Rand voltou a se sentar na cama devagar. Passou a língua pelos lábios, depois disse, rápido:
— Ele matou um rato?
Perrin abaixou o braço e olhou fixo para ele.
— Você também? — perguntou finalmente. Quando Rand assentiu, ele disse: — Queria estar em casa. Ele me disse… ele disse… O que vamos fazer? Você contou a Moiraine?
— Não. Ainda não. Talvez nem conte. Não sei. E você?
— Ele disse… Sangue e cinzas, Rand, não sei. — Perrin se levantou subitamente e se apoiou no cotovelo. — Você acha que Mat teve o mesmo sonho? Ele riu, mas o riso soou forçado, e ele pareceu estranho quando eu disse que não tinha conseguido dormir por causa de um sonho.
— Talvez — disse Rand. Embora se sentisse culpado, ficou aliviado por não ser o único. — Eu ia pedir conselhos a Thom. Ele já viu muita coisa no mundo. Você… você não acha que devíamos contar a Moiraine, acha?
Perrin voltou a se recostar no travesseiro.
— Você já ouviu as histórias sobre as Aes Sedai. Acha que podemos confiar em Thom? Se é que podemos confiar em alguém… Rand, se sairmos disso vivos, se algum dia voltarmos para casa, e você me ouvir dizer qualquer coisa sobre sair de Campo de Emond, mesmo que seja para ir até a Colina da Vigília, você me dá um chute. Está certo?
— Isso não é jeito de falar — disse Rand. Ele conseguiu sorrir, o sorriso mais animado que pôde dar. — É claro que vamos voltar para casa. Vamos lá, levante-se. Estamos numa cidade e temos um dia inteiro para vê-la. Onde estão suas roupas?
— Vá você. Eu só quero ficar deitado aqui um tempo. — Perrin voltou a colocar o braço sobre os olhos. — Vá em frente. Eu o alcanço em uma ou duas horas.
— Você é quem sabe — disse Rand, levantando-se. — Pense no que pode perder. — Parou na porta. — Baerlon. Quantas vezes falamos em ver Baerlon um dia? — Perrin ficou ali deitado com os olhos cobertos e não disse palavra. Depois de um minuto, Rand saiu e fechou a porta.
No corredor, ele se encostou na parede, o sorriso desaparecendo de seu rosto. A cabeça ainda doía; estava pior, não melhor. Ele também não estava lá muito entusiasmado com Baerlon, não naquele momento. Não conseguia se entusiasmar com nada.
Uma empregada surgiu, os braços cheios de lençóis, e lhe dirigiu um olhar preocupado. Antes que ela conseguisse falar, ele continuou pelo corredor, encolhendo-se em seu manto. Thom não terminaria no salão por horas ainda. Rand podia muito bem ver o que fosse possível na cidade. Talvez conseguisse encontrar Mat e saber se Ba’alzamon havia estado nos sonhos dele também. Desceu mais devagar dessa vez, esfregando a têmpora.
A escada terminava perto da cozinha, e ele pegou esse caminho, cumprimentando Sara com um aceno de cabeça, mas se apressando quando pareceu que ela ia continuar de onde havia parado antes. O pátio do estábulo estava vazio, a não ser por Mutch, de pé na porta, e um dos outros tratadores carregando um saco no ombro para o interior do estábulo. Rand também cumprimentou Mutch com a cabeça, mas o homem lhe dirigiu um olhar truculento e entrou. Ele torceu para que o resto da cidade fosse mais parecido com Sara e menos com Mutch. Pronto para ver como era uma cidade de verdade, apertou o passo.
Nas portas abertas do pátio do estábulo, ele parou e olhou. Pessoas enchiam a rua como ovelhas num redil, pessoas embrulhadas até os olhos em mantos e casacos, chapéus abaixados contra o frio, ziguezagueando a passos rápidos como se o vento que assoviava sobre os telhados as soprasse, acotovelando-se quase sem falar nem olhar umas para as outras. Todos estranhos, pensou. Ninguém se conhece.
Os cheiros também eram estranhos, ácidos, amargos e doces — tudo misturado em um caldeirão que o fazia ficar esfregando o nariz. Mesmo no ápice do Festival, ele nunca tinha visto tanta gente tão amontoada. Nem mesmo metade daquilo. E era só uma rua. Mestre Fitch e a cozinheira tinham dito que toda a cidade estava cheia. A cidade toda… daquele jeito?
Ele recuou lentamente do portão, afastando-se da rua cheia de gente. Não era certo sair e deixar Perrin doente na cama. E se Thom terminasse de contar suas histórias enquanto Rand estivesse fora, na cidade? O menestrel poderia sair por conta própria, e Rand precisava falar com alguém. Muito melhor esperar um pouco. Deixou escapar um suspiro de alívio ao dar as costas para o enxame que tomava conta da rua.
Mas a ideia de retornar para a estalagem não lhe agradava, não com sua dor de cabeça. Sentou-se num barril virado de cabeça para baixo que estava encostado nos fundos da estalagem e torceu para que o ar frio pudesse ajudar.
Mutch aparecia na porta do estábulo de vez em quando e ficava olhando para ele, e mesmo do outro lado do pátio Rand conseguia ver a expressão de desaprovação do homem. Será que não gostava de gente do campo? Ou ficara constrangido quando Mestre Fitch os recebera depois que ele tentara expulsá-los por entrarem pelo lado errado? Talvez ele seja um Amigo das Trevas, pensou Rand, esperando rir da ideia, mas não era um pensamento engraçado. Passou a mão pelo punho da espada de Tam. Não havia sobrado muita coisa que fosse engraçada.
— Um pastor com uma espada com a marca da garça — disse uma voz baixinha de mulher. — Isso é quase o bastante para me fazer acreditar em qualquer coisa. Em que problemas você está metido, garoto do sul?
Assustado, Rand se levantou de um pulo. Era a jovem de cabelos curtos que estava com Moiraine quando ele saíra do banho, ainda vestida com casaco e calças de rapaz. Era um pouco mais velha que ele, pensou, com olhos escuros ainda maiores que os de Egwene, estranhamente intensos.
— Você é Rand, não é? — continuou ela. — Meu nome é Min.
— Eu não estou com nenhum problema — disse ele. Não sabia o que Moiraine dissera a ela, mas lembrava-se do aviso de Lan para não atrair atenção. — O que faz você pensar que estou com problemas? Os Dois Rios são um lugar tranquilo, e somos todos pessoas tranquilas. Lá não é lugar de problema, a menos que tenha a ver com a colheita, ou com ovelhas.
— Tranquilas? — disse Min com um leve sorriso. — Já ouvi homens falando sobre vocês, gente dos Dois Rios. Ouvi as piadas sobre pastores cabeça-dura, e há homens que realmente já estiveram nas bandas lá de baixo.
— Cabeça-dura? — perguntou Rand, franzindo a testa. — Que piadas?
— Os que sabem do que estão falando — continuou ela como se ele não tivesse falado — dizem que vocês andam por aí todos cheios de sorrisos e boas maneiras, mansos e macios feito manteiga. Pelo menos na superfície. Por baixo, eles dizem, vocês são todos duros feito raiz de carvalho velho. É cutucar com força, eles dizem, e você encontra pedra. Mas a pedra não está enterrada muito fundo em você, nem em seus amigos. É como se uma tempestade tivesse raspado quase toda a terra que a cobria. Moiraine não me contou tudo, mas eu vejo o que vejo.
Raízes de carvalho velho? Pedra? Dificilmente parecia o tipo de coisa que os mercadores ou a gente deles diria. Mas as últimas palavras o fizeram dar um pulo.
Olhou ao redor rapidamente; o pátio do estábulo encontrava-se vazio e as janelas mais próximas estavam fechadas.
— Eu não conheço ninguém chamado… como é mesmo?
— Senhora Alys, então, se você prefere — disse Min com um olhar divertido que fez suas bochechas corarem. — Não há ninguém por perto para ouvir.
— O que faz você pensar que a Senhora Alys tem outro nome?
— Porque ela me contou — explicou Min, com tanta paciência que ele corou mais uma vez. — Não que ela tivesse escolha, suponho. Vi que ela era… diferente… logo de cara. Quando ela parou aqui antes, a caminho do sul. Ela sabia sobre mim. Já falei com… outras como ela antes.
— “Viu”? — disse Rand.