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— É verdade — confirmou Perrin enquanto Mat começava:

— Os Trollocs…

— Chega — disse Moiraine baixinho, mas cortou a conversa deles tão afiada quanto uma faca. — Será que mais alguém notou isso? — A voz dela era suave, mas Egwene engoliu em seco e se endireitou antes de responder.

— Depois de ontem à noite, eles todos só conseguem pensar em reconstruir e no que fazer se acontecer novamente. Não conseguiriam ver mais nada, a menos que fosse enfiado bem embaixo de seus narizes. E eu não falei a ninguém sobre minhas suspeitas. Ninguém.

— Muito bem — disse Moiraine depois de um momento. — Você pode vir conosco.

Uma expressão de espanto cruzou o rosto de Lan e desapareceu num instante, deixando-o calmo por fora. No entanto, palavras furiosas explodiram de dentro dele.

— Não, Moiraine!

— Agora faz parte do Padrão, Lan.

— Isso é ridículo! — ele retorquiu. — Não há motivo para ela vir junto, e todos os motivos para ela não vir.

Existe um motivo para isso — disse Moiraine calmamente. — Uma parte do Padrão, Lan. — O rosto pétreo do Guardião não demonstrava nada, contudo ele assentiu lentamente.

— Mas, Egwene — disse Rand —, os Trollocs estão nos caçando. Não ficaremos a salvo até chegarmos a Tar Valon.

— Não tentem me assustar — disse ela. — Eu vou.

Rand conhecia aquele tom de voz. Ele não o ouvia desde que ela decidira que escalar as árvores mais altas era coisa de criança, mas lembrava-se bem dele.

— Se você acha que ser caçada por Trollocs vai ser divertido… — começou ele.

Mas Moiraine o interrompeu:

— Não temos tempo para isso. Precisamos estar o mais longe possível daqui até o amanhecer. Se ela for deixada para trás, Rand, pode despertar a aldeia antes de termos percorrido uma milha, e isso certamente alertaria o Myrddraal.

— Eu não faria isso — protestou Egwene.

— Ela pode ir no cavalo do menestrel — disse o Guardião. — Vou deixar o bastante para que ele compre outro.

— Isso não será possível — disse a voz ressonante de Thom Merrilin, vinda do jirau de feno. A espada de Lan deixou a bainha dessa vez, e ele não tornou a guardá-la ao olhar para o menestrel no alto.

Thom atirou um cobertor enrolado para baixo, depois jogou os estojos da flauta e da harpa nas costas e alforjes enormes nos ombros.

— Esta aldeia agora não tem serventia para mim, e, além disso, eu nunca me apresentei em Tar Valon. E, embora normalmente viaje sozinho, depois de ontem à noite não faço nenhuma objeção a viajar acompanhado.

O Guardião lançou um olhar duro a Perrin, que se mexeu, desconfortável.

— Não me ocorreu olhar no jirau — ele murmurou.

Enquanto o menestrel de pernas compridas descia, célere, a escada do jirau, Lan disse, formal e rígido:

— Isto também faz parte do Padrão, Moiraine Sedai?

— Tudo faz parte do Padrão, meu velho amigo — respondeu Moiraine suavemente. — Não somos nós que escolhemos. Mas veremos.

Thom pôs os pés no chão do estábulo e afastou-se da escada, limpando palha do manto coberto de remendos.

— Na verdade — disse ele num tom mais normal —, pode-se dizer que insisto em viajar acompanhado. Passei muitas horas e muitas canecas de cerveja pensando em como poderia terminar meus dias. O caldeirão de um Trolloc não era uma de minhas opções. — Ele olhou de esguelha para a espada do Guardião. — Não há necessidade disso. Não sou um queijo para você sair fatiando.

— Mestre Merrilin — disse Moiraine —, precisamos ir rápido, e quase certamente em grande perigo. Os Trollocs ainda estão lá fora, e nós viajamos à noite. Tem certeza de que quer ir conosco?

Thom olhou para todos com um sorriso zombeteiro.

— Se não é perigoso demais para a garota não pode ser perigoso demais para mim. Além disso, que menestrel não enfrentaria um perigozinho para se apresentar em Tar Valon?

Moiraine assentiu, e Lan enfiou a espada na bainha. Rand subitamente se perguntou o que teria acontecido se Thom tivesse mudado de ideia ou se Moiraine não tivesse concordado. O menestrel começou a encilhar seu cavalo como se tais pensamentos jamais lhe tivessem passado pela cabeça, mas Rand reparou nele olhando para a espada de Lan mais de uma vez.

— Bem — disse Moiraine —, que cavalo temos para Egwene?

— Os cavalos do mascate são tão ruins quanto os Dhurrans — respondeu com azedume o Guardião. — Fortes, mas andam devagar.

— Bela — disse Rand, recebendo de Lan um olhar que o fez desejar ter ficado calado. Mas sabia que não conseguiria dissuadir Egwene; a única coisa que restava fazer era ajudar. — Bela pode não ser tão veloz quanto os outros, mas é forte. Monto nela às vezes. Ela consegue acompanhar o ritmo.

Lan olhou para a baia de Bela, resmungando entredentes:

— Talvez seja um pouco melhor que os outros — disse ele finalmente. — Acho que não temos escolha.

— Então ela terá de servir — disse Moiraine. — Rand, ache uma sela para Bela. Depressa, vamos! Já protelamos muito.

Rand escolheu apressadamente uma sela e um cobertor no depósito do estábulo, depois pegou Bela na baia. A égua olhou-o com uma surpresa sonolenta quando ele pôs a sela em suas costas. Quando ele a cavalgava, era em pelo; ela não estava acostumada à sela. Ele emitiu sons tranquilizadores enquanto apertava a correia, e ela aceitou aquele ato estranho sem fazer nada além de balançar a crina.

Tirando a trouxa de Egwene das mãos dela, ele a amarrou atrás da sela enquanto ela montava e ajustava as saias. Como estas não eram divididas para montar, suas meias de lã ficaram à mostra até o joelho. Ela calçava os mesmos sapatos de couro macio que todas as outras garotas da aldeia, nem um pouco adequados para viajar até a Colina da Vigília, muito menos até Tar Valon.

— Ainda acho que você não deveria vir — ele disse. — Eu não estava inventando aquilo sobre os Trollocs. Mas prometo que vou tomar conta de você.

— Talvez eu tome conta de você — respondeu ela com irreverência. Diante do olhar exasperado de Rand ela sorriu e se curvou para alisar seus cabelos. — Sei que vai cuidar de mim, Rand. Nós vamos cuidar um do outro. Mas agora é melhor você tratar de montar no seu cavalo.

Rand se deu conta de que todos os demais já estavam montados e esperando por ele. O único cavalo sem cavaleiro era Nuvem, um tordilho alto de crina e cauda pretas que pertencia a Jon Thane, ou pertencera. Ele subiu na sela, embora não sem certa dificuldade, pois o tordilho começou a virar a cabeça e andar de lado quando Rand pôs o pé no estribo, e a bainha da espada prendeu em suas pernas. Não fora por acaso que seus amigos não haviam escolhido Nuvem. Mestre Thane frequentemente colocava o veloz tordilho para correr contra os cavalos dos mercadores, e até onde Rand sabia ele nunca perdera; por outro lado, também nunca soubera de Nuvem sendo fácil para seus cavaleiros. Lan devia ter oferecido um valor alto para fazer o moleiro vendê-lo. Quando se ajeitou na sela, a dança de Nuvem aumentou, como se o tordilho estivesse ansioso para correr. Rand agarrou as rédeas com firmeza e tentou pensar que não teria problemas. Talvez, convencendo a si mesmo, conseguisse convencer também o cavalo.

Uma coruja piou na noite lá fora, e os aldeões do grupo se assustaram antes de saber o que era. Riram de nervoso e trocaram olhares envergonhados.

— Da próxima, camundongos-do-mato vão nos fazer trepar em árvores — disse Egwene com um riso inseguro.

Lan balançou a cabeça.

— Melhor que tivessem sido lobos.

— Lobos! — exclamou Perrin, e o Guardião lhe dirigiu um olhar sem expressão.

— Lobos não gostam de Trollocs, ferreiro, e Trollocs não gostam de lobos, nem tampouco de cães. Se eu ouvisse lobos, teria certeza de que não havia Trollocs à nossa espera lá fora. — Ele saiu na noite enluarada, conduzindo lentamente seu grande cavalo preto.