18
A Estrada de Caemlyn
A Estrada de Caemlyn não era muito diferente da Estrada do Norte nos Dois Rios. Era consideravelmente mais larga, é claro, e mostrava o desgaste de um uso muito maior, mas ainda era de terra batida, ladeada por árvores que não seriam estranhas nos Dois Rios, especialmente porque ali também só as árvores perenes tinham folhas.
A terra em si, porém, era diferente, pois por volta do meio-dia a estrada chegou a um terreno de colinas baixas. Por dois dias a estrada atravessou as colinas, às vezes cortando-as diretamente, se fossem grandes o bastante para desviar demais a estrada de seu rumo, mas não altas a ponto de tornar a escavação difícil demais. À medida que o ângulo do sol se deslocava a cada dia, ficava evidente que a estrada, por mais que parecesse reta aos olhos, fazia uma ligeira curva para o sul em seu rumo para o leste. Rand havia sonhado acordado com o velho mapa de Mestre al’Vere. Metade dos garotos de Campo de Emond o fazia. Segundo se lembrava, a estrada contornava um lugar chamado Colinas de Absher até chegar a Ponte Branca.
De tempos em tempos Lan fazia com que eles desmontassem no alto de uma das colinas, de onde ele podia ter uma boa visão da estrada tanto à frente quanto atrás, assim como da paisagem campestre que os cercava. O Guardião estudava a vista enquanto os demais esticavam as pernas ou se sentavam sob as árvores e comiam.
— Eu costumava gostar de queijo — disse Egwene no terceiro dia depois da partida de Baerlon. Ela sentou-se encostada no tronco de uma árvore, fazendo uma careta para um almoço que era mais uma vez idêntico ao desjejum e ao que seria a ceia. — Nem uma chance de tomar um chá. Um chá quente e delicioso. — Ela puxou seu manto para perto e se moveu em volta da árvore num esforço inútil para evitar o vento redemoinhante.
— Chá de raiz-de-fadiga e raiz de andilay — Nynaeve ia dizendo a Moiraine — são os melhores para a fadiga. Clareiam as ideias e reduzem a queimação nos músculos cansados.
— Tenho certeza de que sim — murmurou a Aes Sedai, dando a Nynaeve um olhar de esguelha.
O maxilar de Nynaeve se retesou, mas ela prosseguiu no mesmo tom.
— Agora, se você precisar ficar sem dormir…
— Nada de chá! — disse Lan, ríspido, a Egwene. — Nada de fogo! Não podemos vê-los ainda, mas eles estão aqui em algum lugar, um Desvanecido ou dois e seus Trollocs, e eles sabem que estamos pegando esta estrada. Não há necessidade de lhes dizer exatamente onde estamos.
— Eu não estava pedindo — resmungou Egwene para dentro do manto. — Só lamentando.
— Se eles sabem que estamos na estrada — perguntou Perrin —, por que não seguimos em linha reta até Ponte Branca?
— Nem mesmo Lan consegue seguir pelo campo tão rápido quanto pela estrada — disse Moiraine, interrompendo Nynaeve —, especialmente não pelas Colinas de Absher. — A Sabedoria soltou um suspiro exasperado. Rand se perguntou o que ela estaria tramando; depois de ignorar a Aes Sedai completamente no primeiro dia, Nynaeve havia passado os dois últimos tentando conversar com ela sobre ervas. Moiraine afastou-se da Sabedoria enquanto continuava a falar. — Por que vocês acham que a estrada faz uma curva para evitá-las? E mais tarde teríamos de voltar a esta estrada. Poderíamos acabar descobrindo que eles estão à nossa frente em vez de nos seguindo.
Rand parecia em dúvida, e Mat resmungou alguma coisa a respeito de “dar uma volta enorme”.
— Você viu alguma fazenda esta manhã? — perguntou Lan. — Ou mesmo a fumaça de uma chaminé? Não viu, porque é tudo desolado de Baerlon a Ponte Branca, e Ponte Branca é onde devemos cruzar o Arinelle. É a única ponte sobre o Arinelle ao sul de Maradon, em Saldaea.
Thom bufou e soprou os bigodes.
— O que os impede de já ter alguém, alguma coisa, em Ponte Branca?
Do oeste veio o lamento agudo de uma corneta. A cabeça de Lan se virou subitamente para olhar a estrada atrás deles. Rand sentiu um arrepio. Uma parte dele permanecia calma o bastante para pensar: dez milhas, não mais.
— Nada os impede, menestrel — disse o Guardião. — Nós confiamos na Luz e na sorte. Mas agora sabemos com certeza que há Trollocs atrás de nós.
Moiraine bateu as mãos, limpando-as.
— Está na hora de seguirmos. — A Aes Sedai montou em sua égua branca.
Isso deflagrou uma correria até os cavalos, acelerada por um segundo toque da corneta. Dessa vez, outras responderam, os sons agudos do oeste como um cântico fúnebre. Rand se preparou para colocar Nuvem num galope imediatamente, e todos os outros seguraram as rédeas com a mesma urgência. Todos menos Lan e Moiraine. O Guardião e a Aes Sedai trocaram um olhar demorado.
— Mantenha-os em marcha, Moiraine Sedai — disse Lan finalmente. — Voltarei assim que puder. Você saberá se eu fracassar. — Colocando a mão na sela de Mandarb, ele pulou nas costas do garanhão negro e desceu galopando a colina. Para o oeste. As cornetas voltaram a soar.
— A Luz o acompanhe, último Senhor das Sete Torres — disse Moiraine quase baixo demais para que Rand ouvisse. Respirando bem fundo, ela girou Aldieb para leste. — Precisamos seguir em frente — disse e iniciou num trote lento e firme. Os outros a seguiram numa linha rígida.
Rand se virou na sela para olhar para Lan, mas o Guardião já havia se perdido de vista entre as colinas baixas e as árvores sem folhas. Último Senhor das Sete Torres, ela o chamara. Ele se perguntou o que isso significava. Não havia pensado que alguém além dele próprio tivesse ouvido, mas Thom estava mastigando as pontas dos bigodes, e seu rosto estava franzido de modo especulativo. O menestrel parecia saber muitas coisas.
As cornetas soaram e responderam mais uma vez atrás deles. Rand se mexeu na sela. Estavam mais perto dessa vez; ele tinha certeza disso. Oito milhas. Talvez sete. Mat e Egwene olharam sobre o ombro, e Perrin encolheu-se, como se esperasse que alguma coisa o acertasse pelas costas. Nynaeve cavalgou até Moiraine para falar com ela.
— Não podemos ir mais rápido? — perguntou. — Essas cornetas estão chegando mais perto.
A Aes Sedai balançou a cabeça.
— E por que eles nos fazem saber que estão lá? Talvez para que nos apressemos sem pensar no que pode estar nos esperando adiante.
Eles continuaram no mesmo ritmo constante. Em intervalos, as cornetas gritavam atrás deles, e a cada vez o som ficava mais próximo. Rand tentou parar de pensar na proximidade, mas o pensamento se libertava a cada alarido. Cinco milhas, ele pensava, ansioso, quando Lan subitamente irrompeu em volta da colina atrás deles num galope.
Ele alcançou Moiraine e puxou as rédeas do garanhão.
— Pelo menos três grupos de Trollocs, cada qual liderado por um Meio-homem. Talvez cinco.
— Se você chegou perto o bastante para vê-los — disse Egwene, preocupada —, eles podem ter visto você. Podem estar bem nos seus calcanhares.
— Ele não foi visto. — Nynaeve endireitou-se quando todos olharam para ela. — Eu segui a trilha dele, lembre-se.
— Psiu — ordenou Moiraine. — Lan está nos dizendo que há, talvez, quinhentos Trollocs atrás de nós.
Um silêncio aturdido se seguiu, e então Lan voltou a falar.
— E eles estão fechando o cerco. Chegarão até nós em pouco menos de uma hora.
Quase que para si mesma, a Aes Sedai disse:
— Se eles eram tantos assim antes, por que não foram usados em Campo de Emond? Se não eram, como chegaram aqui desde então?
— Eles estão espalhados para nos atrair para a frente deles — disse Lan —, com batedores avançando à frente dos grupos principais.
— Nos atraindo na direção de quê? — ponderou Moiraine. Como se em resposta, uma corneta soou ao longe, a oeste, um longo gemido que dessa vez foi respondido por outros, todos à frente deles. Moiraine deteve Aldieb; os outros a imitaram, Thom e todos de Campo de Emond olhando ao redor com medo. Cornetas soaram à frente deles, e atrás. Rand achou que elas continham uma nota de triunfo.