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Sem acreditar, ele ficou olhando um homenzinho magricela, com braços compridos e nariz grande, abrir caminho apressado em meio à multidão, em roupas que pareciam um monte de farrapos. Os olhos do homem estavam fundos, e seu rosto era sujo e magro, como se não comesse nem dormisse havia dias, mas Rand podia jurar… O homem esfarrapado o viu, então, e ficou paralisado entre um passo e outro, sem se dar conta das pessoas que quase caíram por cima dele. A última dúvida na cabeça de Rand desapareceu.

— Mestre Fain! — gritou ele. — Pensamos que o senhor estivesse…

Rápido como um piscar de olhos, o mascate disparou em fuga, mas Rand o perseguiu, gritando pedidos de desculpas sobre os ombros para as pessoas nas quais esbarrava. No meio da multidão ele apenas vislumbrou Fain disparando para dentro de um beco, e foi atrás.

No beco, depois de alguns passos, o mascate havia parado. Uma cerca alta fazia dali um beco sem saída. Quando Rand parou, Fain se virou para encará-lo, agachando-se, desconfiado, e recuando. Ele movia as mãos imundas na direção de Rand, querendo mantê-lo afastado. Via-se mais de um rasgo em seu casaco, e seu manto estava gasto e esfarrapado, como se o uso tivesse sido muito mais pesado do que deveria.

— Mestre Fain? — perguntou Rand, hesitante. — Qual é o problema? Sou eu, Rand al’Thor, de Campo de Emond. Nós pensamos que os Trollocs o haviam apanhado.

Fain fez um gesto brusco e, ainda agachado, correu alguns passos tortos na direção da extremidade aberta do beco. Não tentou passar por Rand, nem sequer chegar perto.

— Não! — gritou ele com voz rouca. Sua cabeça virava constantemente enquanto ele tentava ver tudo na rua atrás de Rand. — Não mencione — sua voz baixou e se tornou um sussurro rouco, e ele virou a cabeça, observando Rand com olhares rápidos, de esguelha — …esse nome. Há Mantos-brancos na cidade.

— Eles não têm motivo para nos incomodar — disse Rand. — Venha para a Cervo e Leão comigo. Estou hospedado lá com amigos. O senhor conhece a maioria deles. Vão ficar felizes em vê-lo. Nós todos achávamos que o senhor estivesse morto.

— Morto? — repetiu o mascate, indignado. — Não Padan Fain. Padan Fain sabe para que lado pular e onde cair. — Ele endireitou seus farrapos como se fossem roupas de festa. — Sempre soube, e sempre saberá. Viverei um longo tempo. Mais do que… — Subitamente seu rosto se contorceu e suas mãos agarraram a frente do casaco. — Eles queimaram minha carroça e todos os meus artigos. Não tinham motivo para isso, tinham? Não consegui chegar aos meus cavalos. Meus cavalos, mas aquele estalajadeiro velho e gordo trancou todos no estábulo. Precisei ser rápido para não cortarem minha garganta, e de que isso me valeu? Tudo que me restou é a roupa do corpo. Então, isso é justo? É?

— Seus cavalos estão a salvo no estábulo do Mestre al’Vere. O senhor pode pegá-los quando quiser. Se vier à estalagem comigo, tenho certeza de que Moiraine ajudará o senhor a voltar aos Dois Rios.

— Aaaaah! Ela… ela é a Aes Sedai, não é? — Um olhar desconfiado tomou o rosto de Fain. — Talvez, embora… — Fez uma pausa, lambendo nervosamente os lábios. — Por quanto tempo você vai ficar nesta… Como é mesmo? Do que você chamou? Cervo e Leão?

— Vamos embora amanhã — disse Rand. — Mas o que isso tem a ver com…

— Você não faz ideia — gemeu Fain —, com essa barriga cheia e uma boa noite de sono numa cama macia. Minhas botas estão arruinadas de tanto correr, e as coisas que eu tive de comer… — Ele contorceu o rosto. — Não quero ficar nem a milhas de distância de uma Aes Sedai — cuspiu as últimas palavras —, nem sequer a milhas e milhas, mas talvez tenha de ser assim. Não tenho escolha, tenho? Pensar nos olhos dela em mim, nela sabendo onde estou… — Ele estendeu a mão para Rand como se quisesse agarrá-lo pelo casaco, mas suas mãos pararam rapidamente, tremendo, e ele chegou a dar um passo para trás. — Prometa que você não vai contar a ela. Ela me apavora. Não é necessário contar a ela, não há motivo para que uma Aes Sedai sequer saiba que estou vivo. Você tem de me prometer. Você precisa!

— Eu prometo — disse Rand num tom apaziguador. — Mas não há razão para ter medo dela. Venha comigo. O mínimo que o senhor vai conseguir será uma refeição quente.

— Talvez. Talvez. — Fain esfregou o queixo, pensativo. — Amanhã, você disse? Nesse tempo… Você não vai esquecer sua promessa? Você não vai deixar que ela…?

— Eu não vou deixar que ela o machuque — disse Rand, perguntando-se como conseguiria impedir uma Aes Sedai de fazer o que quer que ela quisesse.

— Ela não vai me machucar — afirmou Fain. — Não vai, não. Eu não vou deixar. — Como um relâmpago, ele disparou e passou por Rand na direção da multidão.

— Mestre Fain! — gritou Rand. — Espere!

Ele saiu do beco bem a tempo de avistar um casaco esfarrapado desaparecendo na próxima esquina. Ainda gritando, ele foi atrás, fazendo a curva, desabalado. Só teve tempo de ver as costas de um homem antes de trombar nela e ambos caírem na lama.

— Por que você não olha por onde anda? — veio um resmungo debaixo dele, e Rand se levantou, surpreso.

— Mat?

Mat se sentou com um olhar furioso e começou a limpar a lama do manto com as mãos.

— Você deve estar mesmo virando um homem da cidade. Dorme a manhã inteira e sai atropelando os outros. — Levantando-se, ele olhou para as mãos enlameadas, depois resmungou e limpou-as no manto. — Escute, você nunca vai adivinhar quem eu acho que acabei de ver.

— Padan Fain — respondeu Rand.

— Padan Fa… Como é que você sabia?

— Eu estava falando com ele, mas ele fugiu.

— Então os Tro… — Mat parou para olhar ao redor, desconfiado, mas a multidão passava por eles sem sequer os notar. — Então eles não o pegaram. Eu me pergunto por que ele deixou Campo de Emond sem dizer nada daquele jeito. Provavelmente começou a correr na hora do ataque e não parou até chegar aqui. Mas por que ele estava fugindo agora?

Rand balançou a cabeça e desejou não ter feito isso. Teve a sensação de que ela ia cair.

— Não sei, só que ele tem medo de M… da Senhora Alys. — Toda essa história de ficar tomando cuidado com o que se dizia não era fácil. — Ele não quer que ela saiba que está aqui. Ele me fez prometer que não diria a ela.

— Bem, o segredo dele comigo está seguro — disse Mat. — Queria que ela não soubesse onde eu estou, também.

— Mat? — As pessoas ainda passavam apressadas por eles sem prestar a menor atenção, mas Rand abaixou a voz de qualquer maneira e curvou-se, aproximando-se mais. — Você teve um pesadelo ontem à noite? Sobre um homem que matava um rato?

Mat o encarou sem piscar.

— Você também? — disse, por fim. — E Perrin, suponho. Quase perguntei a ele hoje cedo, mas… Ele deve ter sonhado, sim. Sangue e cinzas! Agora alguém está fazendo a gente sonhar coisas. Rand, eu queria que ninguém soubesse onde eu estou.

— Havia ratos mortos por toda a estalagem esta manhã. — Rand não sentiu tanto medo quando disse isso quanto teria sentido mais cedo. Não estava sentindo quase nada. — As espinhas deles estavam quebradas. — Sua voz soou alta nos próprios ouvidos. Se estava ficando doente, poderia ter de recorrer a Moiraine. Estava surpreso pelo fato de que mesmo pensar no Poder Único sendo usado nele não o incomodava.

Mat respirou fundo, ajustando o manto, e olhou ao redor como se procurasse algum lugar aonde ir.

— O que está acontecendo com a gente, Rand? O quê?