— E algumas delas querem mesmo — disse a Aes Sedai. Seus olhos por sobre o ombro foram mais duros que os de Lan por um instante. — Mas não querem nem um pedaço do que eu sou, e minha presença protege vocês.
Mat riu, desconfortável, como se achasse que era uma brincadeira da parte dela.
Rand não tinha tanta certeza. Aquela era a Praga, afinal de contas. Mas árvores não se mexem. Por que uma árvore agarraria um homem, mesmo que pudesse? Estamos imaginando coisas, e ela só está tentando nos manter alertas.
Bruscamente ele olhou para a esquerda, para dentro da floresta. Aquela árvore, a menos de vinte passos de distância, havia tremido, e não era imaginação. Ele não sabia dizer que tipo era, ou havia sido, tão retorcida e atormentada era sua forma. Diante de seus olhos, a árvore subitamente balançou para a frente e para trás novamente, depois se curvou, batendo no chão. Alguma coisa gritou, um grito agudo e dilacerante. A árvore voltou a ficar reta; seus galhos se emaranharam ao redor de uma massa negra que estremecia, cuspia e gritava.
Ele engoliu em seco e tentou afastar Vermelho, mas as árvores os flanqueavam por todos os lados, e tremiam. O alazão revirava os olhos, mostrando o branco deles por completo. Quando deu por si, Rand estava no meio de um sólido emaranhado de cavalos enquanto todos tentavam fazer a mesma coisa que ele.
— Continuem se movendo — ordenou Lan, puxando a espada. O Guardião estava usando manoplas de aço e a túnica de malha cinza-esverdeada. — Fiquem com Moiraine Sedai. — Ele puxou Mandarb e deu meia-volta, não na direção da árvore e sua presa, mas na direção oposta. Com o manto que mudava de cor, ele foi engolido pela Praga antes que o garanhão negro sumisse de vista.
— Fiquem perto de mim — comandou Moiraine. Ela não reduziu a velocidade de sua égua branca, mas fez um gesto para que os outros se aglomerassem perto dela. — Fiquem o mais perto que puderem.
Um rugido saltou da direção em que o Guardião havia ido. Ele reverberou no ar, e as árvores tremeram com ele, e, quando desapareceu, parecia ainda ecoar. Mais uma vez o rugido veio, repleto de fúria e morte.
— Lan — disse Nynaeve. — Ele…
O som terrível a interrompeu, mas havia uma nota nova nele. Medo. Subitamente ele parou.
— Lan sabe se cuidar — disse Moiraine. — Ande, Sabedoria.
Do meio das árvores o Guardião apareceu, segurando a espada bem à sua frente e de sua montaria. Sangue negro manchava a lâmina, e um vapor se elevava dela. Cuidadosamente, Lan limpou a lâmina com um pano que tirou dos alforjes, examinando o aço para garantir que havia retirado cada mancha. Quando deixou o pano cair, ele se desfez antes de tocar o chão; até mesmo os fragmentos se dissolveram.
Silenciosamente, um corpo enorme saltou das árvores sobre eles. O Guardião girou Mandarb, mas quando o cavalo de guerra se empinou, pronto para atacar com os cascos calçados em aço, a flecha de Mat disparou, perfurando o único olho em uma cabeça que parecia feita praticamente de boca e dentes. Esperneando e gritando, a coisa caiu, bem perto deles. Rand ficou olhando fixamente enquanto passavam por ela apressados. A coisa era coberta de pelos duros como cerdas compridas, e tinha pernas demais, que se encaixavam em um corpo tão grande quanto um urso em ângulos estranhos. Algumas delas pelo menos, as que saíam das costas, tinham de ser inúteis para caminhar, mas as garras grandes como um dedo em suas extremidades rasgavam a terra em sua agonia de morte.
— Bom tiro, pastor. — Os olhos de Lan já haviam esquecido o que estava morrendo atrás deles e vasculhavam a floresta.
Moiraine balançou a cabeça.
— Ela não devia ter tido a disposição de chegar tão perto de alguém que toca a Fonte Verdadeira.
— Agelmar disse que a Praga está agitada — disse Lan. — Talvez a Praga também saiba que uma Teia está se formando no Padrão.
— Depressa. — Moiraine meteu os calcanhares nos flancos de Aldieb. — Precisamos chegar rápido aos desfiladeiros.
Mas no instante em que ela falava a Praga se ergueu contra eles. Árvores chicotearam, estendendo os galhos na direção deles, sem se importar se Moiraine tocava a Fonte Verdadeira ou não.
A espada de Rand estava em sua mão; ele não se lembrava de tê-la tirado da bainha. Atacou sem parar, a lâmina com a marca da garça cortando galhos corrompidos. Galhos famintos recuaram com tocos cortados e se contorcendo — ele quase pensou tê-los ouvido gritar —, mas sempre vinham mais, coleando como cobras, tentando agarrar seus braços, sua cintura, seu pescoço. Dentes arreganhados num ricto, ele procurou o vazio e o encontrou no solo pedregoso e teimoso dos Dois Rios.
— Manetheren! — gritou de volta para as árvores até a garganta doer. O aço com a marca da garça reluzia na fraca luz do sol. — Manetheren! Manetheren!
Em pé nos estribos, Mat atirava uma flecha atrás da outra na direção da floresta, atacando massas deformadas que rosnavam, rangiam incontáveis dentes e abocanhavam as flechas que as matavam, e mordiam as formas cheias de garras que lutavam para alcançá-los, para chegar às figuras montadas. Mat também havia se perdido, longe do presente.
— Carai an Caldazar! — gritava, enquanto levava as flechas ao rosto e as soltava. — Carai an Ellisande! Al Ellisande! Mordero daghain pas duente cuebiyar! Al Ellisande!
Perrin também se levantou nos estribos, silencioso e lúgubre. Ele havia assumido a dianteira, e seu machado abria uma trilha através da floresta e de carne podre, o que quer que aparecesse à sua frente. Árvores que se debatiam e coisas que uivavam evitavam o homem corpulento com o machado, fugindo tanto dos ferozes olhos dourados quanto do machado que passava assoviando. Ele forçava o cavalo a avançar, passo a passo, com determinação.
As mãos de Moiraine disparavam bolas de fogo, e onde elas batiam uma árvore que se retorcia se tornava uma tocha, uma forma com dentes gritava e se debatia com mãos humanas, rasgando a própria carne flamejante com garras ferozes até morrer.
Repetidas vezes, o Guardião levou Mandarb até as árvores, sua lâmina e as manoplas pingando sangue, que borbulhava, fumegante. Quando ele voltava, havia muitas aberturas em sua armadura, cortes que sangravam em sua pele, e seu cavalo de guerra também cambaleava e sangrava. A cada vez a Aes Sedai fazia uma pausa para colocar as mãos nas feridas, e quando ela as afastava só havia sangue sobre a pele sem marcas.
— Estou acendendo fogueiras de sinalização para os Meios-homens — disse ela com amargura. — Vamos em frente! Vamos em frente! — Eles abriam caminho um passo lento de cada vez.
Se as árvores não tivessem caído sobre a massa de carne que as atacava tanto quanto sobre os humanos, se as criaturas, e não havia duas iguais, não tivessem combatido as árvores e as outras tanto quanto os combatiam, Rand tinha certeza de que teriam sido esmagados. Ele ainda assim não tinha certeza de que isso não aconteceria. Então um grito aflautado surgiu. Distante e agudo, cortou os rosnados dos seres da Praga ao redor deles.
Em um instante o rosnado cessou, como se tivesse sido cortado com uma faca. As formas que atacavam ficaram paralisadas; as árvores ficaram imóveis. Tão subitamente quanto as coisas com pernas haviam aparecido, elas se foram, desaparecendo no interior da floresta retorcida.
O grito agudo voltou a ser ouvido, como gaitas de pastor quebradas, e foi respondido por um coro. Meia dúzia, cantando juntas, ao longe atrás deles.
— Vermes — disse Lan, lúgubre, suscitando um gemido de Loial. — Eles nos deram um descanso, se tivermos tempo de usá-lo. — Seus olhos estavam medindo a distância que faltava até as montanhas. — Poucas coisas na Praga enfrentarão um Verme se puderem evitar. — Meteu os calcanhares nos flancos de Mandarb. — Vamos! — Todo o grupo saiu em disparada atrás dele, por uma Praga que subitamente parecia verdadeiramente morta, exceto pelo som agudo atrás deles.