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— Criança — disse Moiraine gentilmente —, apenas poucas conseguem aprender a tocar a Fonte Verdadeira e usar o Poder Único. Algumas dessas poucas podem aprender num grau mais elevado, outras, num grau menor. Você é uma das pouquíssimas que não precisam aprender. Pelo menos, tocar a Fonte é algo que acontecerá quer você queira, quer não. Sem os ensinamentos que poderá receber em Tar Valon, entretanto, você nunca aprenderá a canalizar esse poder completamente e poderá não sobreviver. Homens que possuem a habilidade nata de tocar saidin morrem, é claro, se a Ajah Vermelha não os encontrar e amansar…

Thom soltou um grunhido fundo na garganta, e Rand mudou de posição, desconfortável. Homens como esses dos quais a Aes Sedai falava eram raros — ele só havia ouvido falar de três em toda a sua vida, e graças à Luz nunca nos Dois Rios —, mas o dano que haviam causado antes que as Aes Sedai os encontrassem era sempre grande o bastante para que as notícias se espalhassem, como as notícias das guerras ou de terremotos que destruíam cidades. Ele jamais conseguira entender o que as Ajahs faziam. Segundo as histórias, tratava-se de sociedades entre as Aes Sedai que pareciam disputar entre si mais que qualquer outra coisa, mas as histórias concordavam em um ponto. A Ajah Vermelha tinha como dever principal impedir outra Ruptura do Mundo, e o fazia caçando cada homem que sequer sonhasse em possuir o Poder Único. Mat e Perrin estavam com cara de quem subitamente queria estar de volta em casa, na cama.

— …mas algumas mulheres morrem também. É difícil aprender sem uma guia. As mulheres que não encontramos, as que sobrevivem, muitas vezes se tornam… Bem, nesta parte do mundo elas podem se tornar a Sabedoria de suas aldeias. — A Aes Sedai fez uma pausa, pensativa. — O sangue antigo é forte em Campo de Emond, e o sangue antigo canta. Eu soube o que você era no instante em que a vi. Nenhuma Aes Sedai consegue estar na presença de uma mulher capaz de canalizar, ou que está perto de sua mudança, e não sentir isso. — Ela remexeu na bolsa em seu cinto e retirou a pequena pedra azul na corrente de ouro que havia usado antes nos cabelos. — Você está muito perto de sua mudança, seu primeiro toque. Será melhor se eu guiá-la durante o processo. Assim você evitará os… efeitos desagradáveis que acometem aquelas que precisam encontrar seu próprio caminho.

Os olhos de Egwene se arregalaram quando ela olhou para a pedra, umedecendo os lábios repetidamente.

— Ela… tem o Poder?

— É claro que não — disse Moiraine bruscamente. — Coisas não têm o poder, criança. Mesmo um angreal é apenas uma ferramenta. Isto é apenas uma pedrinha azul bonita. Mas ela pode produzir luz. Veja.

As mãos de Egwene tremiam quando Moiraine depositou a pedra na ponta de seus dedos. Ela começou a puxar a mão de volta, mas a Aes Sedai segurou as mãos dela numa das suas e, com a outra, tocou gentilmente a lateral da cabeça de Egwene.

— Olhe para a pedra — disse a Aes Sedai baixinho. — É melhor assim do que ficar tateando sozinha. Esvazie sua mente de tudo que não seja a pedra. Esvazie a mente e deixe-se flutuar. Só existem a pedra e o vazio. Eu vou começar. Flutue e me deixe guiá-la. Não pense. Flutue.

Os dedos de Rand se enterraram em seus joelhos; os maxilares travaram até doer. Ela precisa falhar. Precisa.

Luz brotou da pedra, apenas um relâmpago de azul e depois desapareceu, não mais que a luminescência de um vaga-lume, mas ele se retraiu como se a luz o cegasse. Egwene e Moiraine fitavam a pedra, os rostos vazios. Outro relâmpago veio, e outro, até que a luz azulada pulsava como a batida de um coração. É a Aes Sedai, ele pensou em desespero. É Moiraine quem está fazendo isso. Não Egwene.

Um último e fraco tremeluzir, e a pedra voltou a ser meramente um pingente. Rand prendeu a respiração.

Por um momento Egwene continuou a olhar fixamente para a pedrinha, então ergueu a cabeça e fitou Moiraine.

— Eu… eu achei que havia sentido… alguma coisa, mas… Talvez você esteja enganada a meu respeito. Desculpe ter desperdiçado seu tempo.

— Não desperdicei nada, criança. — Um sorrisinho de satisfação passou ligeiro pelos lábios de Moiraine. — A última luz foi exclusivamente sua.

— Foi mesmo? — exclamou Egwene e voltou imediatamente a uma expressão soturna. — Mas foi praticamente nada.

— Agora você está se comportando como uma menina boba de aldeia. A maioria das que vêm a Tar Valon precisa estudar durante muitos meses antes de conseguir fazer o que você acaba de fazer. Você pode ir longe. Talvez até mesmo ao Trono de Amyrlin, um dia, se estudar com afinco e trabalhar muito duro.

— Você quer dizer…? — Com um grito de prazer, Egwene abraçou a Aes Sedai. — Ah, obrigada. Rand, você ouviu isso? Eu vou ser uma Aes Sedai!

13

Escolhas

Antes que fossem dormir, Moiraine ajoelhou-se ao lado deles, um por um, e pousou as mãos em suas cabeças. Lan resmungou, dizendo que não tinha necessidade e que ela não deveria desperdiçar suas forças, mas não tentou detê-la. Egwene estava ansiosa pela experiência, Mat e Perrin claramente apavorados por passar por ela, e apavorados demais para dizer não. Thom afastou-se das mãos da Aes Sedai, mas Moiraine agarrou-lhe a cabeça grisalha com um olhar que não admitia bobagens. O menestrel exibiu uma careta durante todo o processo. Ela lhe dirigiu um sorriso zombeteiro assim que afastou as mãos. Ele franziu a testa ainda mais, mas parecia renovado. Todos pareciam.

Rand havia recuado para um nicho na parede irregular, onde esperava passar despercebido. Seus olhos queriam se fechar assim que ele encostou o corpo no emaranhado de madeira, mas forçou-se a ficar de guarda. Pressionou o punho contra a boca para abafar um bocejo. Um cochilo, de uma ou duas horas, e ele ficaria bem. Moiraine, porém, não o esqueceu.

Ele se encolheu ao sentir o toque frio dos dedos dela em seu rosto e disse:

— Eu não… — Seus olhos arregalaram-se de espanto. O cansaço escoou dele como água morro abaixo; dores e incômodos foram se desvanecendo até virarem vagas lembranças e desaparecerem. Ele a fitava, boquiaberto. Ela limitou-se a sorrir e retirou as mãos.

— Pronto — disse ela, e, quando ela se levantou com um suspiro cansado, Rand lembrou-se de que ela não podia fazer o mesmo por si própria. De fato, ela só bebeu um pouco de chá, recusando o pão e o queijo que Lan tentou forçá-la a comer, antes de se enroscar ao lado do fogo. Pareceu adormecer no instante em que se enrolou no manto.

Todos os demais, com exceção de Lan, caíam adormecidos onde quer que conseguissem encontrar um espaço para se esticar, mas Rand não conseguia imaginar por quê. Ele tinha a sensação de ter dormido uma noite inteira numa boa cama. Assim que se recostou na parede de troncos, entretanto, o sono o derrubou. Quando Lan o acordou, cutucando-o, uma hora depois, era como se tivesse descansado por três dias.

O Guardião acordou todos, com exceção de Moiraine, e mandou severamente que silenciassem qualquer som que pudesse perturbá-la. Mesmo assim, ele só lhes permitiu uma breve estada na aconchegante caverna de árvores. Antes que o sol alcançasse duas vezes a própria altura acima do horizonte, todos os vestígios de que alguém havia algum dia parado ali tinham sido apagados, e todos encontravam-se montados e seguindo para o norte na direção de Baerlon, cavalgando devagar para poupar os cavalos. A Aes Sedai tinha olheiras, mas sentava-se ereta e firme em sua sela.

A neblina ainda era espessa sobre o rio atrás deles, uma muralha cinzenta que resistia aos esforços do sol fraco de dissipá-la e ocultava das vistas os Dois Rios. Rand ficou olhando para trás enquanto cavalgava, torcendo por um último vislumbre, mesmo que fosse de Barca do Taren, até que a banquisa de névoa se perdeu de vista.