Rand fechou a boca e trocou um olhar com Perrin. Os olhos amarelos estavam tão descrentes quanto ele sabia que seus próprios deveriam estar. Nada tão grande poderia viver num lago daqueles. Não podiam ter sido mãos naqueles tentáculos. Não podiam.
— Pensando bem — disse Mat baixinho —, eu gosto daqui. Aqui está muito bom.
— Colocarei proteções ao redor desta colina — disse Moiraine. Ela já havia desmontado de Aldieb. — Uma barreira de verdade atrairia a atenção que não queremos como moscas ao mel, mas se alguma criação do Tenebroso ou qualquer coisa que sirva à Sombra chegar a uma milha de nós, eu saberei.
— Eu ficaria mais contente com a barreira — disse Mat, ao pôr as botas no chão. — Contanto que ela mantivesse aquela, aquela… coisa do outro lado.
— Ah, cale a boca, Mat — disse Egwene, brusca, ao mesmo tempo que Nynaeve perguntava:
— E fazer com que eles estejam esperando por nós assim que partirmos pela manhã? Você é mesmo um tolo, Matrim Cauthon.
Mat olhou furiosamente para as duas mulheres quando elas desmontaram, mas ficou de boca fechada.
Ao pegar as rédeas de Bela, Rand compartilhou um sorriso com Perrin. Por um momento era quase como se estivessem em casa, com Mat dizendo o que não devia na pior hora possível. Então o sorriso sumiu do rosto de Perrin; no crepúsculo seus olhos brilhavam de verdade, como se tivessem uma luz amarela atrás deles. O sorriso de Rand sumiu também. Não, não é como se estivéssemos em casa.
Rand, Mat e Perrin ajudaram Lan a tirar as selas e prender os cavalos enquanto os demais começaram a montar o acampamento. Loial murmurava para si mesmo ao montar o minúsculo fogão do Guardião, mas seus dedos grossos se moviam com destreza. Egwene cantarolava enquanto enchia a chaleira com o conteúdo de uma grande bolsa de água. Rand não se perguntava mais por que o Guardião havia insistido em trazer tantas bolsas cheias d’água.
Colocando a sela do alazão enfileirada com as demais, ele afrouxou os alforjes e o rolo de cobertor da patilha, virou-se e parou com um arrepio de medo. O Ogier e as mulheres haviam sumido. O fogão e todas as cestas de vime do cavalo de carga. O topo da colina estava deserto, a não ser pelas sombras da noite.
Com a mão entorpecida, ele tentou pegar sua espada, ouvindo Mat soltar um impropério em voz baixa. Perrin havia sacado o machado, virando a cabeça despenteada para todos os lados em busca do perigo.
— Pastores — resmungou Lan. Sem se preocupar, o Guardião caminhou pelo topo da colina, e no terceiro passo desapareceu.
Rand trocou olhares assustados com Mat e Perrin, e em seguida todos dispararam para onde o Guardião havia desaparecido. Subitamente Rand parou, dando mais um passo quando Mat trombou em suas costas. De onde estava, Egwene levantou a cabeça, colocando a chaleira em cima do fogãozinho. Nynaeve fechava a tampa de um segundo lampião aceso. Estavam todos ali, Moiraine sentada de pernas cruzadas, Lan deitado apoiado num cotovelo, Loial tirando um livro de sua mochila.
Rand olhou atrás de si cautelosamente. A lateral da colina estava ali como havia estado antes, as árvores com sombras, os lagos mais além afundando na escuridão. Ele teve medo de recuar, com medo de que todos desaparecessem novamente e talvez dessa vez ele não fosse capaz de encontrá-los. Andando cuidadosamente ao redor dele, Perrin soltou a respiração devagar.
Moiraine reparou que os três estavam ali parados em pé, boquiabertos. Perrin parecia envergonhado, e pôs o machado de volta no cinturão pesado como se achasse que ninguém iria notar. Um sorriso tocou seus lábios.
— É simples — disse ela. — Uma curva, de modo que qualquer olho que nos procure veja ao nosso redor em vez de olhar direto. Não podemos deixar que os olhos lá fora vejam nossas luzes esta noite, e a Praga não é lugar para se ficar no escuro.
— Moiraine Sedai diz que eu posso ser capaz de fazer isso. — Os olhos de Egwene brilharam. — Ela diz que eu posso lidar com uma porção suficiente do Poder Único agora mesmo.
— Não sem treinamento, criança — advertiu Moiraine. — A questão mais simples envolvendo o Poder Único pode ser perigosa para os não treinados e para aqueles ao redor deles. — Perrin bufou, e Egwene pareceu tão desconfortável que Rand ficou imaginando se ela já havia experimentado suas habilidades.
Nynaeve colocou o lampião no chão. Juntamente com a minúscula chama do fogão, o par de lampiões fornecia uma luz generosa.
— Quando você for a Tar Valon, Egwene — disse ela com cuidado —, talvez eu vá com você. — O olhar que ela dirigiu a Moiraine foi estranhamente defensivo. — Será bom para ela ver um rosto familiar no meio de estranhos. Ela precisará de alguém para aconselhá-la além das Aes Sedai.
— Talvez seja a melhor coisa, Sabedoria — disse Moiraine simplesmente.
Egwene riu e bateu palmas.
— Ah, isso seria maravilhoso mesmo. E você, Rand. Você também virá, não? — Ele parou no meio do ato de se sentar na frente dela perto do fogão, depois lentamente se abaixou. Ele pensou que os olhos dela nunca haviam sido tão grandes, nem mais brilhantes, ou mais parecidos com espelhos d’água nos quais ele poderia se perder. Pontinhos coloridos apareceram nas bochechas dela, que deu uma risadinha. — Perrin, Mat, você dois virão, não? Ficaremos todos juntos. — Mat soltou um grunhido que poderia ter significado qualquer coisa, e Perrin apenas deu de ombros, mas ela encarou isso como consentimento. — Você vai ver, Rand. Ficaremos todos juntos.
Luz, um homem poderia se afogar nesses olhos e se dar por muito feliz. Envergonhado, ele pigarreou.
— Eles têm ovelhas em Tar Valon? Só sei fazer isso, cuidar de ovelhas e plantar tabac.
— Eu acredito — disse Moiraine — que posso encontrar alguma coisa para você fazer em Tar Valon. Para todos vocês. Não cuidar de ovelhas, mas alguma coisa que vocês achem interessante.
— Pronto — disse Egwene, como se tudo tivesse sido acertado. — Eu sei. Vou fazer de você meu Guardião, quando eu for Aes Sedai. Você não gostaria de ser Guardião? O meu Guardião? — Ela soava certa do que queria, mas ele viu a pergunta nos olhos dela. Ela queria uma resposta, precisava disso.
— Eu gostaria de ser seu Guardião — respondeu ele. Ela não é para você, nem você para ela. Por que Min tinha de me dizer isso?
A escuridão caiu pesadamente, e todos estavam cansados. Loial foi o primeiro a rolar para o lado e se preparar para dormir, mas os outros o seguiram logo depois. Ninguém usou os cobertores, exceto como travesseiro. Moiraine havia posto alguma coisa no óleo dos lampiões que dispersava o fedor da Praga no topo da colina, mas nada diminuía o calor. A lua fornecia uma luz tênue, aguada, mas o sol podia estar a pino a julgar pela temperatura da noite.
Rand descobriu que era impossível dormir, mesmo com a Aes Sedai a menos de uma braça de distância para proteger seus sonhos. Era o ar espesso que o mantinha desperto. Os roncos suaves de Loial eram um trovão que fazia os de Perrin parecerem inexistentes, mas eles não impediram o cansaço de tomar conta dos demais. O Guardião ainda estava acordado, sentado não muito longe dele com a espada sobre os joelhos, observando a noite. Para a surpresa de Rand, Nynaeve também.