Os sons de alegria e festa não vinham mais da Colina da Vigília. As pessoas na aldeia também deviam ter ouvido o grito. Rand sabia que eles iriam apurar os ouvidos por um tempo, e talvez procurar ver o que havia provocado isso, e depois retornando às suas festividades. Logo eles esqueceriam o incidente, a lembrança submersa pela canção, pela comida, pela dança e pela alegria. Talvez, quando ouvissem a notícia do que havia acontecido em Campo de Emond, alguns se lembrassem e se perguntassem. Uma rabeca começou a tocar, e depois de um momento uma flauta se juntou a ela. A aldeia estava retomando sua celebração.
— Montem! — Lan ordenou secamente. Embainhando a espada, pulou em cima do garanhão. — O Draghkar não teria se revelado a menos que já tivesse relatado nosso paradeiro para o Myrddraal. — Outro grito agudo e estridente veio do alto, muito distante, mais fraco, mas não menos assustador. A música que vinha da Colina da Vigília parou uma vez mais. — Está nos rastreando agora, nos marcando para o Meio-homem. Ele não deve estar longe.
Os cavalos, agora tanto descansados quanto apavorados, empinavam e recuavam, afastando-se dos que tentavam montá-los. Thom Merrilin, praguejando, foi o primeiro a montar, mas os outros o acompanharam logo em seguida. Todos, menos um.
— Depressa, Rand! — gritou Egwene. O grito agudo do Draghkar soou novamente, e Bela correu alguns passos antes que ela conseguisse puxar as rédeas. — Depressa!
Com um sobressalto, Rand percebeu que, em vez de tentar montar Nuvem, ele havia ficado ali parado, olhando para o céu numa tentativa vã de localizar a fonte daqueles gritos tenebrosos. E mais: sem se dar conta, ele havia puxado a espada de Tam como se fosse combater a coisa voadora.
Seu rosto ficou vermelho, e ele sentiu-se agradecido pela noite que o ocultava. Desajeitado, com uma das mãos ocupada pelas rédeas, tornou a embainhar a lâmina, olhando apressadamente para os outros. Moiraine, Lan e Egwene o fitavam, embora ele não pudesse ter certeza do quanto podiam ver ao luar. O restante do grupo parecia concentrado demais em manter seus cavalos sob controle para prestar atenção nele. Rand pôs uma das mãos no punho da espada e alcançou a sela num salto, como se tivesse feito isso a vida inteira. Se algum de seus amigos havia notado a espada, ele certamente teria de ouvir por isso depois. Haveria tempo suficiente para se preocupar com aquilo mais tarde.
Assim que ele se viu na sela, todos dispararam a galope novamente, subindo a estrada e a colina em forma de cúpula. Cães latiram na aldeia; a passagem deles não foi inteiramente ignorada. Ou talvez os cães estivessem farejando Trollocs, pensou Rand. Os latidos e as luzes da aldeia desapareceram rapidamente atrás deles.
Galopavam em um grupo compacto, os cavalos quase se esbarrando durante a carreira. Lan ordenou que se espalhassem novamente, mas ninguém queria ficar nem mesmo um pouco sozinho na noite. Um grito veio lá do alto. O Guardião cedeu e deixou que todos corressem aglomerados.
Rand estava logo atrás de Moiraine e Lan, o tordilho forçando para meter-se entre o preto do Guardião e a égua esguia da Aes Sedai. Egwene e o menestrel ladeavam-no, enquanto os amigos de Rand se aglomeravam atrás. Nuvem, incitado pelos gritos do Draghkar, disparava, e não havia nada que Rand pudesse fazer para diminuir sua velocidade, mesmo que quisesse, e no entanto o tordilho não conseguia ganhar um passo sequer em relação aos dois outros cavalos.
O grito do Draghkar desafiava a noite.
A robusta Bela corria com o pescoço esticado, cauda e crina voando ao vento de seu galope, acompanhando cada passo dos cavalos maiores. A Aes Sedai deve ter feito mais do que simplesmente livrá-la da fadiga.
O rosto de Egwene sorria ao luar, encantado e empolgado. Sua trança voava atrás, como a crina dos cavalos, e o brilho no olhar dela não se devia inteiramente à lua, Rand tinha certeza. Sua boca escancarou-se, surpreso, até engolir um inseto que o fez começar a tossir.
Lan devia ter feito alguma pergunta, pois Moiraine subitamente gritou acima do vento e do tropel dos cascos.
— Não posso! Ainda mais das costas de um cavalo a galope. Eles não são fáceis de matar, mesmo quando podem ser vistos. Precisamos correr e torcer.
Eles galoparam por uma neblina rala, que não passava da altura dos joelhos dos cavalos. Nuvem a atravessou em dois passos, e Rand piscou, perguntando-se se a teria imaginado. Certamente a noite estava fria demais para que houvesse neblina. Mais um trecho de cinza rarefeito passou por eles de um lado, maior que o primeiro. Estava aumentando, como se a neblina brotasse do chão. Acima deles, o Draghkar gritou de fúria. A neblina envelopou os cavaleiros por um breve momento e desapareceu, voltou e sumiu outra vez. A névoa gelada deixou uma umidade fria no rosto e nas mãos de Rand. Então, uma muralha cinza-clara assomou adiante, e eles foram subitamente envolvidos. Sua densidade abafava o som dos cascos, e os gritos vindos do alto pareciam soar do outro lado de uma parede. Rand mal conseguia distinguir as formas de Egwene e Thom Merrilin, um de cada lado.
Lan não reduziu o ritmo.
— Só podemos estar indo para um lugar — ele gritou, sua voz soando oca e sem direção.
— Os Myrddraal são astutos — replicou Moiraine. — Vou usar sua própria astúcia contra eles. — Galoparam em silêncio.
Uma neblina cor de ardósia obscureceu tanto o céu quanto o chão, de forma que os próprios cavaleiros, eles mesmos transformados em sombras, pareceram flutuar entre nuvens noturnas. Até as patas de seus cavalos pareciam ter desaparecido.
Rand mudou de posição na sela, encolhendo-se e tentando esquivar-se à neblina gelada. Saber o que Moiraine podia fazer, até mesmo vê-la em ação, era uma coisa; ter aquilo deixando uma umidade em sua pele era outra inteiramente diferente. Ele percebeu que estava contendo a respiração também, e chamou a si mesmo de idiota. Não podia cavalgar até Barca do Taren sem respirar. Ela havia usado o Poder Único em Tam, e ele parecia bem. Mesmo assim, Rand teve de se obrigar a soltar o ar e respirar. O ar era pesado, mas, ainda que mais frio, não era diferente do de qualquer outra noite de neblina. Disse isso a si mesmo, mas não tinha certeza de que acreditava.
Lan os incentivou a ficarem próximos, a ficarem onde cada um pudesse ver a silhueta dos outros naquele cinza úmido e gelado. No entanto, nem assim o Guardião abrandou a corrida mortal de seu garanhão. Lado a lado, Lan e Moiraine lideravam em meio à neblina como se conseguissem ver claramente o que jazia adiante. O restante só podia confiar e seguir. E torcer.
Os gritos agudos que os haviam caçado foram desaparecendo enquanto eles galopavam, e então sumiram, mas isso não lhes deu muito consolo. Floresta e casas de fazenda, lua e estrada estavam encobertas e ocultas. Cães ainda latiam, latidos ocos e distantes na névoa cinza, quando eles passavam por fazendas, mas não havia outro som que não o tamborilar surdo dos cascos de seus cavalos. Nada naquela neblina acinzentada e inexpressiva mudava. Nada dava qualquer pista da passagem do tempo, exceto a crescente dor nas costas e nas pernas.
Rand tinha certeza de que deviam ter se passado horas. Suas mãos haviam agarrado as rédeas até ele não ter mais certeza de que poderia soltá-las, e ele se perguntava se um dia voltaria a andar direito. Só olhou para trás uma vez. Sombras na neblina corriam atrás dele, mas não podia sequer ter certeza do número delas. Ou sequer de que fossem mesmo seus amigos. A friagem e a umidade penetravam em seu manto, casaco e camisa, encharcavam-lhe os ossos, ou pelo menos assim parecia. Apenas o ar que passava por seu rosto em rajadas e o movimento do cavalo abaixo dele lhe diziam que estava se deslocando. Deviam ter se passado horas.
— Devagar — gritou Lan subitamente. — Puxar rédeas.