— Não sei. Vou pedir conselho a Thom. Sobre se eu devo contar… a mais alguém.
— Não! Ela não. Talvez a ele, mas não a ela.
A rispidez com que Mat falou pegou Rand de surpresa.
— Então você acreditou nele? — Não precisou dizer de que “ele” estava falando; a expressão no rosto de Mat deixava claro que ele entendia.
— Não — disse Mat lentamente. — São as probabilidades, só isso. Se contarmos a ela e ele estiver mentindo, então talvez nada aconteça. Talvez. Mas talvez só o fato de ele estar nos nossos sonhos seja o bastante para… Não sei. — Ele parou para engolir em seco. — Se não contarmos a ela, talvez tenhamos mais sonhos. Ratos ou não, sonhos são melhores do que… Lembra da barca? Eu acho que a gente deve ficar quieto.
— Tudo bem. — Rand se lembrava da barca, e da ameaça de Moiraine também, mas de algum modo aquilo parecia ter acontecido muito tempo atrás. — Está certo.
— Perrin não vai dizer nada, vai? — continuou Mat, o nervosismo fazendo-o balançar-se na ponta dos pés. — Precisamos voltar para falar com ele. Se contar a ela, ela vai descobrir sobre todos nós. Pode apostar. Vamos. — Ele começou a andar energicamente no meio da multidão.
Rand ficou ali parado olhando para Mat até que este voltou e o agarrou. Com o toque em seu braço, Rand piscou e então seguiu o amigo.
— Qual é o seu problema? — perguntou Mat. — Vai dormir de novo?
— Acho que estou resfriado — disse Rand. Sua cabeça estava tensa como um tambor, e quase tão vazia quanto.
— Você pode tomar um pouco de canja de galinha quando chegarmos à estalagem — disse Mat, que não parou de falar enquanto percorriam as ruas lotadas. Rand se esforçava para ouvir, e até mesmo para dizer alguma coisa de vez em quando, mas era mesmo um esforço. Não estava cansado; não queria dormir. Só tinha a sensação de que estava flutuando. Depois de um tempo se viu contando a Mat sobre Min.
— Uma adaga com um rubi, hein? — disse Mat. — Gostei. Mas não entendi nada sobre o olho. Tem certeza de que ela não estava inventando isso tudo? A mim, parece que ela saberia o que significa isso tudo se fosse realmente uma vidente.
— Ela não disse que é vidente — disse Rand. — Acredito que ela veja mesmo coisas. Lembre-se: Moiraine estava falando com ela quando terminamos o banho. E ela sabe quem Moiraine é.
Mat franziu a testa para ele.
— Pensei que não pudéssemos dizer esse nome.
— Não — murmurou Rand. Ele esfregou a cabeça com ambas as mãos. Era tão difícil se concentrar em qualquer coisa…
— Acho que talvez você esteja mesmo doente — disse Mat, ainda franzindo a testa. Subitamente ele puxou Rand pela manga do casaco e o fez parar. — Olha só para eles.
Três homens usando placas peitorais e elmos cônicos de aço, polidos até brilharem como prata, abriam caminho pela rua na direção de Rand e Mat. Até mesmo a malha nos seus braços reluzia. Seus mantos compridos, de um branco impecável e bordados no peito esquerdo com um sol radiante dourado, por pouco não alcançavam a lama e as poças na rua. Suas mãos descansavam sobre os punhos das espadas, e eles olhavam ao redor como se vissem coisas que haviam acabado de se esgueirar de debaixo de troncos podres. Mas ninguém retribuía seu olhar. Ninguém nem sequer parecia reparar neles. Mesmo assim, os três não precisavam abrir caminho à força pela multidão; o burburinho se abria para ambos os lados dos homens de mantos brancos como se por acaso, deixando que caminhassem em um espaço aberto que se movia com eles.
— Você acha que eles são Filhos da Luz? — perguntou Mat em voz alta. Um passante olhou com cara feia para ele, depois apertou o passo.
Rand assentiu. Filhos da Luz. Mantos-brancos. Homens que odiavam as Aes Sedai. Homens que diziam às pessoas como viver, criando problemas para quem se recusava a obedecer. Se é que incendiar fazendas e coisa pior poderia ser chamado de algo tão suave quanto “problemas”. Eu devia estar com medo, pensou. Ou curioso. Alguma coisa, de qualquer maneira. Em vez disso, ficou olhando fixa e passivamente para eles.
— Eles não me parecem grande coisa — disse Mat. — No entanto, parecem cheios de si, não?
— Eles não importam — afirmou Rand. — A estalagem. Precisamos falar com Perrin.
— Como Eward Congar. Ele sempre teve nariz empinado, também. — Subitamente Mat sorriu, um brilho no olhar. — Lembra de quando ele caiu da Ponte das Carroças e teve de voltar para casa todo encharcado? Aquilo baixou a crista dele por um mês.
— O que isso tem a ver com Perrin?
— Está vendo aquilo? — Mat apontou para uma carroça repousando em suas traves num beco logo à frente dos Filhos. Uma única estaca segurava uma dezena de barris empilhados no seu fundo achatado. — Observe. — Rindo, ele saiu correndo para dentro da loja de um cuteleiro à esquerda deles.
Rand ficou olhando para ele, sabendo que deveria fazer alguma coisa. Aquela expressão nos olhos de Mat sempre significava a iminência de um de seus truques. Mas, estranhamente, ele se descobriu querendo ver o que Mat ia fazer. Algo lhe dizia que aquele sentimento estava errado, que era perigoso, mas ele sorriu com a expectativa assim mesmo.
Em um minuto, Mat apareceu acima dele, com meio corpo para fora de uma janela de sótão sobre o telhado da loja. Estava com a funda nas mãos, já começando a girar. Os olhos de Rand voltaram à carroça. Quase imediatamente ouviu-se um ruído forte de algo rachando, e a estaca que segurava os barris quebrou justo quando os Mantos-brancos passavam pelo beco, um ao lado do outro. As pessoas pularam para fora do caminho enquanto os barris rolavam pela carroça com um barulho oco e quicavam na rua, espadanando lama e água suja em todas as direções. Os três Filhos pularam com a mesma rapidez dos outros, seus ares de superioridade substituídos pela surpresa. Alguns passantes caíram, provocando mais espadanadas, mas os três se moveram com agilidade, evitando os barris facilmente. Contudo, não puderam evitar a lama que voou e respingou em seus mantos brancos.
Um homem barbudo com um avental comprido saiu apressadamente do beco, agitando os braços e gritando, zangado, mas bastou um olhar para os três tentando em vão sacudir a lama de seus mantos e ele voltou para o beco, ainda mais rápido do que havia saído dele. Rand olhou de relance para o telhado da loja; Mat havia sumido. Fora um tiro fácil para qualquer rapaz dos Dois Rios, mas o efeito fora certamente tudo que se poderia esperar. Ele não pôde deixar de rir; o humor parecia amortecido, envolto em lã, mas ainda assim era engraçado. Quando se virou de volta para a rua, os três Mantos-brancos olhavam diretamente para ele.
— Está achando graça, é? — O que falou se destacava um pouco à frente dos outros. Tinha um olhar arrogante, sem piscar, com uma luz nos olhos, como se soubesse algo importante que mais ninguém sabia.
A risada de Rand foi interrompida no meio. Ele e os Filhos estavam sozinhos com a lama e os barris. A multidão que havia pouco os rodeava tinha encontrado negócios urgentes dos quais tratar rua acima ou abaixo.
— O medo da Luz está segurando sua língua? — A raiva fazia o rosto estreito do Manto-branco contrair-se ainda mais. Ele olhou de relance, sem dar a mínima, para o punho da espada que despontava do manto de Rand. — Talvez você seja o responsável por isso, hein? — Ao contrário dos outros, ele tinha um nó dourado sob o sol radiante em seu manto.
Rand se moveu para cobrir a espada, mas em vez disso jogou o manto de volta sobre o ombro. No fundo, no fundo, ele se perguntava freneticamente o que estava fazendo, mas era um pensamento distante.
— Acidentes acontecem — disse ele. — Até mesmo com os Filhos da Luz.
O homem de cara estreita ergueu uma sobrancelha.
— Você é assim tão perigoso, jovem? — Ele não era muito mais velho que Rand.
— A marca da garça, Lorde Bornhald — avisou um dos outros.