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— Não quero nem ouvir. Simplesmente não quero ouvir. Se eles querem reclamar do meu gato, então eles que cozinhem. Meu pobre e velho gato, que está só fazendo o trabalho dele, e eu vamos para algum outro lugar onde nos queiram, vocês vão ver só se não vamos. — Ela desamarrou o avental e começou a tirá-lo por cima da cabeça.

— Não! — Mestre Fitch deu um grito e pulou para impedi-la. Eles ficaram dançando em círculos, com a cozinheira tentando tirar o avental e o estalajadeiro tentando colocá-lo de volta nela. — Não, Sara — ele arquejou. — Não há necessidade disso. Não há necessidade, estou dizendo! O que eu faria sem você? Cirri é um bom gato. Um excelente gato. O melhor gato de Baerlon. Se mais alguém reclamar, vou dizer que agradeçam por ele estar fazendo o trabalho dele. É, eles que agradeçam. Você não pode ir. Sara? Sara!

A cozinheira interrompeu a dança em círculos e conseguiu arrancar o avental das mãos dele.

— Está certo, então. Está certo. — Segurando o avental com ambas as mãos, ela ainda assim não voltou a amarrá-lo. — Mas se você espera que eu tenha alguma coisa pronta para o meio-dia, é melhor sair daqui e me deixar trabalhar. Aqui pode ser sua estalagem, mas esta é a minha cozinha. A menos que você queira cozinhar. — Ela fez menção de lhe entregar o avental.

Mestre Fitch recuou com as mãos espalmadas. Abriu a boca, depois parou, olhando ao redor pela primeira vez. Os ajudantes de cozinha ainda ignoravam diligentemente a cozinheira e o estalajadeiro, e Rand começou uma busca minuciosa pelos bolsos do casaco, embora, a não ser pela moeda que Moiraine lhe dera, não houvesse nada neles além de alguns cobres e um punhado de badulaques. Sua faca de bolso e a pedra de amolar. Duas cordas de arco extras e um pedaço de barbante que ele havia achado que poderia ser útil.

— Eu tenho certeza, Sara — disse Mestre Fitch com cuidado —, de que tudo estará de acordo com a sua excelência de costume. — E, com isso, deu uma última olhada desconfiada para os ajudantes da cozinha e depois saiu com o máximo de dignidade possível.

Sara esperou até que ele se fosse antes de amarrar rapidamente seu avental, e então fixou o olhar em Rand.

— Acho que você quer algo para comer, não é? Bem, entre. — Ela lhe deu um sorriso ligeiro. — Eu não mordo, não mesmo, não importa o que você possa ter visto e que não devia. Ciel, pegue para o garoto um pouco de pão, queijo e leite. É tudo que temos agora. Sente-se, rapaz. Seus amigos saíram, tirando um rapaz que, pelo que entendi, não estava passando bem, e eu imagino que você vá querer fazer o mesmo.

Uma das empregadas trouxe uma bandeja, e Rand levou uma banqueta até a mesa. Ele começou a comer enquanto a cozinheira voltava a sovar a massa do pão, mas ela ainda não havia terminado de falar.

— Você não deve se preocupar com nada do que viu. Mestre Fitch até que é um homem bom, embora mesmo os melhores de vocês não sejam nada fáceis. As pessoas reclamando é que o deixam à beira de um ataque. E do que é que elas estão reclamando? Elas prefeririam encontrar ratos vivos aos mortos? Embora não seja do feitio de Cirri deixar trabalho para trás. E mais de uma dúzia? Cirri não deixaria tantos entrarem na estalagem, não mesmo. Além disso, aqui é um lugar limpo, e não era para ter tanto problema. E todos com as espinhas partidas. — Ela balançou a cabeça, estranhando aquilo tudo.

O pão e o queijo ficaram com gosto de cinza na boca de Rand.

— As espinhas deles estavam quebradas?

A cozinheira fez um gesto com a mão coberta de farinha.

— Pense em coisas mais felizes, é o meu jeito de encarar a vida. Tem um menestrel, sabia? No salão, neste exato instante. Bem, mas veio com ele, não é? Você é um daqueles que vieram com a Senhora Alys ontem à noite, não? Achei que fosse. Não vou ter muita chance de ver esse menestrel, estou aqui pensando, não com a estalagem cheia de gente do jeito que está, a maioria uma ralé que veio lá das minas. — Ela deu uma pancada especialmente pesada na massa. — Não são do tipo que normalmente deixamos entrar, só que a cidade inteira está repleta deles. Mas é melhor do que poderia ser com alguns outros tipos, eu acho. Ora, não vejo um menestrel desde antes do inverno, e…

Rand comeu mecanicamente, sem sentir o gosto de nada, sem escutar o que a cozinheira dizia. Ratos mortos, com as espinhas quebradas. Terminou o desjejum apressadamente, disse um obrigado gaguejado e saiu em disparada. Precisava falar com alguém.

O salão da Cervo e Leão tinha pouco em comum com a sala da Estalagem Fonte de Vinho, exceto o propósito. Tinha o dobro da largura e o triplo do comprimento, e imagens coloridas de prédios elaborados com jardins de árvores altas e flores de cores vivas pintadas bem alto nas paredes. Em vez de uma única e imensa lareira, uma de menores proporções ardia em cada parede, e dezenas de mesas ocupavam o espaço, com quase toda cadeira, banco ou banqueta ocupados.

Cada homem na multidão de fregueses com cachimbos nos dentes e canecas nas mãos se curvava para a frente atento a uma só coisa: Thom, de pé em cima de uma mesa no meio do salão, seu manto de muitas cores jogado em uma cadeira próxima. Até mesmo Mestre Fitch tinha um caneco de prata e um pano de polir nas mãos imóveis.

— …rampantes cascos de prata e pescoços arqueados e orgulhosos — proclamava Thom, enquanto de algum modo parecia não só estar montando um cavalo, mas fazendo parte de uma longa procissão de cavaleiros. — Crinas prateadas tremulam quando as cabeças se movem. Mil estandartes esvoaçam, lançando arco-íris contra um céu infinito. Cem trombetas com suas gargantas de bronze fazem o ar estremecer, e tambores rufam como trovões. Onda após onda, vêm as vivas dos espectadores, aos milhares, sobre os telhados e as torres de Illian, e quebram inauditos nos mil ouvidos dos cavaleiros cujos olhos e corações brilham em sua missão sagrada. A Grande Caçada à Trombeta avança, cavalga em busca da Trombeta de Valere, que invocará os heróis das Eras de volta do túmulo para batalhar pela Luz…

Isso era o que o menestrel havia chamado de Canto Simples naquelas noites à beira do fogo na cavalgada rumo ao norte. As histórias, disse ele, eram contadas em três vozes: Alto Canto, Canto Simples e Comum, que significava simplesmente contá-las do jeito que você poderia falar ao vizinho sobre sua roça. Thom contava histórias em Comum, mas não se importava em esconder seu desprezo por essa voz.

Rand fechou a porta sem entrar e desabou contra a parede. De Thom ele não conseguiria conselhos. Moiraine… o que ela faria se soubesse?

Ele se deu conta das pessoas que o encaravam ao passar e percebeu que estava resmungando baixinho. Ajeitando seu casaco, ele se endireitou. Precisava falar com alguém. A cozinheira dissera que um dos outros não havia saído. Controlar-se para não subir correndo lhe exigiu esforço.

Quando bateu à porta do quarto onde os outros rapazes haviam dormido e enfiou a cabeça lá dentro, apenas Perrin se encontrava ali, deitado em sua cama, ainda não vestido. Ele virou a cabeça no travesseiro para olhar para Rand e tornou a fechar os olhos. O arco e a aljava de Mat estavam encostados num canto.

— Eu soube que você não estava se sentindo bem — contou Rand, entrando e se sentando na cama ao lado. — Eu só queria conversar. E… — Não sabia como puxar o assunto, percebeu. — Se você estiver doente — disse ele, já meio de pé —, talvez seja melhor dormir. Vou embora.

— Não sei se vou conseguir dormir de novo algum dia. — Perrin suspirou. — Tive um sonho ruim, se você quer mesmo saber, e não consegui voltar a dormir. Mat vai lhe contar assim que puder. Ele riu hoje cedo, quando contei por que estava cansado demais para sair, mas ele também sonhou. A noite toda eu o ouvi se virando e resmungando, e não venha me dizer que ele teve uma boa noite de sono. — Ele jogou um braço grosso por cima dos olhos. — Luz, como estou cansado… Talvez se eu ficar aqui só por uma ou duas horas sinta vontade de levantar. Mat nunca vai me deixar em paz se eu deixar de ver Baerlon por causa de um sonho.