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Um feroz “Hsst!” veio de Lan, tão agudo quanto a neblina. O Guardião fez um gesto para ele e correu para o lado de Perrin, abrindo o manto do jovem parrudo e expondo o machado. Obedientemente, mesmo que ainda sem entender, Rand jogou seu próprio manto por cima do ombro para deixar a espada à mostra. Quando Lan recuou rapidamente para seu cavalo, luzes flutuantes apareceram na neblina, e passos abafados se aproximaram.

Seis homens de rosto severo e roupas rústicas seguiam Mestre Torrealta. As tochas que eles carregavam queimavam a neblina, abrindo uma clareira ao redor. Quando pararam, todo o grupo de Campo de Emond podia ser visto com clareza, o grupo inteiro cercado por uma muralha cinzenta que parecia mais espessa pelo fato de a luz das tochas refletir-se nela. O barqueiro os examinou, a cabeça estreita inclinada, o nariz tremendo como uma doninha farejando a brisa em busca de uma armadilha.

Lan se inclinou contra a sela com aparente casualidade, mas uma das mãos repousava visivelmente sobre o longo punho de sua espada. Havia nele um quê de mola de metal, comprimida, à espera.

Rand apressou-se em copiar a pose do Guardião — pelo menos o gesto de pôr a mão na espada. Não achou que conseguiria aquela pose ameaçadora. Eles provavelmente ririam se eu tentasse.

Perrin afrouxou o machado no laço de couro e plantou os pés deliberadamente. Mat levou a mão à sua aljava, embora Rand não tivesse certeza de em que condição a corda do arco se encontrava depois de ficar exposta a toda aquela umidade. Thom Merrilin avançou grandiosamente e estendeu a mão vazia, girando-a lentamente. De repente ele fez um gesto com um floreio, e um punhal surgiu entre seus dedos. O cabo quicou em sua palma e, com uma súbita indiferença, Thom começou a aparar as unhas com a arma.

Uma risada baixa e deliciada partiu de Moiraine. Egwene bateu palmas como se estivesse assistindo a uma exibição no Festival, então parou, parecendo envergonhada, embora sua boca se contraísse num sorriso ainda assim.

Torrealta não parecia estar achando graça nenhuma. Ele encarou Thom, depois limpou a garganta ruidosamente.

— Mencionaram que haveria mais ouro para a travessia. — Ele correu os olhos por eles novamente, um olhar sombrio e astuto. — O que você me deu antes está num lugar seguro agora, ouviu? Onde nenhum de vocês pode pegar.

— O restante do ouro — disse-lhe Lan — vai para sua mão quando estivermos do outro lado. — A bolsa de couro pendurada em sua cintura tilintou quando ele a balançou um pouco.

Por um momento os olhos do barqueiro dardejaram, mas finalmente ele assentiu.

— Então vamos logo com isso — ele resmungou e dirigiu-se para o cais acompanhado por seus seis ajudantes. A neblina se desfazia ao redor deles quando se moviam; tentáculos cinza voltavam a se fechar às suas costas, preenchendo rapidamente o espaço onde haviam estado. Rand apressou-se para acompanhá-los.

A barca propriamente dita era uma barcaça de madeira com amuradas altas, na qual se embarcava através de uma rampa que podia ser elevada para bloquear a extremidade. Cabos da grossura do pulso de um homem percorriam cada lateral, amarrados em postes maciços na extremidade do cais e desaparecendo na noite sobre o rio. Os ajudantes do barqueiro enfiaram suas tochas em suportes de ferro nas laterais da barca, esperaram enquanto todos conduziam seus cavalos a bordo, depois puxaram a rampa. O convés rangeu sob cascos e pés, e a barca se deslocou com o peso.

Torrealta resmungava entredentes, grunhindo para que eles segurassem firme os cavalos e se mantivessem no centro, fora do caminho dos puxadores. Ele gritava com seus ajudantes, chamando-lhes a atenção enquanto preparavam a barca para a travessia, mas os homens se moviam com a mesma velocidade relutante independentemente do que ele dizia, e ele mesmo não parecia muito convicto, frequentemente se interrompendo no meio do grito para erguer a tocha mais alto e espiar a neblina. Por fim, parou de gritar de vez e dirigiu-se à proa, onde ficou olhando para a névoa que cobria o rio. Ele não se moveu até que um dos puxadores tocou seu braço. Então, deu um pulo, fuzilando o homem com o olhar.

— O que foi? Ah, é você? Prontos? Já era hora. Bem, homem, o que está esperando? — Ele agitava os braços, sem prestar atenção na tocha e no jeito como os cavalos relinchavam e tentavam se afastar. — Levantar âncora! Vamos! Mexam-se! — O homem se foi, arrastando-se, para obedecer às ordens, e Torrealta tornou a espiar mais uma vez a neblina à sua frente, esfregando a mão livre, inquieto, na frente do casaco.

A barca levou um tranco quando as amarras foram soltas e a corrente forte a apanhou, e em seguida veio outro solavanco quando os cabos-guia a seguraram. Os puxadores, três de cada lado, seguraram firme os cabos na frente da barca e começaram a caminhar laboriosamente na direção da popa, resmungando, preocupados, enquanto começavam a deslizar no rio coberto pelo manto cinza.

O cais desapareceu quando a neblina os cercou, tênues feixes de luz cruzando a barca entre as tochas tremeluzentes. A barca balançava lentamente na corrente. Nada, a não ser o passo firme dos puxadores, indo para a frente para segurar os cabos e novamente para trás puxando, dava uma pista de qualquer outro movimento. Ninguém falava. Os aldeões mantinham-se o mais perto possível do centro da barca. Eles tinham ouvido falar que o Taren era bem mais largo do que os riachos aos quais estavam acostumados; a neblina o tornava infinitamente mais vasto em suas mentes.

Depois de algum tempo, Rand aproximou-se de Lan. Rios em que um homem não podia cruzar a pé, nem a nado, nem mesmo ver o outro lado enervavam qualquer um que nunca vira nada maior nem mais fundo que um lago na Floresta das Águas.

— Será que eles realmente teriam tentado nos roubar? — ele perguntou baixinho. — Parecia mais estar com medo de que nós fôssemos roubá-lo.

O Guardião olhou para o barqueiro e seus ajudantes, nenhum dos quais parecia estar escutando, antes de responder no mesmo tom de voz.

— Com a neblina para ocultá-los… Bem, quando o que fazem permanece escondido, os homens às vezes lidam com estranhos como não o fariam quando há outros olhos para ver. E os mais propensos a ferir um estranho são os que pensam mais facilmente que um estranho vai machucá-los. Esse sujeito… Acredito que poderia vender a própria mãe para Trollocs fazerem um cozido se fosse por um bom preço. Estou até surpreso por você perguntar. Ouvi o jeito como a gente de Campo de Emond fala do povo de Barca do Taren.

— Sim, mas… Bem, todo mundo diz que eles… Mas eu nunca achei que fossem mesmo… — Rand decidiu que era melhor parar de pensar que sabia alguma coisa a respeito de como as pessoas eram além de sua própria aldeia. — Ele pode contar ao Desvanecido que atravessamos na barca — disse finalmente. — Talvez traga os Trollocs atrás de nós.

Lan deu uma risada seca.

— Roubar um estranho é uma coisa, lidar com um Meio-homem é outra inteiramente diferente. Você consegue vê-lo transportando Trollocs na barca, especialmente nesta neblina, não importa quanto ouro fosse oferecido? Ou mesmo falando com um Myrddraal, se pudesse evitar? Só pensar nisso o faria correr por um mês. Não acho que precisemos nos preocupar muito com Amigos das Trevas em Barca do Taren. Não aqui. Estamos a salvo… por enquanto, pelo menos. Deste grupo, pelo menos. Cuidado.

Torrealta havia parado de observar a neblina à frente e se virado. Com o rosto pontudo projetado à frente e a tocha bem levantada, ele encarou Lan e Rand como se os visse com clareza pela primeira vez. As tábuas do convés rangiam sob os pés dos puxadores e a batida ocasional de um casco. De repente o barqueiro estremeceu ao perceber que eles o estavam vendo observá-los. Com um salto ele girou, voltando a perscrutar a margem oposta, ou fosse lá o que ele estivesse procurando na neblina.

— Não diga mais nada — disse Lan tão baixinho que Rand quase não entendeu. — Estes são tempos ruins para se falar de Trollocs, ou de Amigos das Trevas, ou do Pai das Mentiras, com ouvidos estranhos por perto. Esse tipo de conversa pode trazer coisas piores do que a Presa do Dragão rabiscada em sua porta.