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Sirva-me, uma voz sussurrou na quietude de sua mente. Uma voz familiar. Se ele apurasse o ouvido o suficiente, tinha certeza de que saberia quem era. Sirva-me. Ele sacudiu a cabeça tentando expulsar a voz. Sirva-me! E sacudiu o punho na direção da montanha negra.

“Que a Luz o consuma, Shai’tan!”

Subitamente o cheiro da morte se adensou ao seu redor. Uma figura assomou sobre ele, vestindo um manto da cor de sangue seco, uma figura com um rosto… Ele não queria ver aquele rosto que o olhava de cima. Não queria pensar naquele rosto. Pensar nele era o bastante para lhe causar dor, para transformar sua mente em brasa. Uma mão se estendeu em sua direção. Sem se importar se iria despencar lá do alto, ele se afastou. Precisava escapar. Para bem longe. E caiu, debatendo-se no ar, querendo gritar, sem fôlego para gritar, sem fôlego para nada.

De repente ele não estava mais naquela terra árida, não estava mais caindo. Suas botas se assentavam numa grama invernal amarronzada; pareciam flores. Ele quase riu ao ver árvores e arbustos espalhados, mesmo sem folhas, pontilhando a planície ondulada que agora o cercava. A distância uma única montanha se destacava, o cume partido e fendido, mas essa montanha não trazia nenhuma sensação de medo nem de desespero. Era apenas uma montanha, embora estranhamente deslocada ali, sem nenhuma outra à vista.

Um rio largo fluía perto da montanha, e em uma ilha no meio desse rio havia uma cidade como as das histórias dos menestréis, uma cidade cercada por muralhas altas que emitiam um brilho branco e prateado ao sol cálido. Com um misto de alívio e alegria, ele partiu na direção das muralhas, em busca da segurança e da serenidade que de algum modo sabia que encontraria atrás delas.

Ao se aproximar ele distinguiu torres altíssimas, muitas ligadas por espantosas passarelas que cruzavam o céu aberto. Pontes elevadas arqueavam-se de ambas as margens do rio até a cidade insular. Mesmo de longe ele conseguia ver um trabalho rendilhado nas pedras daqueles vãos, parecendo delicadas demais para suportar as águas velozes que corriam abaixo delas. Além daquelas pontes estava a segurança. Santuário.

Subitamente um frio percorreu os seus ossos; uma umidade gelada cobriu sua pele, e o ar ao seu redor tornou-se fétido e úmido. Sem olhar para trás, ele correu, fugindo do perseguidor cujos dedos congelantes roçavam suas costas e puxavam seu manto, correu da figura devoradora de luz com o rosto que… Ele não conseguia se lembrar do rosto, exceto como terror. Não queria se lembrar do rosto. Ele correu, e o chão passava por baixo dos seus pés, colinas redondas e campinas planas… e ele queria uivar como um cão enlouquecido. À frente, a cidade se afastava. Quanto mais corria, mais longe ficavam as muralhas brancas reluzentes e o refúgio. Iam ficando cada vez menores, até que no horizonte restava apenas um pontinho pálido. A mão fria de seu perseguidor o agarrava pelo colarinho. Se aqueles dedos o tocassem, ele sabia que ficaria louco. Ou pior. Muito pior. No momento em que essa certeza lhe ocorreu ele tropeçou e caiu…

“Nãããão!”, gritou.

…e gemeu quando as pedras do pavimento o fizeram perder o fôlego numa pancada seca. Sem nada entender, ele se levantou. Estava parado no início de uma das pontes maravilhosas que vira sobre o rio. Pessoas sorridentes passavam por ele de ambos os lados, pessoas vestidas com tantas cores que o faziam pensar num campo de flores. Algumas delas falavam com ele, mas Rand não conseguia entender, embora as palavras soassem como se devesse entendê-las. Mas os rostos eram amigáveis, e as pessoas faziam gestos para que ele seguisse em frente, atravessando a ponte com seu intrincado trabalho de cantaria, na direção das muralhas cintilantes, raiadas de prata, e das torres mais além. Na direção da segurança que ele sabia que o aguardava ali.

Juntou-se à multidão que descia a ponte e entrou na cidade por portões maciços montados em muralhas altas e impecáveis. Do lado de dentro havia uma terra de maravilhas onde mesmo a menor estrutura parecia um palácio. Era como se os construtores tivessem recebido a ordem de pegar pedra, tijolo e azulejo e criar uma beleza para tirar o fôlego dos mortais. Não havia edifício, não havia monumento que não o fizesse arregalar os olhos. As ruas se enchiam de música, mil canções diferentes, mas todas se fundindo com o clamor das multidões para criar uma harmonia grandiosa e alegre. Os aromas de perfumes adocicados e de temperos picantes, de comidas maravilhosas e miríades de flores, todos flutuavam no ar, como se todos os cheiros bons do mundo estivessem reunidos ali.

A rua pela qual ele adentrou a cidade, ampla e pavimentada com pedra cinza lisa, estendia-se reta à sua frente na direção do centro da localidade. Ao seu final assomava uma torre maior e mais alta que qualquer outra na cidade, uma torre tão branca quanto neve que acabara de cair. Essa torre era onde estavam a segurança e o conhecimento que ele buscava. Mas a cidade era algo que ele jamais havia sonhado ver. Decerto não faria diferença caso se atrasasse só um pouco em sua caminhada até a torre… Ele dobrou em uma rua lateral estreita, onde malabaristas passeavam entre ambulantes que vendiam estranhas frutas.

À frente, descendo a rua, havia uma torre branca como a neve. A mesma torre. Daqui a um instantinho, ele pensou e dobrou outra esquina. No fim dessa rua, lá estava a mesma torre branca. Teimosamente, ele virou outra esquina, e outra, e a cada vez a torre de alabastro surgia diante de seus olhos. Ele girou para fugir dela… e deteve-se subitamente. À sua frente, a torre branca. E teve medo de olhar para trás, medo de que ela estivesse lá também.

Os rostos ao seu redor ainda eram amigáveis, mas cheios de uma esperança estilhaçada, uma esperança que ele havia despedaçado. As pessoas ainda gesticulavam para que ele avançasse, gestos de quem implorava. Na direção da torre. Os olhos brilhavam com uma necessidade desesperada, e somente ele poderia satisfazê-la, somente ele poderia salvá-los.

Muito bem, pensou. A torre era, afinal de contas, aonde ele queria ir.

Já em seu primeiro passo adiante a decepção desvaneceu os que o rodeavam, e sorrisos cingiram cada um dos rostos. Eles o acompanharam, e criancinhas cobriram seu caminho com pétalas de flores. Olhou para trás, confuso, imaginando para quem seriam as flores, mas atrás só havia mais pessoas sorridentes gesticulando para que seguisse em frente. Devem ser para mim, pensou e se perguntou por que aquilo subitamente não parecia mais estranho. Mas o assombro durou apenas um instante antes de desaparecer; tudo era como deveria ser.

Primeiro uma, depois outra pessoa começou a cantar, até que todas as vozes se ergueram em um hino glorioso. Ele ainda não conseguia compreender as palavras, mas uma dúzia de harmonias entrelaçadas entoava aos brados a alegria e a salvação. Músicos dançavam no meio da multidão que fluía, adicionando flautas, harpas e tambores de diversos tamanhos ao hino, e todas as canções que ele ouvira antes se misturavam naturalmente. Garotas dançavam ao seu redor, depositando guirlandas de botões de cheiro doce sobre seus ombros, pondo-as em seu pescoço. Elas sorriam para ele, cujo deleite crescia a cada passo. Ele não conseguiu deixar de sorrir de volta. Seus pés coçavam para se juntar à dança e, ao pensar nisso, ele já estava dançando, os passos se encaixando como se conhecesse aquela dança desde que nascera. Ele jogou a cabeça para trás e riu; seus pés pareciam mais leves do que jamais haviam sido, dançando com… Não conseguia lembrar o nome, mas isso não parecia importante.

É seu destino, uma voz sussurrou em sua cabeça, e o sussurro era um acorde no hino.

Carregando-o como um graveto na crista de uma onda, a multidão fluiu para uma praça enorme no meio da cidade, e pela primeira vez ele viu que a torre branca se elevava de um grandioso palácio de mármore branco, esculpido em vez de construído, paredes curvas e amplos domos e torres delicadas tocando o céu. O conjunto todo o fez arquejar, assombrado. Degraus largos de pedra branca subiam da praça, e ao pé daquela escadaria as pessoas se detiveram, mas a música delas subiu ainda mais. As vozes que se elevavam impulsionaram seus pés. Seu destino, a voz sussurrou, agora insistente, ansiosa.