— Talvez a gente não goste do que ela possa fazer — grunhiu Mat.
Thom os estudou, pensando e cofiando o bigode com o nó de um dedo.
— Eu digo que vocês devem ficar calmos — sugeriu ele finalmente. — Não contem a ninguém, pelo menos por enquanto. Vocês sempre podem mudar de ideia, se for preciso, mas assim que contarem acabou, e vocês estarão mais amarrados do que nunca a… a ela. — Subitamente ele se endireitou, seu andar curvado quase desaparecendo. — O outro rapaz! Vocês disseram que ele teve o mesmo sonho? Será que ele tem bom senso suficiente para manter a boca fechada?
— Acho que sim — disse Rand ao mesmo tempo que Mat explicava:
— Estávamos voltando à estalagem para avisá-lo.
— A Luz permita que não cheguemos tarde demais! — Manto drapejando em torno dos tornozelos, Thom saiu a passos largos do beco, olhando para trás sem se deter. — Então? Seus pés estão grudados ao chão?
Rand e Mat correram atrás dele, mas Thom não esperou que eles o alcançassem. Dessa vez ele não parou para as pessoas que olhavam seu manto, nem aqueles que o saudavam como menestrel. Abriu caminho pelas ruas lotadas como se elas estivessem vazias, Rand e Mat quase correndo para segui-lo. Em muito menos tempo do que Rand esperava, estavam chegando à Cervo e Leão.
Assim que chegaram, Perrin veio correndo, tentando jogar seu manto por cima dos ombros. Quase caiu em seu esforço para não dar de cara com eles.
— Eu estava indo à procura de vocês dois — disse, ofegante, depois de recuperar o equilíbrio. Rand o agarrou pelo braço.
— Você contou a alguém a respeito do sonho?
— Diga que não — pediu Mat.
— É muito importante — disse Thom.
Perrin olhou para eles, confuso.
— Não, não contei. Só saí da cama há uma hora. — Seus ombros curvaram-se. — Ganhei uma dor de cabeça tentando não pensar nisso, que dirá se falasse a respeito. Por que vocês contaram a ele? — Indicou o menestrel com um gesto de cabeça.
— Precisávamos contar a alguém ou íamos enlouquecer — disse Rand.
— Eu explico mais tarde — acrescentou Thom com um olhar significativo para as pessoas que entravam e saíam da Cervo e Leão.
— Está certo — respondeu Perrin devagar, ainda parecendo confuso. — Subitamente, deu um tapa na própria testa. — Vocês quase me fizeram esquecer por que estava procurando vocês. Não que eu não quisesse esquecer… Nynaeve está aí dentro.
— Sangue e cinzas! — gritou Mat. — Como foi que ela chegou aqui? Moiraine… a barca…
Perrin resfolegou.
— Você acha que uma coisinha de nada como uma barca afundada deteria Nynaeve? Ela encontrou Torrealta… Não sei como ele atravessou o rio de volta, mas ela disse que ele estava se escondendo em seu quarto e não queria nem chegar perto da água… de qualquer maneira, ela o forçou a encontrar um barco grande o bastante para ela e seu cavalo e a levá-la até o outro lado remando. Ele mesmo. Ela só lhe deu tempo para encontrar um de seus puxadores para usar outro par de remos.
— Luz! — Mat soltou o ar.
— O que ela está fazendo aqui? — Rand quis saber. Mat e Perrin dirigiram a ele um olhar de desdém.
— Veio atrás da gente — disse Perrin. — Ela está com… com a Senhora Alys neste instante, e o frio lá dentro é bastante para fazer nevar.
— Será que a gente não podia simplesmente ir para algum outro lugar por um tempo? — sugeriu Mat. — Meu pai diz que só um tolo põe a mão num vespeiro sem que isso seja absolutamente necessário.
Rand interrompeu.
— Ela não pode obrigar a gente a voltar. A Noite Invernal deveria ter sido o bastante para fazê-la enxergar isso. Se não, vamos ter de fazê-la enxergar.
Mat erguia as sobrancelhas mais alto a cada palavra e, quando Rand terminou, ele deixou escapar um assovio baixinho.
— Você já tentou fazer Nynaeve enxergar alguma coisa que ela não queira? Eu já. Sugiro que a gente fique longe até a noite, e só então entre de fininho.
— Pelo que pude observar da jovem — disse Thom —, não acho que ela vá desistir até ter dito o que tem a dizer. Se não deixarem que ela faça isso logo, poderá continuar até atrair uma atenção que nenhum de nós deseja.
Isso bastou para que se detivessem. Trocaram olhares, respiraram fundo e marcharam para dentro como se fossem enfrentar Trollocs.
16
A Sabedoria
Perrin seguiu na frente, dirigindo-se às entranhas da estalagem. Rand estava tão concentrado no que pretendia dizer a Nynaeve que não viu Min até ela agarrar seu braço e puxá-lo para o lado. Os outros ainda seguiram alguns passos pelo corredor antes de perceber que ele havia parado. Então também pararam, meio impacientes para seguir, meio relutantes em fazê-lo.
— Não temos tempo para isso, garoto — disse Thom mal-humorado.
— Vá fazer uns malabarismos, ande! — disse Min bruscamente para o grisalho menestrel, afastando Rand ainda mais dos outros.
— Eu realmente não tenho tempo — observou Rand. — Decerto não para mais conversas tolas sobre fugir e coisas do gênero. — Ele tentou soltar o braço, mas cada vez que ele soltava, ela o agarrava novamente.
— E eu também não tenho tempo para suas tolices. Quer ficar quieto? — Ela lançou um rápido olhar para os demais, depois se aproximou, abaixando a voz. — Uma mulher chegou agora há pouco… mais baixa que eu, de olhos escuros e cabelos escuros numa trança que vai até a cintura. Ela faz parte disso, juntamente com o restante de vocês.
Por um minuto Rand ficou simplesmente olhando fixo para ela. Nynaeve? Como ela pode estar envolvida? Luz, como eu posso estar envolvido?
— Isso é… impossível.
— Você a conhece? — sussurrou Min.
— Sim, e ela não pode estar envolvida em… no que quer que você…
— As fagulhas, Rand. Ela deu de cara com a Senhora Alys entrando, e houve fagulhas, só com as duas. Ontem eu não conseguia ver fagulhas sem pelo menos três ou quatro de vocês juntos, mas hoje tudo está mais nítido e mais furioso. — Ela olhou para os amigos de Rand, que esperavam impacientemente, e estremeceu antes de se voltar para ele. — Eu quase me espanto que a estalagem não pegue fogo. Vocês todos estão correndo mais perigo hoje que ontem. Desde que ela chegou.
Rand olhou de relance para seus amigos. Thom, as sobrancelhas unidas formando um espesso V, estava inclinado para a frente, prestes a tomar alguma atitude para apressá-lo.
— Ela não fará nada para nos machucar — disse ele para Min. — Preciso ir agora. — Dessa vez, conseguiu arrancar seu braço da mão dela.
Ignorando o grito esganiçado dela, ele se juntou aos outros, e prosseguiram pelo corredor. Rand só olhou para trás uma vez. Min sacudiu o punho em sua direção e bateu o pé.
— O que ela tinha a dizer? — perguntou Mat.
— Nynaeve faz parte disso — disse Rand sem pensar e depois dirigiu um olhar tão duro a Mat que o pegou boquiaberto. Então a compreensão se espalhou lentamente pelo rosto de Mat.
— Parte do quê? — perguntou Thom baixinho. — Aquela garota sabe de alguma coisa?
Enquanto Rand ainda estava tentando formular em sua cabeça o que dizer, Mat falou:
— É claro que ela faz parte disso — respondeu ele, mal-humorado. — Parte do mesmo azar que estamos tendo desde a Noite Invernal. Talvez a Sabedoria aparecer aqui não seja grande coisa para você, mas eu preferia a presença dos Mantos-brancos.
— Ela viu Nynaeve chegar — disse Rand. — Viu-a falar com a Senhora Alys e achou que pudesse ter algo a ver conosco. — Thom lhe lançou um olhar de esguelha e agitou o bigode com um bufo, mas os outros pareceram aceitar a explicação de Rand. Ele não gostava de guardar segredos de seus amigos, mas o segredo de Min poderia ser tão perigoso para ela quanto os deles eram para si próprios.