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Moiraine o seguiu sem nenhuma hesitação, e Egwene esforçou-se para manter-se ao lado da Aes Sedai. Rand e o menestrel iam na retaguarda, atrás de Mat e Perrin.

Os fundos da estalagem estavam escuros e silenciosos, e as sombras criadas pelo luar pintalgavam o pátio do estábulo. O ruído surdo e suave dos cascos desaparecia rapidamente, engolido pela noite. Na escuridão o manto do Guardião também fazia dele uma sombra. Somente a necessidade de deixá-lo ir na frente evitava que os outros se aglomerassem ao seu redor. Sair da aldeia sem serem vistos não ia ser tarefa fácil, deduziu Rand ao se aproximar do portão. Pelo menos, sem serem vistos pelos aldeões. Muitas janelas na aldeia emitiam uma luz amarela baça, e embora esses brilhos parecessem muito pequenos na noite, formas se moviam frequentemente dentro delas, vultos de aldeões aguardando para ver o que aquela noite lhes reservava. Ninguém queria ser apanhado de surpresa novamente.

Nas sombras profundas ao lado da estalagem, já prestes a deixar o pátio do estábulo, Lan se deteve de súbito, com um gesto brusco pedindo silêncio.

Botas ecoaram na Ponte das Carroças, e aqui e ali o luar reluzia em metal. As botas retiniam por toda a ponte, raspavam no cascalho e se aproximavam da estalagem. Nenhum som vinha dos que estavam nas sombras. Rand suspeitou que seus amigos, pelo menos, estavam assustados demais para fazer barulho. Como ele.

Os passos pararam diante da estalagem, na escuridão logo além da luz baça das janelas do salão. Somente quando Jon Thane deu um passo à frente, uma lança apoiada em seu ombro robusto, um velho colete quase estourando de apertado com discos de aço costurados no peito, foi que Rand viu quem eram. Uma dúzia de homens da aldeia e das fazendas ao redor, alguns usando capacetes ou peças de armadura que haviam ficado por gerações cobertos de poeira em sótãos, todos carregando uma lança, um machado ou uma foice enferrujada.

O moleiro espiou por uma janela do salão da estalagem, e então se virou com um seco: “Parece tudo bem por aqui.” Os outros formaram duas fileiras mal alinhadas atrás dele, e a patrulha marchou pela noite como se andasse ao som de três tambores diferentes.

— Dois Trollocs Dha’vol comeriam esses aí todos no café da manhã — Lan resmungou quando o som das botas deles se extinguiu —, mas eles têm olhos e ouvidos. — Deu a volta com seu garanhão. — Vamos.

Lenta e silenciosamente, o Guardião os levou de volta pelo pátio do estábulo, descendo a margem por entre os salgueiros e entrando no Rio Fonte de Vinho. Tão perto da Fonte de Vinho, a água fria e veloz, brilhando enquanto turbilhonava por entre as patas dos cavalos, era funda o bastante para bater na sola das botas dos cavaleiros.

Escalando a outra margem, a fileira de cavalos seguiu o caminho, sob a direção segura do Guardião, mantendo-se distante das casas da aldeia. De tempos em tempos Lan parava, fazendo sinais a todos para que ficassem quietos, embora ninguém mais ouvisse ou visse nada. A cada vez que ele fazia isso, entretanto, outra patrulha de aldeões e fazendeiros num instante passava. Lentamente eles se encaminharam na direção do limite norte da aldeia.

Rand espiou as casas de telhado alto no escuro, tentando gravá-las na memória. Que belo aventureiro eu sou, ele pensou. Ainda não havia nem sequer saído da aldeia e já estava com saudades de casa. Mas não deixou de olhar.

Eles ultrapassaram as últimas casas de fazenda nos arredores da aldeia e entraram no campo, andando paralelamente à Estrada do Norte que levava a Barca do Taren. Rand pensou que seguramente nenhum céu noturno em nenhum lugar poderia ser tão bonito quanto o céu nos Dois Rios. A escuridão límpida parecia se estender eternamente, e miríades de estrelas brilhavam como pontos de luz espalhados por um cristal. A lua, faltando apenas uma fina fatia para ficar inteiramente cheia, parecia quase perto o bastante para que se pudesse tocá-la com a mão, se ele se esticasse, e…

Uma forma negra atravessou devagar a bola prateada da lua. Rand puxou involuntariamente as rédeas e deteve o tordilho. Um morcego, pensou sem muita convicção, mas sabia que não era. Morcegos eram algo normal de se ver à noite, perseguindo moscas e outros petiscos ao crepúsculo. As asas que carregavam aquela criatura podiam ter a mesma forma, mas tinham o movimento amplo, lento e poderoso de uma ave de rapina. E estava caçando. A maneira como voava para um lado e para outro em longos arcos não deixava dúvidas. O pior de tudo era o tamanho. Para um morcego parecer tão grande contra a lua, teria de estar quase ao alcance da mão. Tentou calcular em sua mente a que distância ele deveria estar, e qual o seu tamanho. O corpo deveria ser tão grande quanto o de um homem, e as asas… A criatura tornou a cruzar a face da lua, descendo subitamente e sendo engolido pela noite.

Ele não percebeu que Lan havia cavalgado de volta para onde ele estava até o Guardião segurar seu braço.

— O que está olhando aí parado, garoto? Precisamos continuar. — Os outros esperavam atrás de Lan.

Quase esperando que lhe dissessem que ele estava deixando o medo pelos Trollocs tomar conta de seus sentidos, Rand contou o que tinha visto. Torceu para que Lan descartasse suas observações e atribuísse a aparição a um morcego ou a um truque de seus olhos.

Lan grunhiu uma palavra, como se ela lhe deixasse um gosto ruim na boca.

— Draghkar. — Egwene e os outros companheiros dos Dois Rios olharam nervosos para o céu em todas as direções, mas o menestrel gemeu baixinho.

— Sim — disse Moiraine. — É demais esperar outra coisa. E se o Myrddraal tem um Draghkar ao seu comando, então ele logo saberá onde estamos, se é que já não sabe. Precisamos seguir mais rápido do que nos é possível pelo campo. Ainda podemos chegar a Barca do Taren antes do Myrddraal, e ele e seus Trollocs não atravessarão com a mesma facilidade que nós.

— Um Draghkar? — perguntou Egwene. — O que é isso?

Foi Thom Merrilin quem respondeu, a voz rouca:

— Na guerra que acabou com a Era das Lendas, coisas piores que Trollocs e Meios-homens foram criadas.

A cabeça de Moiraine virou-se bruscamente enquanto ele falava. Nem mesmo a escuridão pôde esconder a intensidade de seu olhar.

Antes que qualquer um pudesse perguntar mais coisas ao menestrel, Lan pôs-se a dar instruções:

— Agora vamos pegar a Estrada do Norte. Por suas vidas, sigam-me, mantenham o ritmo e fiquem juntos.

Ele deu meia-volta com seu cavalo, e os outros galoparam atrás dele sem dizer uma palavra.

11

A Estrada para Barca do Taren

Na terra batida da Estrada do Norte, os cavalos se alongavam, caudas e crinas ondulando para trás ao luar enquanto corriam para norte, os cascos marcando um ritmo constante. Lan ia à frente, o cavalo negro e o cavaleiro envolto em sombras quase invisíveis na noite fria. A égua branca de Moiraine, acompanhando o garanhão passo a passo, era um dardo pálido em disparada pela escuridão. O resto seguia numa linha firme, como se estivessem todos atados a uma corda com uma ponta nas mãos do Guardião.

Rand galopava por último na fila, com Thom Merrilin logo à sua frente e os outros menos visíveis mais adiante. O menestrel não virava a cabeça, reservando os olhos para onde eles corriam, não para aquilo de que estavam correndo. Se Trollocs aparecessem por trás, ou o Desvanecido em seu cavalo silencioso, ou aquela criatura voadora, o Draghkar, caberia a Rand soar um alarme.

A cada poucos minutos ele virava o pescoço para olhar para trás enquanto se agarrava à crina e às rédeas de Nuvem. O Draghkar… Pior que Trollocs e Desvanecidos, dissera Thom. Mas o céu estava vazio, e seus olhos encontravam somente a escuridão e as sombras no solo. Sombras que podiam ocultar um exército.

Agora que o tordilho havia sido deixado livre para correr, o animal disparava pela noite como um fantasma, acompanhando facilmente o ritmo do garanhão de Lan. E Nuvem queria ir ainda mais rápido. Rand tinha de ter a mão firme nas rédeas para contê-lo. Nuvem forçava o bridão como se achasse que aquilo era uma corrida, lutando contra ele pelo domínio a cada passo. Rand se agarrava à sela e às rédeas com cada músculo. Torcia fervorosamente para que sua montaria não percebesse o quanto estava apreensivo. Se isso acontecesse, ele perderia a única vantagem, ainda que precária, que possuía.