A terra tremeu quando uma muda de carvalho começou a crescer entre seus dedos. A cabeça do Homem Verde caiu, mas a muda subiu na direção do sol, lutando. Raízes brotaram e engrossaram, enterraram-se sob o solo e voltaram a subir, engrossando ainda mais à medida que afundavam. O tronco ficou mais robusto e se estendeu para o alto, a casca tornando-se cinza, cheia de fissuras, antiga. Galhos se espalharam e se tornaram pesados, grandes como braços, grandes como homens, erguendo-se para acariciar o céu, carregados de folhas verdes, repletos de bolotas. A teia maciça das raízes revirava a terra como um arado à medida que se espalhava; o tronco já imenso estremeceu, ficou maior, redondo como uma casa. E veio o silêncio. E um carvalho que podia estar ali havia quinhentos anos cobria o ponto onde o Homem Verde estivera, marcando o túmulo de uma lenda. Nynaeve jazia caída sobre as raízes retorcidas, que haviam crescido curvadas para se acomodarem à sua forma, criando um leito sobre o qual ela descansava. O vento suspirava entre os galhos do carvalho; parecia murmurar um adeus.
Até mesmo Aginor mostrava-se espantado. Então ele levantou a cabeça, os olhos cavernosos queimando de ódio.
— Chega! Já passou da hora de acabar com isso!
— Sim, Abandonado — disse Moiraine, a voz fria como o gelo do inverno mais profundo. — Passou da hora!
A Aes Sedai ergueu a mão, e o chão cedeu sob os pés de Aginor. Chamas rugiram na cratera, atiçadas num frenesi pelo vento que uivava de todas as direções, sugando um redemoinho de folhas para dentro do fogo, que parecia se solidificar em uma geleia amarela com listras vermelhas, puro calor. No meio disso tudo estava Aginor, seus pés sustentados pelo ar. O Abandonado pareceu surpreso, mas então sorriu, e deu um passo à frente. Foi um passo lento, como se o fogo tentasse enredá-lo onde estava, mas ele deu esse passo, e depois outro.
— Corram! — ordenou Moiraine, o rosto branco de tensão. — Todos vocês, corram!
Aginor andava sobre o ar, na direção da margem das chamas.
Rand estava consciente dos outros se movendo, Mat e Perrin correndo na periferia de sua visão, as pernas compridas de Loial levando-o para o meio das árvores, mas tudo o que ele realmente conseguia ver era Egwene, que estava ali, rígida, o rosto pálido e os olhos fechados. Não era o medo que a detinha, ele percebeu. Ela estava tentando lançar seu patético domínio do Poder, sem nenhum treinamento, contra o Abandonado.
Agarrou-a pelo braço e puxou-a para que o encarasse.
— Corra! — gritou para ela. Os olhos se abriram, encarando-o, furiosa com sua interferência, líquidos de ódio por Aginor, de medo do Abandonado. — Corra — disse, empurrando-a na direção das árvores com força suficiente para impulsioná-la. — Corra! — Com isso, ela correu.
Mas o rosto engelhado de Aginor se virou na direção dele, na direção de Egwene, que corria às suas costas, enquanto o Abandonado atravessava as chamas, como se o que a Aes Sedai estava fazendo não lhe dissesse respeito. Na direção de Egwene.
— Ela não! — gritou Rand. — Que a Luz o queime! Ela não!
Ele pegou uma pedra e a arremessou, com a intenção de chamar a atenção de Aginor. A meio caminho do rosto do Abandonado, a pedra se transformou em pó.
Ele hesitou apenas por um instante, tempo suficiente para olhar para trás e ver que Egwene estava oculta nas árvores. As chamas ainda cercavam Aginor, pedaços de seu manto estavam em chamas, mas ele caminhava como se tivesse todo o tempo do mundo, e a borda do fogo estava próxima. Rand se virou e correu. Atrás dele, ouviu Moiraine começar a gritar.
51
Contra a Sombra
A terra tendia a subir na direção que Rand tomou, mas o medo dava força a suas pernas, que cobriam o terreno a passos largos, abrindo caminho à força por entre arbustos em flor e emaranhados de roseiras silvestres, espalhando pétalas para todo lado, sem ligar se espinhos rasgavam sua roupa ou até mesmo sua carne. Moiraine havia parado de gritar. Parecia que os gritos continuariam para sempre, cada um mais devastador que o anterior, mas Rand sabia que eles haviam durado somente alguns instantes. Instantes antes que Aginor estivesse em seu encalço. Sabia que seria ele quem Aginor seguiria. Vira a certeza nos olhos vazios do Abandonado naquele último segundo antes que o terror o fizesse disparar.
A terra foi ficando ainda mais íngreme, mas ele continuou correndo aos trancos e barrancos, forçando-se a avançar, puxando punhados de arbustos rasteiros — rochas, terra e folhas descendo encosta abaixo sob seus pés — e finalmente rastejando, quando a inclinação se tornou acentuada demais. À frente, acima, ela nivelava um pouco. Ofegante, cobriu as últimas poucas e difíceis braças, levantou-se e parou, com vontade de uivar alto.
Dez passos à frente, o topo da colina terminava num despenhadeiro. Ele sabia o que veria antes de chegar lá, mas deu os passos mesmo assim, cada um mais pesado que o anterior, torcendo para que houvesse algum caminho, uma trilha de cabras, qualquer coisa. Na beirada, ele olhou para baixo, para uma queda de mais de quinze braças, uma muralha de rocha tão lisa quanto madeira aplainada.
Tem de haver algum caminho. Vou voltar e encontrar um jeito de dar a volta. Voltar e…
Quando se virou, Aginor estava acabando de chegar à crista. O Abandonado alcançou o topo da colina sem nenhuma dificuldade, subindo a encosta íngreme como se fosse terreno plano. Olhos afundados ardiam naquele rosto murcho como pergaminho ao olhar para ele; de algum modo, Aginor parecia menos murcho que antes, mais cheio de carne, como se tivesse se alimentado bem de alguma coisa. Aqueles olhos fixavam-se nele, mas quando Aginor falou, foi quase como se para si mesmo.
— Ba’alzamon dará recompensas além de qualquer sonho mortal para aquele que levar você a Shayol Ghul. E, no entanto, meus sonhos sempre foram os de outros homens, e deixei a mortalidade para trás há milênios. Qual é a diferença se você servir ao Grande Senhor das Trevas vivo ou morto? Nenhuma, para a disseminação da Sombra. Por que eu deveria compartilhar poder com você? Por que eu deveria me ajoelhar perante você? Eu, que enfrentei Lews Therin Telamon no próprio Salão dos Servos. Eu, que lancei meu poder contra o Senhor da Manhã e o enfrentei de igual para igual, golpe a golpe. Eu acho que não.
A boca de Rand ficou seca como pó; ele sentia a língua murcha como o rosto de Aginor. A beira do precipício raspava sob seus calcanhares, pedras caindo. Ele não ousava olhar para trás, mas ouviu as rochas batendo e ecoando na parede lisa, exatamente o que aconteceria com seu corpo se ele se movesse mais um dedo. Foi assim que ele percebeu que estava recuando, distanciando-se do Abandonado. Tem de haver algum jeito de escapar dele. Algum jeito de escapar! Tem de haver! Algum jeito!
Subitamente ele sentiu alguma coisa, viu, embora soubesse que não estava ali para ser vista. Uma corda reluzente saía de Aginor, atrás dele, branca como a luz do sol através da nuvem mais pura, mais pesada que o braço de um ferreiro, mais leve que o ar, conectando o Abandonado a algo distante além do conhecimento, algo ao alcance da mão de Rand. A corda pulsava, e a cada pulsação Aginor ficava mais forte, com mais carne, um homem tão alto e forte quanto ele próprio, um homem mais duro que o Guardião, mais mortífero que a Praga. E, no entanto, para além daquela corda brilhante, o Abandonado parecia quase não existir. A corda era tudo. Ela zumbia. Ela cantava. Ela chamava a alma de Rand. Um fio brilhante, fino como um dedo, surgiu, veio vagando, tocou-o, e ele arquejou. A luz o preencheu, e um calor que deveria queimar, mas apenas o aquecia, como se roubasse o frio do túmulo de seus ossos. O fio ficou mais grosso. Preciso escapar!
— Não! — gritou Aginor. — Você não o terá! Ele é meu!