A ajuda de uma Aes Sedai às vezes era pior do que nenhuma ajuda, assim diziam as histórias, como veneno em uma torta, e seus presentes sempre tinham uma armadilha, como uma isca de peixe. Subitamente a moeda em seu bolso, a moeda que Moiraine lhe dera, pareceu um carvão em brasa. Ele teve de se controlar para não arrancá-la do casaco e atirá-la pela janela.
— Ninguém quer se envolver com Aes Sedai, rapaz — disse o Prefeito lentamente. — É a única chance que consigo ver, mas mesmo assim não é uma decisão fácil. Não posso tomá-la por você, mas não vi a Senhora Moiraine fazer nada além do bem… Moiraine Sedai, suponho que é como deveria chamá-la. Às vezes… — Ele lançou um olhar significativo para Tam — …é preciso correr o risco, mesmo que as chances não sejam grandes.
— Algumas histórias são exagero, de certa forma — Thom adicionou, como se as palavras estivessem sendo arrancadas dele à força. — Algumas. Além disso, garoto, que escolha você tem?
— Nenhuma. — Rand suspirou.
Tam ainda não havia movido um só músculo; seus olhos estavam afundados, como se ele estivesse doente por uma semana.
— Eu vou… eu vou tentar encontrá-la.
— Do outro lado das pontes — disse o menestrel —, onde eles estão… se livrando dos Trollocs mortos. Mas tome cuidado, garoto. As Aes Sedai fazem o que fazem por motivos próprios, e nem sempre são os motivos que os outros pensam.
A última frase foi um grito que acompanhou Rand porta afora. Ele precisou segurar o cabo da espada para evitar que a bainha esbarrasse em suas pernas enquanto corria, mas não parou para tirá-la. Desceu a escada ruidosamente e saiu da estalagem em disparada, esquecendo todo o cansaço naquele instante. Uma chance para Tam, por menor que fosse, era o bastante para ele superar uma noite sem dormir, pelo menos por algum tempo. Que essa chance viesse de uma Aes Sedai, ou qual preço teria, eram coisas em que não queria pensar. E quanto a realmente encarar uma Aes Sedai… Ele respirou fundo e tentou ir ainda mais rápido.
As fogueiras estavam bem além das últimas casas ao norte, do lado da estrada que levava para a Colina da Vigília, que dava para a Floresta do Oeste. O vento ainda carregava as colunas de fumaça preta e oleosa para longe da aldeia, mas mesmo assim um cheiro doce e enjoativo preenchia o ar, como o de um assado que tivesse ficado tempo demais no espeto. Rand teve ânsia de vômito com o cheiro, mas engoliu em seco quando percebeu de onde vinha. Uma coisa boa a se fazer com as fogueiras do Bel Tine. Os homens que mexiam nas fogueiras estavam usando panos cobrindo o nariz e a boca, mas suas caretas deixavam claro que o vinagre que umedecia os panos não era o bastante. Mesmo que aquilo eliminasse o fedor, eles ainda sabiam que o fedor estava ali e ainda sabiam o que estavam fazendo.
Dois homens estavam desamarrando as tiras dos arreios de um dos Dhurrans dos tornozelos de um Trolloc. Lan, agachado ao lado do corpo, havia afastado o cobertor o suficiente para revelar os ombros e a cabeça com focinho de bode. Quando Rand se aproximava, o Guardião retirou um emblema de metal, um tridente pintado de vermelho-sangue, de um ombro espinhento da cota de malha preta.
— Ko’bal — ele anunciou. Jogou o emblema que tinha na palma da mão para o alto e o agarrou no ar, grunhindo. — Isso contabiliza sete bandos até agora.
Moiraine, sentada de pernas cruzadas no chão ali perto, balançava a cabeça, cansada. Um cajado, coberto de uma ponta a outra com entalhes de vinhas e flores, descansava sobre seus joelhos, e seu vestido tinha o aspecto amarrotado de uma roupa que não era tirada fazia tempo.
— Sete bandos. Sete! Um número grande assim não agia junto desde as Guerras dos Trollocs. Uma notícia ruim atrás da outra. Estou com medo, Lan. Achei que tivéssemos alguma vantagem em relação a eles, mas podemos estar mais para trás do que nunca.
Rand ficou olhando fixo para ela, incapaz de falar. Uma Aes Sedai. Tentara se convencer de que ela não teria um aspecto diferente agora que ele sabia para quem… ou o que ele estava olhando, e para sua surpresa era verdade. Ela não parecia mais tão imaculada, não com fiapos de cabelo arrepiados em todas as direções e uma leve mancha de fuligem no nariz, mas tampouco estava assim tão diferente. Certamente devia haver alguma coisa numa Aes Sedai que indicasse o que ela era. Por outro lado, se a aparência externa refletisse o interior, e se as histórias fossem verdadeiras, então ela deveria se parecer mais com um Trolloc do que com uma linda mulher cuja dignidade não havia sido afetada por estar sentada na terra. E ela podia ajudar Tam. Fosse qual fosse o custo, isso estava acima de tudo.
Ele respirou fundo.
— Senhora Moiraine… Quer dizer, Moiraine Sedai.
Os dois se viraram para encará-lo, e ele congelou sob o olhar dela. Não o olhar calmo e sorridente do qual ele se lembrava do Campo. O rosto estava cansado, mas os olhos escuros eram os de um gavião. Aes Sedai. Destruidoras do mundo. Titereiras que manipulavam e faziam tronos e nações dançarem de acordo com os desígnios que somente as mulheres de Tar Valon conheciam.
— Um pouco mais de luz na escuridão — a Aes Sedai murmurou. Ela levantou a voz. — Como estão seus sonhos, Rand al’Thor?
Ele a encarou.
— Meus sonhos?
— Uma noite como esta pode fazer um homem ter pesadelos, Rand. Se você tiver pesadelos, deve me falar deles. Às vezes eu posso ajudar com sonhos ruins.
— Não há nada de errado com meus… É o meu pai. Ele está ferido. Não é muito mais do que um arranhão, mas a febre o está consumindo. A Sabedoria não vai ajudar. Diz que não pode. Mas as histórias…
Ela ergueu uma sobrancelha, e ele parou e engoliu em seco. Luz, existe alguma história com uma Aes Sedai em que ela não seja a vilã? Ele olhou para o Guardião, mas Lan parecia mais interessado no Trolloc morto do que em qualquer coisa que Rand pudesse dizer. Constrangido com o olhar dela, ele prosseguiu:
— Eu… hã… dizem que as Aes Sedai podem curar. Se a senhora puder ajudá-lo… Qualquer coisa que puder fazer por ele… Qualquer que seja o custo… Quer dizer… — Ele respirou fundo e terminou de uma só vez: — Pagarei qualquer preço que estiver em meu poder se a senhora ajudá-lo. Qualquer um.
— Qualquer preço — ponderou Moiraine. — Falaremos de preços depois, Rand, se chegarmos a esse ponto. Não posso prometer nada. A Sabedoria sabe o que faz. Farei o que puder, mas está além do meu poder impedir a Roda de girar.
— A Morte chega mais cedo ou mais tarde para todos — disse o Guardião, sombrio —, a menos que se sirva ao Tenebroso, e apenas tolos estão dispostos a pagar esse preço.
Moiraine estalou a língua.
— Não seja tão lúgubre, Lan. Até que temos um motivo para comemorar. Pequeno, mas temos. — Ela usou o cajado para se erguer. — Leve-me a seu pai, Rand. Vou ajudá-lo como puder. Muita gente aqui tem recusado minha ajuda. Eles também ouviram as histórias — acrescentou secamente.
— Ele está na estalagem — disse Rand. — Por aqui. E obrigado. Obrigado!
Eles seguiram Rand, mas os passos apressados dele o levaram rapidamente adiante. Ele reduziu, impaciente, para que eles o alcançassem, então disparou à frente mais uma vez e teve de esperar novamente.
— Por favor, rápido — ele pediu, tão concentrado em obter ajuda para Tam que nem por um instante levou em conta a temeridade de provocar uma Aes Sedai. — A febre o está consumindo.
Lan o fuzilou com os olhos.
— Não vê que ela está cansada? Mesmo com um angreal, o que ela fez noite passada foi como correr ao redor da aldeia com um saco cheio de pedras nas costas. Não sei se você vale o sacrifício, pastor de ovelhas, não importa o que ela diga.
Rand piscou e conteve a língua.
— Calma, meu amigo — disse Moiraine.
Sem diminuir o passo, ela estendeu a mão para dar palmadinhas no ombro do Guardião. Ele se avultava, protetor, sobre ela, como se pudesse lhe dar forças simplesmente por estar perto.