O homem de cara estreita olhou novamente de relance para o punho da espada de Rand, onde a garça de bronze era evidente, e seus olhos se arregalaram por um momento. Então seu olhar subiu até o rosto de Rand, e ele bufou em sinal de desprezo.
— Ele é jovem demais. Você não é daqui, é? — perguntou friamente a Rand. — Você vem de onde?
— Acabei de chegar a Baerlon. — Um formigamento percorreu os braços e pernas de Rand. Ele se sentiu corar, quase quente. — Você conhece uma boa estalagem por aqui?
— Você evita minhas perguntas — retrucou Bornhald. — Que mal existe em você que você não me responde? — Seus companheiros se aproximaram e puseram-se um de cada lado dele, rostos duros e sem expressão. Apesar das manchas de lama em seus mantos, não havia mais nada de engraçado neles.
O formigamento tomou conta de Rand; o calor havia se transformado em febre. Ele queria rir, de tão bom que era. Uma vozinha na sua cabeça gritava que havia algo errado, mas ele só conseguia pensar em como se sentia cheio de energia, quase explodindo com ela. Sorridente, ele balançou o corpo apoiado nos calcanhares e esperou o que ia acontecer. Vagamente, de modo distante, ficou se perguntando o que seria.
O rosto do líder tornou-se ainda mais sombrio. Um dos outros puxou a espada o bastante para exibir uma polegada de aço e falou com uma voz que tremia de fúria.
— Quando os Filhos da Luz fazem perguntas, seu moleque de olho cinza, esperam uma resposta ou… — Ele parou quando o homem de cara estreita colocou um braço na frente de seu peito. Bornhald acenou com a cabeça rua acima.
A Guarda da Cidade havia chegado, uma dezena de homens usando capacetes redondos de aço e coletes de couro com rebites, carregando bastões como quem sabe usá-los. Eles estavam parados observando, em silêncio, a dez passos de distância.
— Esta cidade perdeu a Luz — grunhiu o homem que havia começado a puxar a espada. Ele ergueu a voz para gritar para a Guarda. — Baerlon jaz na Sombra do Tenebroso! — Com um gesto de Bornhald ele enfiou a lâmina de volta na bainha.
Bornhald voltou a atenção para Rand novamente. A luz do conhecimento brilhou nos seus olhos.
— Amigos das Trevas não nos escapam, jovem, mesmo numa cidade que jaz na Sombra. Nós vamos nos encontrar novamente. Pode ter certeza disso!
Ele girou nos calcanhares e foi embora, seus dois companheiros logo atrás, como se Rand tivesse cessado de existir. Por ora, pelo menos. Quando alcançaram a parte lotada da rua, o mesmo bolsão aparentemente acidental se abriu à frente deles como antes. Os homens da Guarda hesitaram, de olho em Rand, depois puseram os bastões em cima dos ombros e seguiram os três Mantos-brancos. Tiveram de forçar passagem pela multidão, gritando:
— Abram caminho para a Guarda! — Poucos saíram da frente, e mesmo assim quem o fez foi de má vontade.
Rand ainda se balançava nos calcanhares, esperando. O formigamento era tão forte que ele quase tremia; tinha a sensação de estar queimando.
Mat saiu da loja, olhando fixo para ele.
— Você não está doente — disse por fim. — Você está louco!
Rand respirou fundo, e subitamente tudo desapareceu como uma bolha estourada. Ele cambaleou, a percepção do que havia acabado de fazer tomando conta dele. Passando a língua pelos lábios, olhou nos olhos de Mat.
— Acho que é melhor voltarmos à estalagem agora — disse ele sem firmeza.
— Sim — concordou Mat. — Sim. Acho que é melhor.
A rua havia começado a se encher novamente, e mais de um passante encarou os dois rapazes e murmurou alguma coisa a um companheiro. Rand tinha certeza de que a história se espalharia. Um louco havia tentado começar uma briga com três Filhos da Luz. Isso era algo a se comentar. Talvez os sonhos estejam mesmo me deixando louco.
Os dois se perderam diversas vezes nas ruas tortuosas, mas depois de um tempo encontraram Thom Merrilin fazendo uma grandiosa procissão por conta própria no meio da massa. O menestrel disse que havia saído para esticar as pernas e tomar um pouco de ar fresco, mas sempre que alguém olhava duas vezes para seu manto colorido ele anunciava com uma voz ressoante:
— Estou na Cervo e Leão, esta noite apenas.
Foi Mat quem começou a contar a Thom, de maneira atabalhoada, sobre o sonho e a preocupação deles quanto a se deviam ou não contar a Moiraine, mas Rand entrou no meio da conversa, pois havia diferenças na forma exata de como eles se lembravam do sonho. Ou quem sabe cada sonho fosse um pouco diferente, pensou. No entanto, a principal parte dos sonhos era a mesma.
Eles não haviam avançado muito na história antes que Thom começasse a prestar total atenção neles. Quando Rand mencionou Ba’alzamon, o menestrel agarrou cada um deles pelo ombro com uma ordem para que segurassem a língua, ergueu-se na ponta dos pés para olhar por cima das cabeças da multidão e, em seguida, os levou apressadamente para fora da balbúrdia até um beco sem saída vazio, a não ser por alguns caixotes e um cão amarelo bem magro, encolhido para se proteger do frio.
Thom ficou olhando para a multidão, procurando alguém que por acaso tivesse parado para ouvi-los, antes de voltar sua atenção para Rand e Mat. Seus olhos azuis cravaram-se nos deles, desviando-se de vez em quando para vigiar a entrada do beco.
— Jamais digam esse nome onde estranhos possam ouvir. — A voz dele era baixa, mas tinha um tom de urgência. — Nem mesmo onde exista a mera possibilidade de um estranho ouvir. É um nome muito perigoso, mesmo onde não há Filhos da Luz vagando pelas ruas.
Mat bufou.
— Filhos da Luz… Eu é que sei… — disse ele com um olhar cínico para Rand.
Thom o ignorou.
— Se apenas um de vocês tivesse tido esse sonho… — Ele ficou puxando furiosamente o bigode. — Contem-me tudo que puderem se lembrar a respeito. Cada detalhe. — Ele continuou mantendo sua cautelosa vigilância enquanto ouvia.
— …ele citou os homens que disse que haviam sido usados — contou Rand por fim. Achava que já tinha dito tudo o mais. — Guaire Amalasan. Raolin Algoz-das-trevas.
— Davian — acrescentou Mat antes que o outro pudesse prosseguir. — E Yurian Arco-de-pedra.
— E Logain — concluiu Rand.
— Nomes perigosos — murmurou Thom. Seus olhos pareciam perfurá-los com ainda mais intensidade do que antes. — Quase tão perigosos quanto aquele outro, de um jeito ou de outro. Todos mortos agora, com exceção de Logain. Alguns, mortos há muito tempo. Raolin Algoz-das-trevas, há quase dois mil anos. Mas perigosos mesmo assim. É melhor que vocês não os pronunciem em voz alta, mesmo sozinhos. A maioria das pessoas não reconheceria nenhum deles, mas se a pessoa errada ouvir…
— Mas quem foram eles? — perguntou Rand.
— Homens — murmurou Thom. — Homens que fizeram tremer os pilares do céu e abalaram as fundações do mundo. — Ele sacudiu a cabeça. — Não importa. Esqueçam-se deles. Agora são pó.
— Eles… eles foram usados, como ele disse? — perguntou Mat. — E mortos?
— Pode-se dizer que a Torre Branca os matou. Pode-se dizer isso. — A boca de Thom se crispou por um momento, e depois ele sacudiu a cabeça novamente. — Mas usados…? Não, não consigo ver isso. A Luz sabe que o Trono de Amyrlin tece muitas tramas, mas isso eu não consigo ver.
Mat estremeceu.
— Ele disse tantas coisas. Coisas loucas. Tudo aquilo sobre Lews Therin, o Fratricida, e Artur Asa-de-gavião. E o Olho do Mundo. O que, pela Luz, é isso, afinal?
— Uma lenda — disse o menestrel lentamente. — Talvez. Uma lenda tão grande quanto a Trombeta de Valere, pelo menos nas Terras da Fronteira. Lá em cima, os jovens saem à caça do Olho do Mundo como os jovens de Illian caçam a Trombeta. Talvez seja uma lenda.
— O que vamos fazer, Thom? — perguntou Rand. — Contamos a ela? Não quero ter mais sonhos como esse. Talvez ela possa fazer alguma coisa.