— Então eles têm causado problemas? — perguntou Lan, e Avin sacudiu a cabeça vigorosamente.
— Não que não queiram, imagino, só que o Governador não confia neles mais do que eu. E não deixa entrar mais do que dez no interior das muralhas de cada vez, e eles ficam furiosos com isso. O restante fica em um acampamento um pouco ao norte, pelo que ouvi dizer. Aposto que os fazendeiros ficam de olho neles o tempo todo. Os que conseguem entrar só ficam espreitando naqueles mantos brancos, olhando de nariz empinado para gente honesta. Caminhem na Luz, eles dizem, e é uma ordem. Quase saíram no soco mais de uma vez com os condutores de carroça, mineiros e fundidores e outros, e até mesmo a Guarda, mas o Governador quer tudo em paz, e é assim que tem sido até agora. Se eles estão caçando o mal, eu pergunto: por que não estão lá em cima, em Saldaea? Estão tendo algum tipo de problema lá em cima, pelo que ouvi dizer. Ou lá embaixo, em Ghealdan? Houve uma grande batalha por lá, dizem eles. Grande mesmo.
Moiraine suspirou baixinho.
— Ouvi dizer que Aes Sedai estavam indo para Ghealdan.
— Sim, foram mesmo, senhora. — A cabeça de Avin começou a se sacudir novamente. — Foram para Ghealdan, isso mesmo, e foi isso o que começou a batalha, ou pelo menos foi o que ouvi falar. Dizem que algumas dessas Aes Sedai estão mortas. Talvez todas elas. Eu conheço alguns sujeitos que não se dão com Aes Sedai, mas eu digo, quem mais vai deter um falso Dragão? Hein? E aqueles tolos malditos que pensam que podem ser Aes Sedai homens ou coisa do gênero? O que me dizem deles? É claro que alguns dizem… não os Mantos-brancos, veja bem, e nem eu, mas alguns… que talvez esse sujeito realmente seja o Dragão Renascido. Ele pode fazer coisas, ouvi dizer. Usar o Poder Único. E tem milhares de seguidores.
— Não seja tolo — disse Lan bruscamente, e o rosto de Avin se fechou numa expressão magoada.
— Só estou dizendo o que ouvi, está bem? Só o que ouvi, Mestre Andra. Eles dizem, alguns dizem, que ele está levando seu exército para leste e para sul, na direção de Tear. — Sua voz tornou-se solene, cheia de implicações. — Dizem que ele os chamou de Povo do Dragão.
— Nomes pouco significam — replicou Moiraine calmamente. Se alguma coisa que ouvira a perturbara, ela não dava nenhum sinal. — Você podia chamar sua mula de Povo do Dragão, se quisesse.
— Isso não seria provável, senhora. — Avin riu. — Não com os Mantos-brancos por aí, certamente. Não creio que ninguém fosse gostar muito de um nome desses também. Entendi o que a senhora quis dizer, mas… Ah, não, senhora. A minha mula não.
— Sem dúvida uma sábia decisão — afirmou Moiraine. — Agora precisamos ir.
— E a senhora não se preocupe — disse Avin, abaixando bem a cabeça. — Eu não vi ninguém. — Ele correu até o portão e começou a fechá-lo com puxões rápidos. — Não vi ninguém e não vi nada. — O portão se fechou com uma pancada seca, e Avin desceu a tranca com uma corda. — Na verdade, senhora, há dias que este portão não é aberto.
— Que a Luz o ilumine, Avin — disse Moiraine.
Então ela os levou dali. Rand olhou para trás uma vez, e Avin ainda estava em pé diante do portão. Ele parecia estar polindo uma moeda com a borda do manto e rindo baixinho.
O caminho levava por ruas de terra batida onde mal passavam duas carroças lado a lado, e que estavam desertas; as ruas eram todas ladeadas por armazéns e ocasionais cercas altas de madeira. Rand caminhou por algum tempo ao lado do menestrel.
— Thom, o que foi aquilo sobre Tear e o Povo do Dragão? Tear é uma cidade lá no Mar das Tempestades, não é?
— O Ciclo de Karaethon — disse Thom, seco.
Rand piscou. As Profecias do Dragão.
— Ninguém conta as… essas histórias nos Dois Rios. Pelo menos não em Campo de Emond. A Sabedoria esfolaria vivo quem fizesse isso.
— Acho que ela faria isso mesmo — replicou Thom com secura. Ele olhou de relance para Moiraine, que seguia adiante com Lan, viu que ela não podia ouvi-los, e continuou: — Tear é o maior porto no Mar das Tempestades, e a Pedra de Tear é a fortaleza que a protege. Dizem que foi a primeira fortaleza construída depois da Ruptura do Mundo, e em todo esse tempo ela jamais caiu, embora muitos exércitos tenham tentado derrubá-la. Uma das Profecias diz que a Pedra de Tear não cairá até que o Povo do Dragão vá até ela. Outra diz que a Pedra não cairá até que a Espada que Não Pode Ser Tocada seja brandida pela mão do Dragão. — Thom fez uma careta. — A queda da Pedra será uma das maiores provas de que o Dragão renasceu. Que a Pedra possa resistir até que eu vire pó.
— A espada que não pode ser tocada?
— É o que se diz. Não sei se é uma espada. Seja lá o que for, fica no Coração da Pedra, a cidadela central da fortaleza. Ninguém a não ser os Grão-senhores de Tear pode entrar lá, e eles nunca falam do que há lá dentro. Certamente não para menestréis, pelo menos.
Rand franziu a testa.
— A Pedra não pode cair até que o Dragão empunhe a espada, mas como ele pode fazer isso, a menos que a Pedra já tenha caído? Será que o Dragão deve ser um Grão-senhor de Tear?
— Não vejo muita chance disso — respondeu o menestrel, seco. — Tear odeia qualquer coisa que tenha a ver com o Poder, mais ainda que Amador, e Amador é a base dos Filhos da Luz.
— Então como a Profecia poderá se realizar? — perguntou Rand. — Eu gostaria muito que o Dragão nunca renascesse, mas uma profecia que não pode ser realizada não faz muito sentido. Parece uma história criada para fazer as pessoas pensarem que o Dragão jamais renascerá. É isso mesmo?
— Você faz muitas perguntas, garoto — observou Thom. — Uma profecia que fosse facilmente cumprida não valeria de muita coisa, valeria? — Subitamente sua voz se alegrou. — Bem, chegamos. Onde quer que seja.
Lan havia parado diante de uma seção de cerca de madeira da altura de sua cabeça que não parecia diferente de nenhuma outra pela qual já haviam passado. Ele estava inserindo a lâmina de seu punhal entre duas das tábuas. Subitamente soltou um grunhido de satisfação, puxou, e uma parte da cerca se abriu como um portão. Na verdade, era mesmo um portão, Rand viu, embora a intenção original fosse de que ela se abrisse somente pelo lado interno. O trinco de metal que Lan havia erguido com sua adaga demonstrava isso.
Moiraine entrou imediatamente, puxando Aldieb. Lan fez sinal para que os demais a seguissem e ficou na retaguarda, fechando o portão atrás de si.
Do outro lado da cerca, Rand se viu no pátio do estábulo de uma estalagem. Um grande ruído vinha da cozinha da construção, mas o que o impressionou foi o tamanho desta: ela cobria mais que o dobro da Estalagem Fonte de Vinho e tinha quatro andares de altura. Bem mais da metade das janelas reluzia no crepúsculo que se adensava. Rand admirou-se com aquela cidade, onde devia haver muitos estranhos.
Mal haviam acabado de entrar no pátio e três homens vestindo aventais de lona sujos apareceram nas amplas portas em arco do imenso estábulo. Um deles, um sujeito esguio e musculoso, e o único sem um forcado para estrume nas mãos, avançou, acenando com os braços.
— Ei! Ei! Vocês não podem entrar por aí! Têm de dar a volta pela frente!
A mão de Lan foi até sua bolsa mais uma vez, mas nesse instante outro homem, tão grande de cintura quanto o Mestre al’Vere, saiu correndo da estalagem. Tufos de cabelo despontavam acima de suas orelhas, e o avental branco impecável era um sinal claro, proclamando-o o estalajadeiro.