— A Luz proteja… — começou Loial, a voz trêmula, interrompida bruscamente quando Aginor olhou para ele.
— Os Abandonados — disse Mat com a voz rouca — estão presos em Shayol Ghul…
— Estavam presos. — Aginor sorriu; seus dentes amarelados tinham o aspecto de presas. — Alguns de nós não estão mais presos. Os selos enfraquecem, Aes Sedai. Assim como Ishamael, nós caminhamos pelo mundo mais uma vez, e em breve o resto de nós virá. Eu estava perto demais deste mundo em minha prisão, eu e Balthamel, perto demais do revolver da Roda, mas logo o Grande Senhor das Trevas estará livre e nos dará uma nova carne, e o mundo será nosso outra vez. Dessa vez vocês não terão nenhum Lews Therin, o Fratricida. Nenhum Senhor da Manhã salvará vocês. Agora nós sabemos a quem buscamos, e não há mais necessidade do resto de vocês.
A espada de Lan saltou da bainha rápido demais para os olhos de Rand acompanharem. Mas o Guardião hesitou, seus olhos indo para Moiraine, para Nynaeve. As duas mulheres estavam bem distantes uma da outra; colocar-se entre qualquer uma das duas e os Abandonados o afastaria da outra. A hesitação durou apenas uma fração de segundo, mas, quando os pés do Guardião se moveram, Aginor ergueu a mão. Foi um gesto de desdém, um pequeno movimento de seus dedos retorcidos, como se ele quisesse espantar uma mosca. O Guardião voou para trás pelo ar como se um punho imenso o tivesse socado. Com um ruído seco, Lan bateu no arco de pedra, pendendo ali por um instante antes de desabar em uma pilha flácida, a espada caída ao lado da mão estendida.
— NÃO! — gritou Nynaeve.
— Fique quieta! — ordenou Moiraine, mas, antes que alguém mais pudesse se mover, a faca da Sabedoria havia deixado o cinto, e ela já estava correndo na direção do Abandonado, brandindo a pequena lâmina.
— A Luz o cegue! — gritou ela, atacando o peito de Aginor.
O outro Abandonado se moveu como uma víbora. Enquanto o golpe dela ainda descia, a mão envolta em couro de Balthamel voou para pegá-la pelo queixo, os dedos afundando em uma bochecha enquanto o polegar se afundava na outra, cortando a circulação do sangue com sua pressão e marcando a pele em sulcos pálidos. Uma convulsão tomou Nynaeve da cabeça aos pés, como se ela fosse a tira de um chicote. A faca caiu, inútil, de seus dedos moles enquanto Balthamel a erguia com a mão até onde a máscara de couro pôde encarar seu rosto ainda trêmulo. Os dedos dos pés dela se contorciam em espasmos um pé acima do solo; flores choviam de seus cabelos.
— Eu quase esqueci os prazeres da carne. — Aginor passou a língua pelos lábios ressecados, o que soou como pedra em couro cru. — Mas Balthamel se lembra muito bem. — A risada da máscara pareceu ficar mais enlouquecida, e o uivo que Nynaeve soltou queimou os ouvidos de Rand como o desespero arrancado do coração dela.
Subitamente Egwene se moveu, e Rand viu que ela estava prestes a ajudar Nynaeve.
— Egwene, não! — gritou ele, mas ela não parou. Quando Nynaeve gritara, a mão dele fora até a espada, mas então ele a soltou e se jogou na direção de Egwene. Chocou-se com ela antes que ela desse o terceiro passo, derrubando os dois no chão. Egwene caiu embaixo dele sem fôlego debatendo-se imediatamente para se libertar.
Os outros também estavam se movendo, ele percebeu. O machado de Perrin girou em suas mãos, e seus olhos brilharam, dourados e ferozes.
— Sabedoria! — uivou Mat, a adaga de Shadar Logoth em sua mão.
— Não! — gritou Rand. — Vocês não podem lutar contra os Abandonados!
Mas os dois passaram correndo por ele como se não tivessem ouvido, seus olhos sobre Nynaeve e os dois inimigos.
Aginor olhou de relance para eles, despreocupado… e sorriu.
Rand sentiu o ar se agitar acima dele como o estalo do chicote de um gigante. Mat e Perrin, que não haviam chegado sequer à metade do caminho, pararam, como se tivessem ido de encontro a uma parede, e caíram esparramados no chão.
— Bom — disse Aginor. — Um lugar adequado para vocês. Se aprenderem a se rebaixar de modo adequado na hora de nos venerar, pode ser que eu os deixe viver.
Rand se levantou rapidamente. Talvez não conseguisse lutar contra os Abandonados. Nenhum humano comum conseguiria. Mas ele não os deixaria crer por um segundo sequer que estava se humilhando perante eles. Tentou ajudar Egwene a se levantar, mas ela lhe deu um tapa na mão e se levantou sozinha, limpando com raiva o vestido. Mat e Perrin, zonzos, também já haviam se levantado teimosamente.
— Vocês aprenderão — disse Aginor — se quiserem viver. Agora que eu encontrei o que preciso — seu olhar foi até o arco de pedra —, terei tempo para ensinar vocês.
— Isto não acontecerá! — O Homem Verde saiu a passos rápidos do meio das árvores com uma voz como um raio atingindo um antigo carvalho. — Aqui não é o lugar de vocês!
Aginor lhe dirigiu um rápido olhar de esguelha, de desprezo.
— Desapareça! Seu tempo acabou. A sua espécie já virou pó há muito tempo, menos você. Viva o pouco de vida que lhe resta e se dê por satisfeito que não seja digno de nossa atenção.
— Aqui é meu lugar — disse o Homem Verde —, e aqui vocês não machucarão nada que viva.
Balthamel jogou Nynaeve de lado como um trapo, e como um trapo ela caiu, mole como se todos os seus ossos tivessem derretido. Uma mão envolta em couro se levantou, e o Homem Verde rugiu quando uma fumaça se ergueu dos ramos que o trançavam. O vento nas árvores ecoou sua dor.
Aginor deu as costas para Rand e os demais, como se a questão do Homem Verde tivesse sido resolvida, mas com um longo e pesado passo, braços cheios de folhas se enroscaram ao redor de Balthamel, erguendo-o alto, esmagando-o contra um peito de trepadeiras grossas, a máscara de couro preto rindo para olhos de castanhas escuros de fúria. Como serpentes, os braços de Balthamel se libertaram, as mãos enluvadas agarrando a cabeça do Homem Verde como se fossem arrancá-la. Onde essas mãos tocavam, tudo pegava fogo, ramos murchavam, folhas caíam. O Homem Verde urrou quando a fumaça escura e espessa começou a sair das trepadeiras de seu corpo. Ele rugia sem parar, como se estivesse saindo por inteiro da própria boca com a fumaça que soprava de seus lábios.
Subitamente Balthamel sofreu um espasmo nos braços do Homem Verde. As mãos do Abandonado tentaram afastá-lo ao invés de agarrá-lo. Um braço se abriu num movimento largo… e uma pequena trepadeira saiu do meio do couro preto da mão. Um fungo, como os que cercam as árvores nas sombras escuras da floresta, cercou seu braço, brotando do nada, inchando e cobrindo toda a sua extensão. Balthamel começou a se debater, e um broto de trombeteira rasgou sua carapaça, liquens enterraram suas raízes e abriram minúsculas rachaduras no couro de seu rosto, urtigas perfuraram os olhos de sua máscara, cogumelos cabeça-de-caveira dilaceraram sua boca.
O Homem Verde atirou o Abandonado no chão. Balthamel se contorceu e se sacudiu enquanto todas as coisas que cresciam em lugares escuros, tudo que tinha esporos, todas as coisas que adoravam umidade, inchavam e cresciam, rasgavam tecido, couro e carne — Seria aquilo mesmo carne, vista naquele breve momento de fúria verde? — despedaçavam-no e o cobriam até que só restou um montinho, indistinguível de muitos nas profundezas sombrias da floresta verde, que não se movia mais que eles.
Com um gemido cujo som parecia o de um galho se quebrando sob um peso grande demais, o Homem Verde desabou no chão com um estrondo. Metade de sua cabeça estava esturricada e enegrecida. Tentáculos de fumaça ainda saíam dele, como trepadeiras cinzentas. Folhas queimadas caíam de seu braço enquanto ele estendia dolorosamente a mão enegrecida para envolver gentilmente uma noz.