— Você me disse isso, e ela também. — Nynaeve franziu a testa. — Se ela não estivesse metida nisso tudo… Aes Sedai não são de confiança, Rand.
— Você fala como se realmente acreditasse em nós — disse ele devagar. — O que aconteceu na reunião da aldeia?
Nynaeve olhou novamente para a porta antes de responder. Agora não havia nenhum movimento ali.
— Foi uma confusão, mas ela não precisa saber que não conseguimos lidar direito com nossos problemas. E acredito em apenas uma coisa: vocês todos estarão em perigo enquanto estiverem com ela.
— Alguma coisa aconteceu — insistiu ele. — Por que quer que voltemos se acha que existe uma chance de que estejamos certos? E por que, entre todos, você? Era mais fácil mandarem o Prefeito, e não a Sabedoria.
— Você cresceu mesmo. — Ela sorriu, e por um momento o divertimento dela fez com que ele ficasse sem graça. — Lembro de um tempo em que você não teria questionado aonde escolho ir nem o que escolho fazer, aonde fosse ou o que fosse. Um tempo só uma semana atrás.
Ele pigarreou e insistiu.
— Não faz sentido. Por que você está realmente aqui?
Ela olhou meio de lado para a porta ainda aberta, então o pegou pelo braço.
— Vamos andar enquanto conversamos. — Ele se deixou ser conduzido para longe, e, quando estavam suficientemente distantes da porta para não serem ouvidos, ela recomeçou. — Como eu disse, a reunião foi uma confusão. Todos concordaram que alguém tinha de ser mandado atrás de vocês, mas a aldeia se dividiu em dois grupos. Um queria resgatar vocês, embora tenha havido considerável discussão sobre como isso seria feito, já que vocês estavam aqui com uma… com alguém da espécie dela.
Ele ficou feliz por ela se lembrar de tomar cuidado com o que dizia.
— Os outros acreditaram em Tam? — perguntou Rand.
— Não exatamente, mas achavam que vocês não deveriam estar no meio de estranhos também, especialmente não com alguém como ela. De qualquer maneira, entretanto, quase todos os homens queriam estar no grupo. Tam, Bran al’Vere, com as balanças do cargo penduradas no pescoço, e Haral Luhhan, até que Alsbet fez com que ele se sentasse. Até mesmo Cenn Buie. A Luz me poupe de homens que pensam com os cabelos do peito. Embora eu não conheça nenhum outro tipo. — Ela bufou alto e olhou para ele com ar de acusação. — De qualquer maneira, imaginei que levaria mais um dia, talvez dois, antes que eles chegassem a alguma decisão, e de algum modo… de algum modo eu tinha certeza de que não podíamos esperar tanto tempo. Então, convoquei o Círculo das Mulheres e disse a elas o que tinha de ser feito. Não posso dizer que elas gostaram, mas viram que era o certo. E é por isso que estou aqui; porque os homens de Campo de Emond são cabeças-duras. Eles provavelmente ainda estão discutindo sobre quem enviar, embora eu tenha deixado recado de que cuidaria do assunto.
A história de Nynaeve explicava sua presença ali, mas não servia para tranquilizá-lo. Ela ainda estava determinada a levá-los de volta.
— O que ela disse a você ali dentro? — perguntou. Moiraine certamente teria dado todos os argumentos possíveis, mas, se ela tivesse deixado algum de lado, ele o forneceria.
— Mais do mesmo — replicou Nynaeve. — E ela queria saber sobre vocês, rapazes. Para ver se conseguia entender por que vocês… atraíram o tipo de atenção que atraíram… ela disse. — Fez uma pausa, observando-o pelo canto do olho. — Ela tentou disfarçar, porém, mais do que tudo, queria saber se algum de vocês havia nascido fora dos Dois Rios.
O rosto dele subitamente ficou tenso como a pele de um tambor. Ele conseguiu dar um riso rouco.
— Ela acha umas coisas esquisitas. Espero que você tenha garantido a ela que nascemos todos em Campo de Emond.
— É claro — respondeu ela. Apenas uma pausa ínfima antes da resposta dela, tão ínfima que ele a teria perdido se não estivesse procurando por ela.
Tentou pensar em algo a dizer, mas sua língua parecia uma tira de couro. Ela sabe. Ela era a Sabedoria, afinal, e a Sabedoria devia saber de tudo a respeito de todos. Se ela sabe, não foi sonho de febre. Ah, que a Luz me ajude, pai!
— Você está bem? — perguntou Nynaeve.
— Ele disse… disse que eu… não era filho dele. Quando estava delirando… com a febre. Ele disse que me encontrou. Achei que era só… — Sua garganta começou a queimar, e ele precisou parar.
— Ah, Rand. — Ela parou e tomou seu rosto entre as mãos. Precisou estender os braços para fazer isso. — Pessoas dizem coisas estranhas quando estão com febre alta. Coisas distorcidas. Coisas que não são verdadeiras, nem reais. Ouça-me bem. Tam al’Thor saiu em busca de aventura quando era um rapaz da sua idade. Eu me lembro direitinho quando ele voltou a Campo de Emond, um homem adulto com uma esposa ruiva estrangeira e um bebê embrulhadinho em cobertas. Lembro de Kari al’Thor aninhando aquela criança nos braços com o mesmo amor e prazer que já vi em qualquer mãe com seu filho. Filho dela, Rand. Você. Agora você se recomponha e pare com essa bobagem.
— É claro — disse ele. Eu nasci mesmo fora dos Dois Rios. — É claro. — Talvez Tam estivesse tendo um sonho febril, e talvez tivesse encontrado um bebê após uma batalha. — Por que você não disse isso a ela?
— Não é da conta de nenhum estrangeiro.
— Algum dos outros nasceu fora? — Assim que a pergunta foi feita, ele balançou a cabeça. — Não, não responda. Também não é da minha conta. — Mas seria bom saber se Moiraine tinha algum interesse especial nele, além do interesse que demonstrava no grupo inteiro. Teria?
— Não, não é da sua conta — concordou Nynaeve. — Pode não significar nada. Ela poderia estar simplesmente buscando cegamente um motivo, qualquer motivo, pelo qual essas coisas estão atrás de vocês. Atrás de todos vocês.
Rand conseguiu um sorriso.
— Então você acredita que eles estão nos caçando.
Nynaeve balançou a cabeça secamente.
— Você certamente aprendeu a distorcer as palavras desde que a conheceu.
— O que você vai fazer? — perguntou ele.
Ela o estudou; ele a encarou com firmeza.
— Hoje, vou tomar um banho. Quanto ao resto, vamos ter de ver, não é mesmo?
17
Vigias e Caçadores
Depois que a Sabedoria o deixou, Rand se dirigiu até o salão. Precisava ouvir gente rindo, para esquecer tanto o que Nynaeve dissera quanto os problemas que ela poderia causar.
A sala estava lotada, de fato, mas ninguém estava rindo, embora cada cadeira e cada banco estivessem ocupados e as pessoas preenchessem todo o espaço das paredes. Thom estava se apresentando novamente, em pé sobre uma mesa encostada na parede do outro lado, seus gestos grandiosos o bastante para preencher o enorme aposento. Era A Grande Caçada da Trompa outra vez, mas ninguém estava reclamando, claro. Havia tantas histórias a serem contadas a respeito de cada um dos Caçadores, e tantos Caçadores sobre os quais se falar, que não havia duas maneiras iguais de se contar a história. Contar tudo de uma só vez exigiria uma semana ou mais. O único som que competia com a voz e a harpa do menestrel era o crepitar do fogo nas lareiras.
— …para os oito cantos do mundo, os Caçadores cavalgam, para os oito pilares do céu, onde os ventos do tempo sopram e o destino agarra sem distinção poderosos e humildes pelo topete. O maior dos Caçadores é Rogosh de Talmour, Rogosh Olho-de-águia, famoso na corte do Grão-rei, temido nas encostas de Shayol Ghul… — Os Caçadores eram sempre heróis poderosos, todos eles.
Rand avistou seus dois amigos e se espremeu em um espaço que Perrin abriu para ele na ponta do banco que ocupavam. Os aromas da cozinha que chegavam à sala o lembraram de que ele estava faminto, mas até mesmo as pessoas que tinham comida diante de si davam pouca atenção à refeição. As criadas que deveriam estar servindo às mesas encontravam-se paradas como num transe, agarrando seus aventais e olhando para o menestrel, e ninguém parecia se importar nem um pouco. Ouvir era melhor do que comer, não importava o quanto a comida fosse boa.