Quase deitado no pescoço de Nuvem, Rand olhava preocupado para Bela e sua amazona. Quando dissera que a égua peluda podia acompanhar os outros, não quisera dizer naquele galope. Ela só conseguia segui-los correndo de um jeito que ele não achava que ela fosse capaz. Lan não quisera Egwene entre eles. Será que ele diminuiria a velocidade por causa dela se Bela começasse a fraquejar? Ou tentaria deixá-la para trás? A Aes Sedai e o Guardião achavam que Rand e seus amigos eram importantes de alguma forma, mas, apesar de toda a conversa de Moiraine sobre o Padrão, ele não achava que incluíssem Egwene nessa importância.
Se Bela ficasse para trás, ele também ficaria, independentemente do que Moiraine e Lan tivessem a dizer a respeito. Para trás, onde o Desvanecido e os Trollocs estavam. Para trás, onde o Draghkar estava. Com todo seu coração e desespero, ele gritou em silêncio para Bela correr como o vento, tentou silenciosamente instilar força nela. Corra! Sua pele se arrepiou, e ele teve a impressão de que seus ossos estavam congelando, prontos para rachar ao meio. Que a Luz a ajude! Corra! E Bela correu.
Sempre em frente eles disparavam, para o norte noite adentro, o tempo desaparecendo num borrão indistinto. De quando em quando surgiam luzes de casas de fazenda, e então desapareciam com a rapidez da imaginação. Os latidos desafiadores dos cães ficavam rapidamente para trás ou eram interrompidos de súbito quando os cães concluíam que haviam afugentado os intrusos. Os cavaleiros disparavam, atravessando a escuridão aliviada somente pela luz pálida e aguada do luar, uma escuridão onde árvores surgiam sem aviso ao longo da estrada e depois desapareciam. De resto, a penumbra os cercava, e apenas o pio de um solitário pássaro noturno, isolado e tristonho, perturbava o ritmo constante dos cascos.
Bruscamente Lan reduziu a velocidade e fez a fileira de cavalos parar. Rand não tinha certeza de quanto tempo fazia que estavam cavalgando, mas uma leve dor tomava suas pernas de tanto se agarrar à sela. À frente deles na noite, luzes tremeluziram, como se houvesse um enxame enorme de vaga-lumes entre as árvores.
Rand franziu a testa, intrigado, e então subitamente arquejou de surpresa. Os vaga-lumes eram janelas, as janelas das casas que cobriam as laterais e o topo de uma colina. Ali era a Colina da Vigília. Ele mal conseguia acreditar que houvessem chegado tão longe. Provavelmente nunca ninguém havia feito aquela jornada tão rápido quanto eles. Seguindo o exemplo de Lan, Rand e Thom Merrilin desmontaram. Nuvem ficou parado, de cabeça baixa, os flancos subindo e descendo. Uma espuma, quase indistinta nos flancos cor de fumaça do cavalo, pontilhava aqui e ali o pescoço e os ombros do tordilho. Rand pensou que Nuvem não carregaria mais ninguém naquela noite.
— Por mais que eu queira deixar todas essas aldeias para trás — anunciou Thom —, algumas horas de descanso não fariam mal agora. Decerto temos dianteira suficiente para fazer isso, não é?
Rand esticou-se, massageando as costas.
— Se vamos parar pelo resto da noite na Colina da Vigília, bem que poderíamos ir à aldeia.
Uma rajada de vento errante trouxe um fragmento de canção da aldeia, e aromas de comida fizeram sua boca encher-se d’água. Eles ainda estavam celebrando na Colina da Vigília. Não houvera Trollocs perturbando o Bel Tine deles. Rand procurou por Egwene. Ela estava escorada em Bela, curvada de cansaço. Os outros estavam desmontando também, com muitos suspiros, alongando os músculos doloridos. Apenas o Guardião e a Aes Sedai não demonstravam sinal visível de fadiga.
— Eu bem que gostaria de um pouco de cantoria — acrescentou Mat, cansado. — E quem sabe uma fatia de torta de carneiro quentinha no Javali Branco. — Fazendo uma pausa, acrescentou: — Nunca fui além da Colina da Vigília. O Javali Branco não chega nem perto da Estalagem Fonte de Vinho.
— O Javali Branco não é tão ruim — disse Perrin. — Uma torta de carneiro para mim também. E muito chá quente para tirar a friagem dos meus ossos.
— Não podemos parar até cruzarmos o Taren — disse Lan bruscamente. — Não por mais de alguns minutos.
— Mas os cavalos — protestou Rand. — Vamos matá-los de tanto cavalgar se tentarmos avançar mais esta noite. Moiraine Sedai, certamente você…
Ele havia notado vagamente que ela estivera caminhando entre os cavalos, mas não havia prestado atenção ao que fazia. Ela passou por ele e pousou as mãos no pescoço de Nuvem. Rand ficou em silêncio. Subitamente o cavalo jogou a cabeça para trás com um relincho suave, quase arrancando as rédeas da mão de Rand. O tordilho dançou num passo para o lado, descansado como se tivesse passado uma semana num estábulo. Sem dizer uma só palavra, Moiraine foi até Bela.
— Eu não sabia que ela podia fazer isso — disse Rand baixinho para Lan, o rosto quente.
— Você, de todas as pessoas, deveria ter suspeitado disso — replicou o Guardião. — Você a viu com seu pai. Ela levará toda a fadiga embora. Primeiro dos cavalos, depois de vocês.
— De nós. De você não?
— Não de mim, pastor. Eu não preciso, ainda não. E nem dela. O que ela pode fazer por outros não pode fazer por si. Somente um de nós cavalgará cansado. É melhor torcer para que ela não fique cansada demais antes de chegarmos a Tar Valon.
— Cansada demais para quê? — Rand perguntou ao Guardião.
— Você tinha razão quanto à sua Bela, Rand — disse Moiraine de onde estava, em pé ao lado da égua. — Ela tem um bom coração, e é tão teimosa quanto o resto de vocês, gente dos Dois Rios. Por estranho que pareça, ela é a menos cansada de todos.
Um grito rasgou a escuridão, como se viesse de um homem morrendo sob o ataque de facas afiadas, e asas deram um voo rasante sobre o grupo. Com gritos de pânico, os cavalos empinaram selvagemente.
O vento das asas do Draghkar atingiu Rand com uma sensação semelhante ao toque de algo gosmento, como um tremor na penumbra úmida de um pesadelo. Ele não teve tempo sequer de sentir medo, pois Nuvem explodiu no ar com um grito próprio, contorcendo-se desesperadamente como se tentasse se livrar de algo que o agarrava. Rand, segurando-se às rédeas, foi derrubado e arrastado, o grande tordilho gritando como se sentisse lobos dilacerando seus flancos.
De algum modo Rand conseguiu manter-se agarrado às rédeas; usando tanto a outra mão quanto as pernas, ele conseguiu ficar de pé, cambaleando e saltando para evitar cair novamente. Sua respiração era ofegante, desesperada. Não podia deixar Nuvem fugir. Estendeu uma das mãos freneticamente, não deixando a rédea escapar por um triz. Nuvem empinou, erguendo-o no ar; Rand se agarrou, indefeso, torcendo sem esperança que o cavalo se aquietasse.
O choque de voltar ao chão abalou Rand até os dentes, mas subitamente o tordilho parou, as narinas resfolegando e os olhos revirando, tremendo, as pernas rígidas. Rand também tremia, quase soltando as rédeas. Esse solavanco deve ter abalado esse bicho tolo também, pensou. Ele respirou bem fundo, estremecendo, umas três ou quatro vezes. Só então conseguiu olhar ao redor e ver o que havia acontecido aos outros.
O caos reinava no grupo. Eles seguravam as rédeas contra cabeças que sacudiam, tentando com pouco sucesso acalmar os cavalos, que empinavam e os arrastavam num pandemônio. Aparentemente, apenas dois deles não estavam tendo problema com suas montarias. Moiraine encontrava-se sentada ereta em sua sela, a égua branca afastando-se delicadamente da confusão como se nada fora do comum tivesse acontecido. Desmontado, Lan vasculhava o céu, espada numa das mãos e rédeas na outra, o esguio garanhão preto parado quieto ao seu lado.