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Como se o movimento do Guardião tivesse afrouxado alguma coisa em seu peito, Rand respirou fundo. Ouviu outros fazerem o mesmo, até mesmo Thom, e lembrou-se de um velho ditado: melhor cuspir no olho de um lobo do que irritar uma Aes Sedai. Mas a tensão havia diminuído. Moiraine não estava se avultando sobre ninguém; ela mal chegava à altura de seu peito.

— Não creio que a gente possa descansar um pouquinho, não é? — perguntou Perrin, esperançoso, terminando com um bocejo. Egwene, encostada em Bela, suspirou, cansada.

Era o primeiro som que se assemelhava mesmo remotamente com uma reclamação que Rand ouvia dela. Talvez agora ela perceba que esta não é nenhuma aventura grandiosa afinal. Então lembrou-se, culpado, de que, ao contrário dele, ela não havia dormido o dia todo.

— Precisamos mesmo descansar, Moiraine Sedai — disse ele. — Afinal, cavalgamos a noite toda.

— Então sugiro vermos o que Lan arranjou para nós — disse Moiraine. — Vamos.

Ela os conduziu margem acima, adentrando a floresta que beirava o rio. Galhos nus tornavam as sombras mais escuras. A umas boas cem braças do Taren eles deram com uma elevação escura ao lado de uma clareira. Ali, havia muito, uma enchente derrubara um bosque inteiro de folhas-de-couro, transformando-as num grande e espesso emaranhado, uma massa aparentemente sólida de troncos, galhos e raízes. Moiraine parou, e subitamente uma luz surgiu ao nível do chão, vinda de sob a pilha de árvores.

Estendendo um toco de tocha à sua frente, Lan saiu arrastando-se por debaixo do monte e se levantou.

— Nenhum visitante indesejado — disse ele a Moiraine. — E a madeira que deixei ainda está seca, por isso acendi uma pequena fogueira. Vamos descansar aquecidos.

— Você previu que pararíamos aqui? — perguntou Egwene, surpresa.

— Parecia um lugar provável — respondeu Lan. — Gosto de estar preparado, por via das dúvidas.

Moiraine tirou a tocha da mão dele.

— Você cuida dos cavalos? Quando acabar, farei o que puder a respeito do cansaço de todos. Neste momento quero falar com Egwene. Egwene?

Rand observou as duas mulheres se abaixarem e desaparecerem sob a grande pilha de troncos de árvores. Havia uma abertura baixa, pela qual mal dava para entrar engatinhando. A luz da tocha desapareceu.

Lan havia incluído sacos de alimentação com forragem e uma pequena quantidade de cereais nos suprimentos, mas impediu que os outros desarreassem seus cavalos. Em vez disso, apanhou correias de contenção para as patas, que também havia trazido.

— Eles descansariam melhor sem as selas, mas, se precisarmos partir rápido, pode não haver tempo de recolocá-las.

— Não me parece que eles precisem de descanso — disse Perrin enquanto tentava colocar um saco com forragem no focinho de sua montaria. O cavalo sacudiu a cabeça antes de permitir que ele pusesse as correias no lugar. Rand também estava tendo dificuldades com Nuvem, e precisou tentar três vezes antes de conseguir colocar a sacola de lona sobre o focinho do tordilho.

— Precisam, sim — disse-lhes Lan e levantou-se, depois de atar as patas de seu garanhão. — Ah, eles ainda podem correr. Darão tudo de si, se deixarmos, até o segundo em que caírem mortos de exaustão sem nem sentirem. Eu preferia que Moiraine Sedai não tivesse feito o que fez, mas foi necessário. — Ele deu palmadinhas no pescoço do garanhão, e o cavalo balançou a cabeça para cima e para baixo como se concordasse com as palavras do Guardião. — Precisamos ir devagar com eles durante os próximos dias, até que se recuperem. Mais devagar do que eu gostaria. Mas com sorte será o bastante.

— Foi isso o que…? — Mat engoliu em seco de um jeito ruidosamente. — Foi isso o que ela quis dizer? Sobre nosso cansaço?

Rand deu palmadinhas no pescoço de Nuvem e ficou olhando para o nada. Apesar do que ela havia feito por Tam, ele não tinha nenhum desejo de que a Aes Sedai usasse o Poder nele. Luz, ela praticamente admitiu ter afundado a barca.

— Algo assim. — Lan deu uma risada irônica. — Mas vocês não terão de se preocupar em correr até a morte. A não ser que as coisas fiquem bem piores do que já estão. Pense no que ela vai fazer como uma noite a mais de sono.

O grito agudo do Draghkar subitamente ecoou de cima do rio coberto de névoa. Até os cavalos se imobilizaram. O grito tornou a ser ouvido, dessa vez mais próximo, e mais uma vez, perfurando o crânio de Rand como agulhas. Então os gritos começaram a soar mais fracos, até desaparecerem por completo.

— Sorte. — Lan soltou o ar. — O Draghkar está vasculhando o rio à nossa procura. — Ele deu de ombros ligeiramente e assumiu então um tom casual. — Vamos entrar. Um chá quente e alguma coisa para encher a barriga não cairiam nada mal.

Rand foi o primeiro a entrar engatinhando pela abertura no emaranhado de árvores e percorrer um pequeno túnel. Ao fim deste, ele parou, ainda agachado. À sua frente havia um espaço de formato irregular, uma caverna de madeira grande o bastante para abrigar facilmente todos eles. O teto de troncos e galhos era baixo demais para permitir que ficassem de pé, com exceção das mulheres. A fumaça vinda de uma pequena fogueira feita sobre um leito de seixos de rio subia e passava por entre as frestas; a corrente era suficiente para manter o espaço livre de fumaça, mas o emaranhamento era espesso demais para deixar passar até mesmo um vislumbre das chamas. Moiraine e Egwene, os mantos jogados de lado, estavam sentadas de pernas cruzadas, de frente uma para a outra, ao lado do fogo.

— O Poder Único — Moiraine ia dizendo — vem da Fonte Verdadeira, a força que impulsiona a Criação, a força que o Criador gerou para girar a Roda do Tempo. — Ela juntou as mãos à frente do corpo e empurrou-as uma contra a outra. — Saidin, a metade masculina da Fonte Verdadeira, e saidar, a metade feminina, trabalham uma contra a outra e ao mesmo tempo em conjunto para produzir essa força. Saidin — ela ergueu uma das mãos, depois a deixou cair — é maculado pelo toque do Tenebroso, como a água em cuja superfície uma fina película de óleo rançoso flutua. A água ainda é pura, mas não pode ser tocada sem que se toque sua impureza. Somente saidar pode ser usada com segurança. — Egwene estava de costas para Rand. Ele não podia ver-lhe o rosto, mas ela inclinava-se ansiosa para a frente.

Mat cutucou Rand por trás e murmurou alguma coisa, e ele avançou, entrando na caverna de árvores. Moiraine e Egwene ignoraram sua chegada. Os outros homens se amontoaram atrás dele, jogando mantos encharcados no chão, acomodando-se ao redor do fogo e estendendo as mãos para se aquecer. Lan, o último a entrar, tirou bolsas de água e sacos de couro de um nicho na parede, pegou uma chaleira e começou a preparar chá. Não prestava atenção ao que as mulheres estavam falando, mas os amigos de Rand começaram a parar de aquecer as mãos e olharam abertamente para elas. Thom fingia que todo seu interesse estava voltado para encher o fornilho do seu cachimbo esculpido, mas a maneira como ele se inclinava na direção das mulheres o entregava. Moiraine e Egwene agiam como se estivessem sós.

— Não — disse Moiraine em resposta a uma pergunta que Rand havia perdido —, a Fonte Verdadeira não pode ser esgotada, assim como o rio não se esgota pela roda de um moinho. A Fonte é o rio; as Aes Sedai, a roda-d’água.

— E você acha mesmo que eu posso aprender? — perguntou Egwene. Seu rosto brilhava de ansiedade. Rand nunca a tinha visto tão linda, nem tão distante dele. — Eu posso vir a ser uma Aes Sedai?

Rand deu um pulo, batendo a cabeça no teto baixo de troncos. Thom Merrilin agarrou seu braço, puxando-o com força para baixo novamente.

— Não seja tolo — murmurou o menestrel, olhando as mulheres de esguelha. Nenhuma das duas parecia ter notado, e o olhar que ele dirigiu a Rand foi de simpatia. — Isso está além de você agora, garoto.