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Cenn ergueu um pouco a mão direita, e então desviou o olhar, evitando-a, zangado.

— Não posso negar o que ela fez — ele resmungou, parecendo de fato envergonhado. — Ela ajudou a mim e a outros — continuou em um tom de súplica —, mas é uma Aes Sedai, Bran. Se aqueles Trollocs não vieram por causa dela, por que vieram? Não queremos nada com Aes Sedai nos Dois Rios. Deixe que elas fiquem com seus problemas longe de nós.

Uns poucos homens, seguros no fundo da multidão, gritaram então: “Não queremos problemas com Aes Sedai!”, “Mandem-na embora!”, “Expulsem-na!”, “Por que vieram, se não por causa dela?”.

Uma expressão de desprezo surgiu no rosto de Bran, mas, antes que ele pudesse falar, Moiraine subitamente ergueu sobre a cabeça seu cajado de vinhas esculpidas, girando-o com ambas as mãos. O arquejo de Rand ecoou o dos aldeões, pois uma chama branca sibilante explodiu em cada extremidade do cajado, destacando-se diretamente como pontas de lança apesar do girar do bastão. Até Bran e Haral afastaram-se dela. Moiraine baixou os braços bruscamente à frente, deixando o cajado paralelo ao chão, mas o fogo pálido ainda se projetava, mais brilhante que as tochas. Os homens recuaram, levantando as mãos para proteger os olhos da dor daquele brilho ofuscante.

— Foi nisso que o sangue de Aemon se transformou? — A voz da Aes Sedai não era alta, mas sobrepujava todos os outros sons. — Gente mesquinha lutando pelo direito de se esconder como coelhos? Vocês se esqueceram de quem são, esqueceram-se do que são, mas eu esperava que lhes restasse alguma coisa, alguma memória no sangue e nos ossos. Algum vestígio que os preparasse para a longa noite por vir.

Ninguém falou. Os dois Coplins pareciam desejar jamais abrir a boca novamente.

Por fim, Bran disse:

— Esquecemos de quem somos? Somos quem sempre fomos. Fazendeiros, pastores e artesãos honestos. Gente dos Dois Rios.

— Ao sul — disse Moiraine — fica o rio que vocês chamam de Rio Branco; mais longe, porém, a leste, os homens ainda o chamam pelo nome correto. Manetherendrelle. Na Língua Antiga, Águas do Lar da Montanha. Águas cristalinas que um dia cruzaram uma terra de bravura e beleza. Dois mil anos atrás o Manetherendrelle fluía pelas muralhas de uma cidade montanhesa tão bela de se contemplar que os pedreiros Ogier vinham admirá-la, assombrados. Essa região era coberta por fazendas e aldeias, e o que vocês chamam de Floresta de Sombras também, e além. Mas todo aquele povo pensava em si mesmo como o povo do Lar da Montanha, o povo de Manetheren.

“O Rei deles era Aemon al Caar al Thorin, Aemon filho de Caar filho de Thorin, e Eldrene ay Ellan ay Carlan era sua Rainha. Aemon, tão destemido que o maior cumprimento por coragem que qualquer um podia dar, mesmo entre seus inimigos, era dizer a um homem que ele tinha coração de Aemon. Eldrene era tão linda que se dizia que as flores desabrochavam para fazê-la sorrir. Bravura e beleza e sabedoria e um amor que a morte não podia destruir. Chorem, se vocês têm coração, pela perda deles, até mesmo pela perda da memória deles. Chorem pela perda do sangue deles.”

Então ela fez silêncio, mas ninguém falou. Rand estava tão preso quanto os outros no feitiço que ela havia criado. Quando ela tornou a falar, ele bebeu de suas palavras, e o resto das pessoas também.

— Por quase dois séculos as Guerras dos Trollocs haviam devastado os quatro cantos do mundo, e, onde quer que houvesse batalhas, o estandarte da Águia Vermelha de Manetheren estava à frente. Os homens de Manetheren eram uma pedra no sapato do Tenebroso e um espinho em sua mão. Cantem Manetheren, que nunca se dobrou à Sombra. Cantem Manetheren, a espada que não podia ser quebrada.

“Eles estavam longe, os homens de Manetheren, em Campo de Bekkar, o chamado Campo de Sangue, quando chegaram notícias de um exército de Trollocs marchando rumo a seu lar. Longe demais para fazer outra coisa senão aguardar para ouvir sobre a morte de sua terra, pois as forças do Tenebroso queriam dar fim a ela. Matar o poderoso carvalho cortando-lhe as raízes. Longe demais para fazer outra coisa a não ser lamentar. Mas eles eram os homens do Lar da Montanha.

“Sem hesitar, sem pensar na distância que deveriam viajar, eles marcharam do próprio campo da vitória, ainda cobertos de pó, suor e sangue. Por dias e noites eles marcharam, pois haviam visto o horror que um exército de Trollocs deixava em seu rastro, e nenhum daqueles homens poderia dormir enquanto tamanho perigo ameaçasse Manetheren. Eles avançaram como se seus pés tivessem asas, marchando mais longe e mais rápido que os amigos esperavam ou os inimigos temiam. Quando os exércitos do Tenebroso desceram sobre as terras de Manetheren, os homens do Lar da Montanha estavam diante eles, com as costas para o Tarendrelle.”

Um aldeão deu um pequeno viva, mas Moiraine continuou como se não tivesse ouvido.

— A hoste que enfrentou os homens de Manetheren era suficiente para assustar o mais bravo dos corações. Corvos enegreciam o céu; Trollocs enegreciam a terra. Trollocs e seus aliados humanos. Trollocs e Amigos das Trevas às dezenas de dezenas de milhares, e Senhores do Medo no comando. À noite suas fogueiras superavam as estrelas em número, e o amanhecer revelou o estandarte de Ba’alzamon na vanguarda. Ba’alzamon, Coração das Trevas. Um nome antigo para o Pai das Mentiras. O Tenebroso não pôde se livrar de sua prisão em Shayol Ghul, pois, se isso tivesse acontecido, nem todas as forças da humanidade reunidas teriam conseguido resistir, mas havia poder ali. Senhores do Medo, e um mal que fazia aquele estandarte da destruição da luz parecer a coisa certa e congelar as almas dos homens que o encarassem.

“E, no entanto, eles sabiam o que precisavam fazer. Sua terra natal estava logo do outro lado do rio. Eles deveriam manter aquela hoste, e o poder que a comandava, longe do Lar da Montanha. Aemon enviara mensageiros. Recebera a promessa de auxílio se conseguissem resistir três dias no Tarendrelle. Aguentar por três dias com toda a probabilidade de serem derrotados logo na primeira hora. Mas, de algum modo, com ataques sangrentos e uma defesa desesperada, eles se aguentaram por uma, duas, três horas. Por três dias lutaram e, embora a terra tivesse se tornado um quintal de açougueiro, não permitiram que o Tarendrelle fosse cruzado. Na terceira noite nenhuma ajuda havia chegado, nem tampouco mensageiros, e eles continuaram lutando, sozinhos. Por seis dias. Por nove. E no décimo dia Aemon conheceu o gosto amargo da traição. Nenhuma ajuda viria, e eles não podiam mais impedir a travessia do rio.”

— O que eles fizeram? — Hari quis saber.

O fogo das tochas vacilava na brisa fria da noite, mas ninguém fez um movimento para trazer o manto mais para perto de si.

— Aemon atravessou o Tarendrelle — disse-lhes Moiraine —, destruindo as pontes atrás de si. E enviou mensagens por toda a sua terra para que o povo fugisse, pois sabia que os poderes da horda de Trollocs encontrariam um jeito de atravessar o rio. Ainda enquanto a mensagem seguia, a travessia dos Trollocs começou, e os soldados de Manetheren retomaram o combate, para comprar com suas vidas as horas que pudessem a fim de que seu povo escapasse. Da cidade de Manetheren, Eldrene organizou a fuga do povo para as florestas mais fechadas e as montanhas mais longínquas.

“Mas alguns não fugiram. Primeiro num fiozinho, depois num rio, depois num dilúvio, homens acorreram, não para a segurança, mas para se juntar ao exército que combatia por sua terra. Pastores com arcos, fazendeiros com ancinhos e lenhadores com machados. As mulheres também apareceram, carregando as armas que conseguiram encontrar e marchando lado a lado com seus homens. Todos que fizeram aquela jornada sabiam que nunca voltariam. Mas era a terra deles. Fora a terra de seus pais e seria a de seus filhos, e eles foram pagar seu preço. Não se desistiu de um só palmo de terra até que estivesse encharcado de sangue, mas finalmente o exército de Manetheren foi forçado a recuar, até aqui, até este lugar que vocês hoje chamam de Campo de Emond. E aqui as hordas de Trollocs os cercaram.”