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— Sim — disse Ba’alzamon, de seu lugar na frente da lareira. — Eu achei que a ganância de Aginor o derrotaria. Mas no fim não faz diferença. Foi uma longa busca, mas agora ela terminou. Você está aqui, e eu sei quem você é.

Em meio à Luz pairava o vazio, e no meio do vazio flutuava Rand. Ele estendeu a mão para tocar o solo de sua casa e sentiu rocha dura, seca e inabalável, pedra sem piedade, onde somente os fortes podiam sobreviver, somente aqueles tão duros quanto as montanhas.

— Estou cansado de correr. — Não conseguia acreditar que sua voz estivesse tão calma. — Cansado de você ameaçando meus amigos. Eu não vou fugir mais. — Ba’alzamon tinha uma corda também, ele viu. Uma corda negra, bem mais grossa que a dele, tão larga que o corpo humano deveria ser minúsculo se comparado a ela, e no entanto Ba’alzamon a tornava minúscula em comparação. Cada pulsação ao longo daquela veia negra comia luz.

— Você acha que faz alguma diferença, fugir ou ficar? — As chamas da boca de Ba’alzamon riram. Os rostos na lareira choraram com o regozijo de seu mestre. — Você fugiu de mim muitas vezes, e em todas elas eu o encontrei e fiz você engolir seu orgulho temperado com lágrimas amargas. Muitas vezes você ficou e lutou, e depois rastejou, derrotado, implorando misericórdia. Você tem esta chance, verme, e somente esta chance: ajoelhe-se aos meus pés e me sirva bem, e eu lhe darei poder acima dos tronos; ou seja um tolo fantoche de Tar Valon e grite enquanto a Roda o faz se juntar à poeira do tempo.

Rand se mexeu, olhando de volta para a porta como se procurasse um modo de escapar. Que o Tenebroso pensasse isso. Além da entrada havia ainda o negror do nada, cindido pelo fio reluzente que saía de seu corpo. E lá fora corria também o cordão mais pesado de Ba’alzamon, tão negro que se destacava no escuro como se contra a neve. Os dois cordões pulsavam como veias em contratempo, um contra o outro, a luz quase não resistindo às ondas das trevas.

— Há outras escolhas — disse Rand. — A Roda tece o Padrão, e não você. De cada armadilha que você montou para mim eu escapei. Eu escapei de seus Desvanecidos e Trollocs, escapei de seus Amigos das Trevas. Rastreei você até aqui, e destruí seu exército no caminho. Você não tece o Padrão.

Os olhos de Ba’alzamon rugiram como duas fornalhas. Seus lábios não se moveram, mas Rand achou tê-lo ouvido praguejar contra Aginor. Então os fogos morreram, e aquele rosto humano comum sorriu para ele de um jeito que gelava até mesmo através do calor da Luz.

— Outros exércitos podem ser formados, tolo. Exércitos com os quais você nem sequer sonhou ainda virão. E você me rastreou? Você, uma lesma embaixo de uma rocha, me rastrear? Eu comecei a definir o seu caminho no dia em que você nasceu, um caminho para levar você à sua tumba, ou trazê-lo aqui. Aiel que tiveram a permissão para fugir, e um para viver, para dizer as palavras que ecoariam por anos a fio. Jain, o Viajante, um herói — ele deturpou a palavra com seu desdém —, a quem pintei como um tolo e enviei para os Ogier pensando que estava livre de mim. A Ajah Negra, mulheres rastejando como vermes pelo mundo inteiro à sua procura. Eu puxo os cordéis, e o Trono de Amyrlin dança e acha que controla os acontecimentos.

O vazio tremeu; rapidamente Rand tornou a firmá-lo. Ele sabe de tudo. Ele poderia ter feito isso. Pode ter sido da maneira que ele diz. A Luz aqueceu o vazio. A dúvida gritou e foi aquietada, até que apenas a semente permaneceu. Ele se viu num embate interno, sem saber se queria enterrar a semente ou fazê-la crescer. O vazio se firmou, menor do que antes, e ele flutuou na calma.

Ba’alzamon pareceu não notar nada.

— Não faz diferença se eu o possuir vivo ou morto, a não ser para você, e para o poder que você possa ter. Você me servirá, ou sua alma o fará. Mas eu preferia que você se ajoelhasse perante mim vivo a morto. Um único punho de Trollocs enviado para sua aldeia quando eu podia ter enviado mil. Um Amigo das Trevas para enfrentar você onde cem poderiam encontrá-lo enquanto dormia. E você, tolo, você nem sequer os conhece a todos, nem os que estão adiante, nem os que ficaram para trás, nem os que estão ao seu lado. Você é meu, sempre foi meu, meu cão na coleira, e eu o trouxe aqui para se ajoelhar perante seu dono ou morrer e deixar que sua alma se ajoelhe.

— Eu renego você. Você não tem poder sobre mim, e eu não me ajoelharei a você, vivo ou morto.

— Veja — disse Ba’alzamon. — Veja.

Mesmo sem o desejar, Rand virou a cabeça.

Egwene estava ali, e Nynaeve, pálidas e assustadas, com flores nos cabelos. E outra mulher, um pouco mais velha que a Sabedoria, de olhos cinzentos e bonita, vestida com um vestido dos Dois Rios, botões de flor brilhantes bordados ao redor do pescoço.

— Mãe? — disse Rand baixinho, e ela sorriu, um sorriso sem esperança. O sorriso de sua mãe. — Não! Minha mãe morreu, e as outras duas estão a salvo, longe daqui. Eu renego você! — Egwene e Nynaeve ficaram borradas, tornaram-se uma névoa difusa e se dissiparam. Kari al’Thor ainda estava parada ali, os olhos arregalados de medo.

— Ela, pelo menos — disse Ba’alzamon —, é minha para fazer o que quiser.

Rand sacudiu a cabeça.

— Eu renego você. — Ele teve de forçar as palavras a saírem. — Ela está morta, e a salvo de você na Luz.

Os lábios de sua mãe tremeram. Lágrimas desceram por seu rosto; cada uma delas o queimava como ácido.

— O Senhor da Tumba está mais forte do que era, meu filho — disse ela. — Seu alcance é maior. O Pai das Mentiras tem uma língua de mel para almas incautas. Meu filho. Meu único, querido filho. Eu pouparia você se pudesse, mas agora ele é meu mestre, e cada desejo dele, a lei da minha existência. Não posso mais que obedecer a ele, e rastejar pela boa vontade dele. Só você pode me libertar. Por favor, meu filho. Por favor, me ajude. Me ajude. Me ajude! POR FAVOR!

O grito saiu rasgado dela quando Desvanecidos, rostos pálidos e sem olhos, a cercaram. Suas roupas foram arrancadas pelas mãos sem sangue deles, mãos com pinças, tornos e coisas que perfuravam, queimavam e chicoteavam sua carne nua. Seus gritos não tinham fim.

O grito de Rand ecoou o dela. O vazio ferveu em sua mente. A espada estava em sua mão. Não a lâmina com a marca da garça, mas uma lâmina de luz, uma lâmina da Luz. Ao erguê-la, um furioso raio de luz branca disparou de sua ponta, como se a própria lâmina tivesse se estendido. Ela tocou o Desvanecido mais próximo, e uma incandescência cegante preencheu a câmara, atravessando reluzente os Meios-homens como uma vela queimando papel, calcinando-os, cegando-o.

Em meio ao brilho, ele ouviu um sussurro.

— Obrigada, meu filho. A Luz. Abençoada Luz.

O clarão se apagou, e ele estava sozinho na câmara com Ba’alzamon. Os olhos de Ba’alzamon ardiam como o Poço da Perdição, mas ele se afastou da espada como se esta fosse de fato a própria Luz.

— Idiota! Você se destruirá! Você não pode lidar com isso assim, não ainda! Não até que eu lhe ensine!

— Acabou — disse Rand e golpeou a corda negra de Ba’alzamon com a espada.

Ba’alzamon gritou quando a espada desceu, gritou até as paredes de pedra tremerem, e o uivo infinito foi redobrado quando a lâmina de Luz cortou o cordão. As extremidades da corda chicotearam como se tivessem estado sob tensão. A extremidade que se estendia na direção do nada lá fora começou a murchar enquanto era puxada para longe; a outra voltou para Ba’alzamon, jogando-o contra a lareira. Houve uma risada silenciosa nos gritos sem som das faces torturadas. As paredes estremeceram e racharam; o chão se ergueu, e pedaços de pedra do teto caíram no chão.