, soturno. Seu garanhão seguia em frente, e ele falava por sobre o ombro. — A verdadeira Praga ainda está à nossa frente. Existem coisas na Praga que caçam pelo som, e algumas podem ter vagado muito ao sul. Às vezes elas cruzam as Montanhas de Dhoom. Muito piores que Gravetos. Fiquem quietos e se mantenham alertas se quiserem permanecer vivos. — Ele continuou a cavalgar num ritmo constante, sem esperar resposta.

Milha a milha, a corrupção da Praga se tornou mais aparente. Folhas cobriam as árvores numa profusão cada vez maior, mas manchadas e sarapintadas de amarelo e preto, com listras de um vermelho vivo como numa septicemia. Cada folha e ramo pareciam inchados, prontos para estourar a um toque. Flores pendentes de árvores e ervas silvestres em uma paródia de primavera, coisas de uma palidez encerada doentia, que pareciam apodrecer diante dos olhos de Rand. Quando ele respirou pelo nariz, o odor adocicado da decomposição, pesado e espesso, quase o fez vomitar. O ar tinha cheiro de carne podre. Os cascos dos cavalos faziam um som suave quando coisas podres arrebentavam embaixo deles.

Mat se curvou para fora da sela e vomitou até não haver mais nada no estômago. Rand buscou o vazio, mas a calma não ajudava muito contra a bile que não parava de lhe subir pela garganta. Com ou sem algo no estômago, Mat vomitou uma milha depois, sem botar nada para fora, e mais uma vez depois disso. Egwene parecia prestes a passar mal também, engolindo em seco constantemente, e o rosto de Nynaeve era uma máscara branca de determinação, o maxilar travado e os olhos fixos nas costas de Moiraine. A Sabedoria não admitiria se sentir mal a menos que a Aes Sedai sucumbisse primeiro, mas Rand não achava que ela esperaria muito. Os olhos de Moiraine estavam semicerrados, os lábios, pálidos.

Apesar do calor e da umidade, Loial amarrou um cachecol sobre o nariz e a boca. Quando olhou para Rand, o ultraje e o nojo do Ogier eram visíveis em seus olhos.

— Eu tinha ouvido… — começou, a voz abafada pela lã, e parou para pigarrear com uma careta. — Argh! Tem gosto de… Argh! Eu já tinha ouvido falar e lido sobre a Praga, mas nada poderia descrever… — Seu gesto de algum modo abarcava o cheiro, além das plantas nauseantes. — Que mesmo o Tenebroso possa fazer isso com as árvores! Argh!

O Guardião não era afetado, é claro, pelo menos não que Rand pudesse ver, mas, para sua surpresa, Perrin também não. Ou não do jeito que o resto deles havia sido. O jovem corpulento fuzilava com o olhar a floresta obscena através da qual cavalgavam, como encararia um inimigo, ou o estandarte de um inimigo. Ele acariciava o machado no cinturão como se não percebesse o que estava fazendo e resmungava para si mesmo, quase rosnando, de um modo que fazia os pelos da nuca de Rand se arrepiarem. Mesmo em plena luz do sol, seus olhos brilhavam, dourados e ferozes.

O calor não passou enquanto o sol sangrento descia rumo ao horizonte. Longe, ao norte, montanhas se erguiam, mais altas que as Montanhas da Névoa, negras contra o céu. Às vezes um vento gelado dos picos afiados soprava longe o bastante para alcançá-los. A umidade tórrida sugava a maior parte do frio da montanha, mas o que restava era invernal se comparado ao calor escaldante que substituía, ainda que apenas por um momento. O suor no rosto de Rand parecia se transformar em gotas de gelo; quando o vento morria, as gotas tornavam a derreter, traçando linhas furiosas que desciam pelas bochechas, e o calor espesso retornava com mais força do que antes, em contraste. No instante em que o vento os cercava, ele varria para longe o fedor, mas Rand teria passado sem isso também se pudesse. O frio era o calafrio da tumba, e trazia consigo o odor almiscarado e poeirento de um túmulo velho recém-aberto.

— Não podemos chegar às montanhas ao cair da noite — disse Lan. — E é perigoso andar à noite, mesmo para um Guardião sozinho.

— Há um lugar não muito longe daqui — disse Moiraine. — Será um bom presságio para nós acamparmos lá.

O Guardião lhe lançou um olhar inexpressivo, depois assentiu com relutância.

— Sim. Precisamos acampar em algum lugar. Pode muito bem ser lá.

— O Olho do Mundo estava além dos desfiladeiros quando eu o encontrei — disse Moiraine. — Melhor cruzar as Montanhas de Dhoom em plena luz do dia, ao meio-dia, quando os poderes do Tenebroso neste mundo são mais fracos.

— Você fala como se o Olho não estivesse sempre no mesmo lugar — disse Egwene para a Aes Sedai, mas quem respondeu foi Loial.

— Entre os Ogier, ninguém jamais o encontrou no mesmo lugar duas vezes. O Homem Verde parece ser encontrado quando necessário. Mas isso sempre aconteceu além dos desfiladeiros. Estes são traiçoeiros e assombrados por criaturas do Tenebroso.

— Precisamos chegar aos desfiladeiros antes de precisarmos nos preocupar com elas — disse Lan. — Amanhã estaremos realmente dentro da Praga.

Rand olhou para a floresta ao redor, cada folha e flor doente, cada ramo se decompondo enquanto crescia, e não conseguiu reprimir um tremor. Se isto aqui não é realmente a Praga, o que é?

Lan seguiu para oeste com eles, em diagonal em relação ao sol poente. O Guardião manteve o ritmo que havia definido antes, mas seus ombros revelavam uma certa relutância.

O sol era uma bola vermelha lúgubre quase tocando a copa das árvores quando eles chegaram ao topo de uma colina e o Guardião parou seu cavalo. Além deles, a oeste, havia uma rede de lagos, as águas reluzindo escuras à luz do sol que se punha, como gotas de tamanhos aleatórios em um colar de muitos fios. A distância, cercadas pelos lagos, havia colinas de topos serrilhados, imersas nas sombras da noite que chegava. Por um breve instante os raios de sol tocaram os topos estilhaçados, e Rand prendeu a respiração. Não eram colinas. As ruínas de sete torres. Ele não sabia ao certo se mais alguém havia visto aquilo; a visão desapareceu tão rapidamente quanto veio. O Guardião estava desmontando, seu rosto tão sem emoção quanto uma pedra.

— Não podemos acampar perto dos lagos? — perguntou Nynaeve, enxugando o rosto com seu lenço. — Deve ser mais fresco lá embaixo perto da água.

— Luz — disse Mat. — Eu só gostaria de enfiar a cabeça num deles. Podia nem tirá-la mais de lá.

Justamente nesse momento alguma coisa fez as águas do lago mais próximo se agitarem, a água escura fosforescendo quando um enorme corpo rolou abaixo da superfície. De um comprimento imenso e a espessura de um homem, ondulações se espalhavam, sem parar, até que finalmente uma cauda se ergueu, balançando com uma ponta como o ferrão de uma vespa por um instante no crepúsculo, a pelo menos cinco braças de altura. Por toda aquela extensão, tentáculos gordos ondulavam como vermes monstruosos, tantos quanto as patas de uma centopeia. Ele deslizou lentamente para baixo da superfície e desapareceu; apenas as ondulações que diminuíam davam conta de que ela havia estado ali.